Crônicas e Artigos

Dois livros (primos) de poesia

livio

UM DELES.

Dos livros de poesia que indico aos leitores nestes dias, esse não larguei na calçada antes de terminar. Dediquei-me a uma leitura sem interrupção.

O livro de Marina Rabelo, Das coisas que larguei na calçada (Caravela Selo Cultural; 2016), é daqueles que se lê com um prazer potencializado. São poemas curtos que se nos presenteiam com um forte e concentrado erotismo associado a doses medidas de ironia e mesmo algum sarcasmo.

Há um componente de desilusão que se faz substituir, a todo instante, pelas íntimas ousadia e superação, sempre com uma reapropriação do corpo, sem amarras externas e sem limites para o toque em carnes imaginárias (ou mais do que reais).

Nesse livro, até sua engenhosa forma gráfica, concebida em dobraduras, quase um origami, leva-nos a invadir segredos do corpo em meio aos mistérios que vão se abrindo diante dos nossos olhos famintos pela palavra orgástica.

Diante dos medos que qualquer nova leitura nos impõe, um receio não tenho: o de não encontrar o ‘ponto g’ do prazer literário.

Também não tenho qualquer receio em afirmar que Marina veio mesmo pra ficar. E trará, no futuro, mais poesia de alta voltagem para (se) nos entregar.

É do livro, é de Marina: “Antes de dormir/Acaricio meus pelos/Pubianos/Abro os lábios/Umedeço os dedos/E conto a Deus/Todos os segredos/Ele goza/De rir”.

livio_2O SEGUNDO DELES.

Para falar sobre poetas que nos trazem algo novo e interessante, diferente de alguma poesia esgotada, enfadonha e com ácaros que às vezes encontramos por aí, não há como não falar de Thiago Medeiros e do seu Para eu parar de me doer, também uma edição da Caravela, ano passado de 2016.

Entre as páginas cor-de-rosa do seu livro, com detalhes e palavras e pensamentos e sonhos selvagens – em p&b e também multicoloridos – vê-se e desata-se uma poesia dramática e dramatizante. Elétrica-eletrizante.

Thiago aparece como bicho raro que empunha bandeiras e derrama vísceras no asfalto da avenida. Não aceita freios para a sua ousadia poética e revela, a todo instante, as origens embrionárias do seu verso corajoso, radical, irreverente e subversivo (quanto a fórmulas e práticas ultrapassadas ou que comportem a crítica da inutilidade de certos talhes).

Um conselho: se você não quiser saber de tempestade e embriaguez, se não aceitar ouvir algaravia inquieta e drama profundo, se não tolerar ouvir canções de solidão lancinante e de dor em delírios (canções entremeadas por prazeres noturnos e diurnos), não se atreva a ler Thiago.

No entanto, se você souber que também precisa encontrar tudo isso na poesia, deleite-se com o alimento.

Eu falo por mim: vale a pena ler o livro de Thiago Medeiros. Até para que a dor não fique doendo pela cegueira de não o ter lido.

É do livro, é de Thiago: “entre a tempestade silenciosa/e o barulho/prefiro a confusão das palavras soltas./entre o silêncio cinza e o amarelado/das folhas antigas/prefiro me embriagar/e queimar os papéis em fumaça./entre a solidão dos livros na estante/e as fotografias mortas/eu acho a vida./entre a espuma e a parede/me atiro na espada/e sou livre…”.

Leio tudo, Marina e Thiago, e digo: tudo é promessa. Mas, definitivamente, já é!

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