Dona Militana e a astúcia das almas

Edilberto C.
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Aí os meninos: “Que foi mamãe?”. Eu digo: “Porque deram uma joelhada aqui na porta, na, na parede”. Aí eles: “Mamãe não tem juízo não!”. Eu digo: “Eu tenho, é porque é astúcia das alma”.

Falei no artigo anterior sobre a autoridade de Dona Militana e os rituais fúnebres, associada a antigas sacerdotisas de práticas arcaicas.

A revelação da sabedoria de seu ofício funéreo, mostrando uma morte concreta e presente no centro da casa, levou-me a questioná-la sobre a permanência da alma e dos medos que povoam o imaginário das gentes.

Para Edgar Morin (1997), a morte é um mistério incognoscível, e a crença na continuidade da alma gera o medo natural do que se apresenta como duplo dos vivos.

Elas permanecem entre os vivos, com certa materialidade, ao ponto de bater na porta ou janela da casa, apertar a mão das pessoas e, inclusive, serem vistas. É o caso de nossa heroína.

Sendo a responsável pelos rituais fúnebres que propiciam aos moribundos uma ‘boa morte’, mostra-se igualmente capaz de ‘domesticar’ as almas.

De certa forma, o morto se perpetua na vida pós-morte. E ele precisa estar preparado para enfrenta-la, sob risco de permanecer entre os vivos e perturbar a harmonia social.

Destaco três relatos de algumas dessas aventuras com os mortos.

A guardiã das orações

 É! Eu nunca temi o mundo. Um dia: “A senhora dorme aí e não tem medo não?” E eu: “Ter medo de que, eu num tou dentro de casa? Se eu tiver do lado de fora!”.  

 E uma noite eu tava deitada.  Não tinha rezado, que eu tenho a obrigação de toda noite rezar pras almas dos esquecidos e rezar pra o meu povo que já se foram. E nessa noite eu não tinha rezado. Aí eu me deitei. Quando eu me enrolei, ou deram uma joelhada ou foi uma bandada em frente a janela. Chega estremeceu. Aí eu me levantei, abri a janela, espiei pra fora, não tinha ninguém.

Eu digo: “Vai dar joelhada na puta que te pariu, magote de filho de uma puta!”. Aí os meninos: “Que foi mamãe?”. Eu digo: “Porque deram uma joelhada aqui na porta, na, na parede”. Aí eles: “Mamãe não tem juízo não!”. Eu digo: “Eu tenho, é porque é astúcia das alma”.

Função social da reza

Na narração, as almas mostram astúcias de vivos, o que leva Dona Militana a se auto impor a obrigação de rezar para os esquecidos e parentes mortos.

A falta no cumprimento dessa função social permite que o morto ultrapasse os limites impostos entre vida e morte.

A forma malcriada como ela se dirige a essas almas mostra familiaridade, ao mesmo tempo em que espanta os filhos, pois, em geral, se deve guardar certo respeito e temor por esse universo.

É a própria Dona Militana que nos diz isso, agora no diálogo a seguir.

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Negócio de outro mundo é feio

Negócio do outro mundo é feio! Um dia tava perto do dia de finado, aí quando chegou o dia, aí eu comprei vela. Sim, o pai de madrinha Maria Mulata. Fazia três dias que eu tinha sonhado com ele me pedindo um padre Nosso, que nem rezavam pra ele, nem acendiam uma vela em intenção dele.

Ele tava no pardo. Aí eu, aí Antônio Damião disse: “A senhora vai, a gente vai no cemitério, a senhora leva as velas pra acender”.  

Eu digo: “Eu vou!”. Aí fui eu, Sebastiana, que é minha filha, mora lá embaixo, e Francisca. Fomo um bocado do Oiteiro e eu levei cinco maços de vela. Aí cheguei e acendi as velas, que as dele era pra acender na capela.

Aí eu acendi. Quando eu saí, fui chegando na porta do cemitério, aquela mão grossa pegou na minha. Aí apertou minha mão. Quando apertou minha mão, eu digo: “É pra acender as velas, eu já acendi”.

Aí os meninos correram. Mas eu me ri nesse dia. Vieram esperar por mim de frente aquela derradeira bodega que tem..

Edilberto C.: Correram? Mas não viram nada não?

Não. Aí eu disse: “Num foi nada não, menino, foi Zé Manuel Mulato que apertou minha mão”. Deu os agradecimentos de eu ter rezado por ele. Deu os agradecimentos de eu acolher o maço de vela e ter rezado pra ele. Se encheram no mundo na carreira. Francisca inda tá viva, Francisca e Sebastiana, pra contar isso.

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“[…] E nessa noite eu não tinha rezado. Aí eu me deitei. Quando eu me enrolei, ou deram uma joelhada ou foi uma bandada em frente a janela. Chega estremeceu. Aí eu me levantei, abri a janela, espiei pra fora, não tinha ninguém”.

Edilberto C.: Mas a senhora não viu não, só sentiu?

Senti aquela mão fria, aquela mão grossa, apertando minha mão, e balançou meu braço.

Edilberto C.: Aí nunca mais sonhou com ele? Acabou-se aí?.

Aí nunca mais!”

Dois planos de existência

Ela fala com a autoridade de quem está familiarizada e preparada para transitar entre os dois planos da existência. A alma se anuncia em sonho e lastima ter sido abandonada sem reza e velas.

Na falta dos símbolos, ela se põe, no dizer de Dona Militana, “no pardo”. Cumpridos os ritos exigidos, a alma mostra concretamente sua gratidão, apertando-lhe as mãos.

Na falha desses símbolos materiais, quando a alma se mostra indômita, é necessário que se tenha também a autoridade da palavra divina.

É o que ocorre no relato a seguir, quando, embora Dona Militana tenha cumprido a sua função ritual, os mortos se mostram rebelados.

Almas rebeladas

Um dia, eu sonhando que, fazia pouco tempo que tinha morrido um cara ali, dessa subida pra lá. Aí eu, aí disseram assim, tavam falando mal dele. Aí eu digo: “Deixe de tá falando dos outros. Vocês em vez de desejar o cara achar a graça de Deus, aí põe-se falando dele”.

Aí eu digo: “Eu vou acender um maço de vela pra ele, lá no pé da cruz”. Aí fui. Aí quando chegue, que acendi a derradeira vela, aquela mão fria pegou na minha.

Eu digo: “Solte a minha mão, com as palavras de Deus, porque não tem quem possa mais do que Deus, e segue em busca de Deus e da Virgem Maria”. Aí saíram e resmungaram e eu digo: “Ainda vai resmungando?”. Aí a menina disse: “O que mamãe?”.  

E eu digo: “Ainda tão resmungando de mim, dê os agradecimentos”. Tudo viram quando ele passou. A gente passou por debaixo da cerca e ele passou sem se abaixar.

dona-militana-o-duplo-e-a-astucia-das-almas-capaMemória transcende o universo individual

Nesse caso, ela ordena, investindo-se do nome de Deus e da Virgem Maria, ao que é obedecida, mas não sem que resmunguem.

Esse convívio íntimo com a morte é que dá a Dona Militana o direito legítimo de ser a portadora das histórias que compõem o universo cultural de seu povo e de sua comunidade.

Em toda a sua fala salta aos olhos a experiência da vida e da morte que eleva a romanceira à condição de porta-voz de sua comunidade.

Ao longo do seu discurso se entrelaçam inúmeros fios que formam o tecido da memória. Nele se estampa um mundo de saberes ainda artesanais, dos quais ela figura como uma fonte viva.

Nela se fundem os dois tipos de narradores arcaicos de que falava Walter Benjamin no primeiro terço do século XX, pois levando uma vida camponesa e sedentária, acumulou ao longo da vida saberes daqui e de além-mares.

Romances de cangaço e ibéricos, contemporâneos e medievais, se juntam numa memória forjada na terra, autorizada pela experiência de vida e legitimada pela tradição.

Aparentemente falando de sua vida pessoal, sua memória transcende o universo individual e penetra na coletividade. Falando de si, ela nos diz de seu universo, não sem deixar impressa sua marca, como a “a mão do oleiro na argila do vaso” (Benjamin).

Convivendo com a morte, Dona Militana está consciente e preparada para as limitações e tragédias da existência. Em sua memória, a vida é uma aventura e uma peregrinação.

Em cada uma das histórias contadas por ela, em que figura como heroína, o ouvinte é convidado a partilhar da reminiscência e vê construir-se diante de si a experiência da vida. Porque ela ainda faz sentido e não se desintegrou nos fragmentos do mundo moderno.

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Edilberto C.

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