DORIAN GRAY CALDAS: Morre o maior nome das artes plásticas potiguares

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Em 3 de setembro de 2010 eu entrevistei Dorian Gray Caldas. Mesmo o contato por telefone já me deixou um tanto nervoso. Já tinha experiência, já tinha um lastro curricular razoável com figuras importantes do cenário nacional, mas aquela voz suave, pausada e sábia me tiraram um pouco o norte. Conhecia a dimensão de sua obra precursora nas artes plásticas potiguares e admirava mais ainda sua poesia e artigos publicados na Tribuna do Norte. Era uma figura amável no trato com as pessoas, com os jornalistas e com as palavras impressas. Talvez por isso meu nervosismo. Era o medo de errar, de parecer meio bobo ou causar algum constrangimento. Anos depois o vi numa exposição na Galeria Newton Navarro, na Capitania das Artes. Olhava uma tela de um pintor que esqueci o nome (Plínio Sanderson estava comigo um pouco antes e pode lembrar), Dorian se aproximou e comentou: “Beira a perfeição”. Falou como para si, também a olhar para a tela. Lembro que falei alguma bobagem, ratificando a assertiva. E esses foram nossos contatos mais intimistas. Desconfio que Dorian também buscou essa perfeição durante toda a vida. Os grandes artistas talvez se movam por esse ideal. E nisso foram 86 anos de busca e construção de um legado artístico e pessoal que beira a perfeição.

Segue abaixo meu primeiro papo com o artista:

A sina de um veterano

FOTO: Rodrigo Sena/Tribuna do Norte

Um homem à frente dos rótulos delimitadores da arte. Dorian Gray Caldas já pulou as trincheiras do pós-moderno com o vigor de um jovem de 80 anos. A mocidade contemporânea corre atrás de seus passos, sob o desdém do artista. Dorian pinta a contemporaneidade da alma e produz vida moderna em aquarelas, poemas e esculturas. É sina há 60 anos. Na noite de hoje, pontuações das várias fases artísticas de Dorian Gray estarão à mostra na inauguração da Galeria Projettare – concebida por um grupo de arquitetas -, a partir das 20h. A galeria está localizada na avenida Engenheiro Roberto Freire, 3080, Capim Macio. E ainda neste mês de setembro outras exposições do artista que inaugurou a arte moderna em Natal nos anos 50 irão acontecer.

Entrevista >> Dorian Gray Caldas

Vimos recentemente a falência da Anjo Azul. Natal ainda comporta galerias?
Quanto mais, melhor. A Anjo Azul se agigantou demais. O trabalho das pequenas galerias soma muito. Elas são dinâmicas, versáteis e cumprem a função de galeria.

A exposição trata das “várias fases” de Dorian?
São pontuações do meu trabalho. Recentemente fiz exposição na Pinacoteca. Estou fazendo uma pela NAC. Em 15 de setembro exponho no Museu Câmara Cascudo. E tenho agendada outra na Assembleia Legislativa, com a inauguração do painel sobre Clara Camarão e comemoração dos meus 60 anos de atividade.

O senhor se considera um artista contemporâneo?
Vou além desses rótulos modernistas. Cumpro minha missão como artista. Tenho minhas propostas e maneiras de ver as coisas. Vejo o que sou, não o que você vê. Criei identidade com minha cidade e meus prazeres. Acompanhei a contemporaneidade de Natal junto com outros artistas que fizeram essa contemporaneidade. Nos anos 50 éramos seis. Hoje são mais de 200 artistas. E mais atentos aos movimentos da arte, que chegam pela TV, pela internet. São artistas multimídia. Não é mais aquele artista provinciano. Se o artista atual produz bem ou mal, produz com consciência.

Já não há mais a influência da Belle Époque francesa…
Antigamente tínhamos a influência do impressionismo francês. Hoje há uma visão macro, pois a arte chega pelas mídias. O espírito artístico dos anos 50 era mais acanhado. Eu, (Newton) Navarro e Ivon Rodrigues fomos desbravadores quando promovemos o 1º Salão de Arte Moderna de Natal. Antes, nos anos 20, tinha Erasmo Xavier, que desenhava charges e caricaturas já com traços impressionistas. Mas não fez movimento artístico. Era uma visão mais da charge, aquém do que pedia a modernidade de 22. Di Cavalcanti, por exemplo, começou fazendo charge e evoluiu à arte moderna. Ser moderno tem que corromper, interferir na cor. É o que diferencia.

E qual a cor de Natal? Combina mais com a paisagem parnasiana ou matizes mais tropicais?
DSC04599Essa coisa do tropicalismo – trazida por Gilberto Freire e por nosso Cascudo –; essa diferenciação da cor local e universal é muito importante. A cor de Natal é diferente. O mar, os paredões das casas antigas, as fitas dos conguistas dos autos, os festivos dos brincantes do nosso folclore dão matizes diferenciadas até dos sulistas. As cores de São Paulo, por exemplo, se assemelham mais aos cinzas franceses. Até em nossa arte primitiva, os naifs, são cores diferentes dos internacionais. Nossas cores são mais tropicais.

Quem seria o destaque nas artes plásticas do RN hoje?
Fiz levantamento com mais de 200 modernistas para um dicionário. Muitos nasceram depois dos anos 50. São artistas de primeira linha que rivalizam em qualidade com qualquer artista do Sul ou do Norte. É uma arte capaz de figurar em qualquer calendário do Brasil ou exterior.

Mas Natal não consagra.
A arte é muito emblemática. A cidade não consagra nem desconsagra ninguém, como disse Cascudo. Mas há condições para isso. Infelizmente, muitos artistas do RN são frustrados pela falta de mercado. Alguns morreram sem prestígio porque permaneceram na cidade. Isso é do ofício de ser artista. Van Gogh enfrentou esse problema. São condições sociais. Nossa cultura não está à altura de compreender o artista. Muitos fazem arte que não é pra Natal. São as variantes da atividade. Eu acreditei, continuei em Natal até por comodidade. Não digo que sou realizado porque a arte é procura, é exercício. Mas nasci com essa vocação e vou ficando por aqui.

Matéria publicada no Diário de Natal em 03.09.2010

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Comentários

1 comment

  1. thiago gonzaga 24 janeiro, 2017 at 12:42

    Sergio, muito bom , muito boa mesmo a homenagem e a entrevista.
    Parabéns mesmo.
    O mestre Dorian merece todas as honras e homenagens.
    Vcs, como sempre, na frente.

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