DOIS POEMAS DE VENEZA
7 de julho de 2010 às 15:21 - 4 Comentários
Publicados no site Interpoética (aqui)
O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Sob o sol silencioso.
Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.
O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Nas árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.
Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Espaço por sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.
Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem
À espera dos anos sem emoção.
Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
Que não viram as crianças
Se afogando.
Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste,
No limite da cerca-viva
De erva e detritos do lixo
Avançando até o velho gradil
De gladíolos brancos.
É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém,
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.
Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.
Surdamente, então, o segundo poema
Emerge da água pesada
Sobre a cabeça de mármore:
**********
2. OLHAR QUE O SOL NÃO CONFUNDIU
E o vento não mordeu
E a chuva fez nublar
Só de lágrimas emprestadas,
Quem pode encarar o Deus
Sem a máscara dos olhos
Um pouco mais do que vazados?
Juro que o vi, como Turner,
No olho terrível do Tornado.
Era algo debaixo do miasma
Dos miasmas que engrossam
A lama da laguna em dias
De pequenos peixes mortos
Entre camisas de cópula
E sacos aéreos de vômito
Antes da queda
No leite talhado.
Juro que eu vi o que eu vi
Em dois poemas da morte
No ar, no mar e aqui
Na terra desolada dos poetas
Que anunciam a Desgraça
Do tédio final de Bizâncio.
Estamos nele.
Melhor (ou pior): estamos um pouco além
Desse famoso sentimento do nada
Contemplado pelos deuses
Que nos abandonaram
Na branca ausência de espanto
Dos mármores tombados
Em meio à perfeita indiferença
De cariátides feitas de beleza
Extrema e cálculo
Para uma arquitrave.
Terminou a viagem.
Chegamos, sim, para ouvir
O pássaro de ouro cantar
Uma Era de Impiedade.
Ao olhar para trás,
Sabemo que passamos
Do limite, do ponto de retorno.
Fomos longe demais,
E nada serve a nada
No futuro que naufraga
Como o rosto cinzelado
Na suspensa piscina
Que responde ao mirar
Da ruína com a pura vaga
de mormaço.



4 Comentários
Grande Monteiro, que bom voce de volta trazendo Veneza e Poesia.
Amo essa cidade. Não sei o que é mais belo. A cidade,as mulheres, os antiquários, e andar nessas gondolas ouvindo ópera.
Foi nessa cidade que vi uma Exposição sobre o Futurismo e nunca mais fui o mesmo
Gostei muito do poema
abração
Caro Tácito, belos os
poemas. Os versos densos, seu ritmo, exigiam porém a pausa (tal como se dá na postagem do site Interpoética) entre as suas estrofes. Da maneira como foram formatados, no SP, os poemas ficaram, a meu ver, visivelmente prejudicados. Que Fernando Monteiro compareça, com mais frequência, no nosso SP. É o que desejo.
Você tem razão, Jarbas. Ainda bem que tinha o link. Deu um trabalhinho, mas consegui corrigir o erro. Grato pela dica.
Abs
João, Jarbas:
Obrigado pela leitura. Leitores de Poesia como vocês dois são, hoje se contam nos dedos (e talvez não encham duas mãos)…