DOIS POEMAS DE VENEZA

7 de julho de 2010 às 15:21 - 4 Comentários
Por fernando monteiro

Publicados no site Interpoética (aqui)

1. VISÃO DE VAPORETTO

O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Sob o sol silencioso.

Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.

O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Nas árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.

Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Espaço por sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.

Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem
À espera dos anos sem emoção.

Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
Que não viram as crianças
Se afogando.

Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste,
No limite da cerca-viva
De erva e detritos do lixo
Avançando até o velho gradil
De gladíolos brancos.

É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém,
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.

Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.

Surdamente, então, o segundo poema
Emerge da água pesada
Sobre a cabeça de mármore:

**********

2. OLHAR QUE O SOL NÃO CONFUNDIU

E o vento não mordeu
E a chuva fez nublar
Só de lágrimas emprestadas,
Quem pode encarar o Deus
Sem a máscara dos olhos
Um pouco mais do que vazados?

Juro que o vi, como Turner,
No olho terrível do Tornado.

Era algo debaixo do miasma
Dos miasmas que engrossam
A lama da laguna em dias
De pequenos peixes mortos
Entre camisas de cópula
E sacos aéreos de vômito
Antes da queda
No leite talhado.

Juro que eu vi o que eu vi
Em dois poemas da morte
No ar, no mar e aqui
Na terra desolada dos poetas
Que anunciam a Desgraça
Do tédio final de Bizâncio.

Estamos nele.
Melhor (ou pior): estamos um pouco além
Desse famoso sentimento do nada
Contemplado pelos deuses
Que nos abandonaram
Na branca ausência de espanto
Dos mármores tombados
Em meio à perfeita indiferença
De cariátides feitas de beleza
Extrema e cálculo
Para uma arquitrave.

Terminou a viagem.
Chegamos, sim, para ouvir
O pássaro de ouro cantar
Uma Era de Impiedade.
Ao olhar para trás,
Sabemo que passamos
Do limite, do ponto de retorno.

Fomos longe demais,
E nada serve a nada
No futuro que naufraga
Como o rosto cinzelado
Na suspensa piscina
Que responde ao mirar
Da ruína com a pura vaga
de mormaço.

4 Comentários

  1. João da Mata
    7 de julho de 2010

    Grande Monteiro, que bom voce de volta trazendo Veneza e Poesia.

    Amo essa cidade. Não sei o que é mais belo. A cidade,as mulheres, os antiquários, e andar nessas gondolas ouvindo ópera.

    Foi nessa cidade que vi uma Exposição sobre o Futurismo e nunca mais fui o mesmo

    Gostei muito do poema

    abração

  2. Jarbas Martins
    7 de julho de 2010

    Caro Tácito, belos os
    poemas. Os versos densos, seu ritmo, exigiam porém a pausa (tal como se dá na postagem do site Interpoética) entre as suas estrofes. Da maneira como foram formatados, no SP, os poemas ficaram, a meu ver, visivelmente prejudicados. Que Fernando Monteiro compareça, com mais frequência, no nosso SP. É o que desejo.

  3. 7 de julho de 2010

    Você tem razão, Jarbas. Ainda bem que tinha o link. Deu um trabalhinho, mas consegui corrigir o erro. Grato pela dica.
    Abs

  4. Fernando Monteiro
    7 de julho de 2010

    João, Jarbas:
    Obrigado pela leitura. Leitores de Poesia como vocês dois são, hoje se contam nos dedos (e talvez não encham duas mãos)…

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”