Do silêncio
21 de janeiro de 2010 às 14:37 - Comentar
Não é o trânsito que mais me incomoda em São Paulo. Aos poucos a gente descobre um atalho aqui, uma ruazinha ali, uma manha acolá que facilita o caminho; como matar o tempo ouvindo rádio ou simplesmente aceita o tempo que se perde – segundo pesquisa, em média três horas diárias – cercado de carros sem conseguir ir a lugar algum.
Tem a poluição, que alimenta o pudim negro acima dos prédios. Ou ainda a falta de horizonte. Onde quer que se olhe é concreto. Mas nenhum desses incômodos supera o barulho.
Dei sorte (em termos) de ate hoje morar em lugares relativamente silenciosos. O que torna ainda mais dramática a saída de casa. E nessa pisada você acaba vivendo dez meses do ano em prol de dois: janeiro e fevereiro.
Que é quando a coisa amaina, acalma, sossega. A turba desce a serra e vai à praia e o ano, que é uma mistura de começo de aulas e volta das férias, começa mesmo depois do carnaval.
Há silêncio nas ruas. Uma avenida Sumaré vazia que se segue a Brasil um pouco mais movimentada para cair de vez na taciturnidade do Jardim Europa com suas ruas frondosamente arborizadas e casarões vazios nessa época do ano.
Por causa disso, há um refrigério, uma comunhão com o silêncio. Mais ou menos como escreve Philip Roth em ‘A Marca Humana’ (Cia das Letras, 2003): Para viver longe de todos os envolvimentos, todas as atrações e expectativas que nos perturbam a paz, longe, sobretudo, de nossa própria intensidade, o segredo é organizar o silêncio, (…) encarar o silêncio como uma riqueza que está se multiplicando constantemente. O silêncio que nos cerca é a vantagem que escolhemos, e é só com ele que temos intimidade. O segredo é encontrar sustento nas [Hawthorne mais uma vez] “comunicações de uma mente solidária consigo mesma”.
Entre uma coisa e outra, a percepção da paz que se abate sobre a cidade esses dias e o usufruto da mesma, vejo-a se movimentando como em slow motion, com novos e ricos detalhes, e nisso reside grande parte do prazer de fazer parte da engrenagem local. Quiçá, é por essa brecha de dois meses que de fato a conhecemos. Pelo despertar suave dos seus dias, das pessoas.
Impressões que levam a Haruki Murakami e o seu belíssimo ‘Após o Anoitecer’ (Alfaguara, 2009), descrevendo a cidade sem nome levantar da noite: Somos um autêntico ponto de vista e do céu olhamos a cidade. Observamos a cena do despertar de uma metrópole gigante. Os trens de passageiros, pintados em várias cores, saem em diferentes direções transportando pessoas de um lugar a outro. Cada passageiro tem um rosto e uma mente diferente, mas ao mesmo tempo, todos fazem parte de uma massa constituída de anônimos. Formam um conjunto e, ao mesmo tempo, são apenas peças dele. Enquanto convivem habilmente e de modo conveniente com essa dualidade que os cerca, cumprem seus rituais da manhã com extrema precisão e rapidez: escovam os dentes, fazem a barba, escolhem a gravata ou passam o batom. Assistem aos noticiários da TV, conversam com os familiares (…)
É mais ou menos isso que vejo enquanto demoro inacreditáveis (para os padrões paulistanos) dezenove minutos para ir de casa ao trabalho. Enquanto isso, torcendo para que se demorem uns dois ou três meses até que o ano comece de verdade e a cidade vire o caos de sempre. Sem silêncio e corroída pela pressa.


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