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Dom Inácio, meu amigo – precisa de orações e pensamentos positivos

Inácio Sena Magalhães está muito doente no Hospital do Coração. Esteve na UTI, mas felizmente teve uma leve melhora e saiu para a enfermaria. Aos 78 anos seu estado de saúde é muito delicado. Precisa de nosso apoio. Fui visitá-lo e fiquei com o coração dilacerado. Ele estava entubado e fazendo hemodiálise. Sua sobrinha o visita diariamente.

“São os livros os mestres mudos que ensinam sem fastio, falam a verdade sem respeito, repreendem sem pejo, amigos verdadeiros, conselheiros singelos; e assim como a força de tratar com pessoas honestas e virtuosas se adquirem, insensivelmente, os seus hábitos e costumes, também à força de ler os livros, se aprende a doutrina que eles ensinam”. Padre Antonio Vieira – Quatro séculos de nascimento.

O livro muda a nossa vida. Os livros são os tijolos com que construímos nossa cidadela. A cidadela de Inácio é construída de livros. Ele é um livro-pessoa como na fábula de Ray Bradbury em Fahrenheit 431. Inácio é como um Julien que não se cansa de abrir seus fólios e brochuras. Dom Inácio completou setenta anos e vive mergulhado num mar de letras e imagens. Sua biblioteca babélica é sua vida. Muito religioso, vive tranqüilo em sua loucura quixotesca.

Um devoto dos livros e dos amigos. Uma universidade ambulante. A praça das cocadas já foi sua Ágora. A livraria, sebos e filmes sua Pasárgada. Sua sede de saber e viajar é infinita. Sempre procurando. Sempre na companhia dos livros, nunca está só. Sua sobrinha não tem a mão secular e impiedosa da sobrinha do Quixote. O livro como representação e rastro de uma existência de devoto ex-vendedor de cavaco-chinês. Ora direis… Digo e proclamo que Dom Inácio é um mestre sem capêlo e sem canudos. Mestre de muitos que formaram suas bibliotecas com suas indicações precisas. Um erudito sem pompas e com muito humor. Dono de uma memória prodigiosa é, também, um viajante solitário que palmilhou todos os municípios do Rio Grande do Norte. Conhece todas as igrejas e padroeiros. Da virgem Maria já listou mais de cinco mil nomes. Numa casinha da Cidade da esperança mora um homem. Quem o vê assim não sabe que ali mora um guardiã da memória de gerações. Já foi entrevistado por duas vezes no programa Memória-Viva da UFRN, mas é pouco para o que Inácio tem para dizer e ensinar.

Como um Struve dom Inácio lê sempre – entre outros livros, o livro dos livros. Despido de todas as vaidades mundanas, o meu bom Inácio entregou-se aos “desígnios das autoridades”. Na epístola de Paulo aos Romanos; lê-se (XIII, 13 e 14):

“Caminhemos como de dia, honestamente; não em glutonarias e borracheiras, não em desonestidades e dissoluções, não em contendas e emulações; Mas revestidos do Senhor Jesus Cristo, e não façais caso da carne em seus apetites”.

Já viu quase todos os filmes. Viajou por todos os lugares nas páginas dos livros. Como um Santiago culto do filme de João Moreira Salles, conhece todos os reis e dinastias. Um amigo de Natal e de todos. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN pesquisa sobre o cinema em Natal nas décadas de 40 e 50 do século passado. Mas, o que Dom Inácio gosta mesmo é de indicar um Livro para um amigo. Desvendar mais uma senda nos escaninhos da memória e da existência. Mostrar uma vereda. Uma luta muitas vezes sem receber os louros de uma vitória de Samotrácia.

Inácio é assim como meu pai nascido a dez de dezembro. Um exemplo para todos nós. É contagiante sua sede de conhecimento. Conversar com Inácio é uma conversa cheia de encanto. Gostoso e não enjoa. Do medievo, que ele conhece bem, pode-se passar para o sebastianismo. Depois Fellini. Ouve-se um solfejo de Nino Rota e chega-se a Canudos e Antonio Conselheiro. Sabe tudo do Padre Cícero. Lampião e Maria Bonita, Carlos Magno e seus pares fazem parte de um roteiro que não tem fim. Um caleidoscópio mágico que ofusca aos menos viajados.

Obrigado meu amigo. Parabéns pelos setenta e um anos. Buquinemos! Você é o nosso guia. Padroeiro de todos aqueles loucos por um livro. Uma história. Um filme. Um novo lugar para visitar. Uma loucura sã, como dizia o grande bibliófilo José Mindlin.

Melhoras meu amigo

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João da Mata

Comentários

1 comment

  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 5 setembro, 2017 at 00:43

    Belíssima texto Professor João da Mata, apesar de não conhecer D, Inácio pessoalmente passei á admira-lo através de suas postagens e de seu trabalho em prol da cultura universal e potiguar, Uma linda e afetuosa homenagem parabéns

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