Dorian Jorge Freire

24 de agosto de 2010 às 22:37 - Comentar

Por Luis Fausto

Para mim, o dia 24 de agosto dói no coração desde 2005.

Naquele ano morria em Mossoró, aos 71 anos, Dorian Jorge Freire. Pai, amigo, conselheiro, confidente. Jornalista reconhecido aqui e ali como um dos melhores que a imprensa brasileira já produziu.

Sinto saudade, muita saudade.

E dele pinço do diário que deixou guardado, um texto escrito em São Paulo no começo dos anos 70 do século passado.

Eis:

Digo porque sei. Já tentei, juro. É uma experiência empírica. E delas nascem as filosofias, mesmo as mais despreocupadas – segundo Leibnitz. Ou as mais complexas, também. Quantas vezes quis alterar tudo e escrever o meu próprio roteiro? Chamam a isso de personalidade. Tolice. Seria como escrever um epitáfio. Apenas fiz o que deveria fazer. O que teria de fazer. O que não poderia deixar de fazer. Nenhuma novidade, nenhum mérito. Até porque tudo estava previsto. Até nas minúcias. Desde a eternidade.

Jaime Hipólito Dantas, em carta, me diz que seria um problema de readaptação e cedo tudo estaria nos seus devidos lugares. As porcas nos eixos e os eixos nas porcas. Eu saltaria os obstáculos, que já os tenho saltado tantas vezes. Mas a questão não é o obstáculo. A ausência dele, sim. O obstáculo faz da corrida uma aventura, um desafio. Esfalfado, banhado em suor, ferido, ofegante, os trapos colados ao espinhaço, o homem continua correndo e saltando, saltando e correndo. Como se não houvesse outra coisa a fazer senão correr e saltar, saltar e correr. O que derruba o homem é a monotonia da caminhada sem acidentes nem surpresas. Porque assim nada acontece, nada pode acontecer, nada deve acontecer. E, portanto, nada acontecerá. E o homem irá ao chão. Vencido pela inutilidade mais do que pela exaustão.

No silêncio desta sala, após uma noite de tantos pensamentos e relembranças, passo a entender o que é aquilo a que os santos e místicos chamam de “nostalgia do céu”. E que não é, propriamente, uma vontade de anular-se. Mas um desejo de alcançar tudo. Carlos Lacerda diz que não quer muito, quer tudo. Também entro na faixa desse radicalismo. Tenho querido tudo, embora não tenha recebido muito. Mas é difícil pensar o céu. É impensável aquela bem-aventurança. O poeta queria saber que céu satisfaria o seu desejo de céu. Impossível o pensamento. Aquelas almas a cantarem salmos e a repetirem, satisfeitas, a ladainha de santo, santo, santo. O desafio interminável de “uma grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações e tribos, e povos, e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, revestidos de vestiduras brancas, e com palmas nas suas mãos”. Todos os que “vieram da grande tribulação, e lavaram em seus vestidos, e os embranqueceram no sangue do Cordeiro”. E “não terão mais fome nem sede, nem cairá sobre eles o sol, nem calor algum, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará e os levará às fontes das águas da vida, e Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos”.

O inferno é mais fácil de conceber. A danação. O purgatório? O dia adiado. A espera. A expectativa sem ódio. O limbo, não. É a impotência, a indefinição, cor morna, aspecto equívoco, esquivo. Sem futuro: um presente eterno de silêncios e de nadas. Nenhuma dor especial. Ou sofrimento como ato. A inutilidade. A paz de águas mortas, milenarmente estéreis. É isto. A possibilidade de erguer o braço, pronunciar a palavra, fechar e abrir os olhos, sorrir e chorar. E nada fazer, porque falta alento. E não importa nada.

O rumor que vem lá de fora é agora menos indistinto. Começo a compreender vozes. Aquela fininha é da menina de tranças, sardenta de pernas em arco. Aquele gaguejar, de menino taludo em véspera de mudar de voz e de receber pêlos. Aquela risadinha estrídula, da menininha em lua-de-mel com o primeiro sangue. Cantam – e eu distingo o seu canto. E amo a melodia. Ela entra pela janela, repercute no quarto, dança em volta de mim, acalenta a manhã vazia.

“Bom barquinho, bom barquinho

Deixarás passar,

Carregado de brilhantes…”

Gostaria de ir à janela para vê-los. A cantiga nascendo de seus lábios e tomando a calçada, e invadindo casas, e provocando ontens. Mas nem tentarei. Romperia o encantamento. Erguer-me, não. Limito-me a cerrar mais fortemente as pálpebras. A cantiga continua volteando em torno de mim, como um convite. Ou uma provocação. Traz o tempo de eu menino. Quando sabia de tudo e não havia os mistérios da maturidade. Arrebentar em soluços e assustar os passarinhos com o desespero adulto. Sentir a vontade de correr até eles e revelar o mundo, a realidade ímpar, sem barquinhos nem carregamentos de brilhantes. Houvesse, que adiantaria? Ninguém deixa passar o bom barquinho. Ele aderna na infância, submerso e traído. Traído mais do que submerso, porque ninguém faz outra coisa na vida senão negar e trair a infância.

Gosto de ouvi-los. Sentir que não há preocupações nem tristezas. Que as crianças brincam, os pintinhos correm, há vendedores na rua e trinados em viveiros próximos. O bom seria fosse sempre assim. Não houvesse mágoa. Poderia haver tristeza. Até tragédia. Mágoa, não. Mágoa é eczema. Ferida da peste. Desaparece por meses, engana o sofredor, faz com que pague promessas, reze novenas, acenda círios. Depois volta, retemperada e mais daninha. Mágoa é assim. Fica no fundo, na espreita. Mas volta. Gato de sete fôlegos e filosófico ceticismo. Os olhos do gato. Acesos nas trevas, lembrando lobisomens. Aparição de papa-fígados, inimigo de menino, desrespeitador de moça virgem e de viúvas inacessíveis.

Eu tenho – confesso – quase ódio contra os que me maltratam e perseguem. Os injustos. Principalmente porque não me atingem sozinho, não me pegam individualmente. Vão longe. Alcançam a família, a mulher, os filhos, parentes como aderentes, próximos e afins. Daí o ódio grosso, viscoso, sortido. Dos outros é que guardo mágoa. Não me fizeram grande mal. Talvez nem me fizeram mal. Apenas se foram. Desapareceram, engolidos pela pusilanimidade. E isso é chato. Amigo que desaparece, não é amigo. A não ser que se meta sete palmos terra adentro, esperando o Juízo. Do contrário: canalha. E quando a gente descobre um canalha que foi amigo, o que fica é uma dor fina. A pontada renitente. Alfinete em dor de dente. Os inimigos estão no arquivo. Não interessam – são inimigos. E inimigo é coisa ruim, de quem nada se espera. Inimigo que não atenta, que não malicia, não obra safadeza, é inimigo desmoralizado. Sem grandeza e em vias de ser amigo. E o amigo traidor? O vômito do sentimento.

Recordo o olhar de Jesus para Pedro. Não foi de reprovação: ele sabia de tudo. Foi de mágoa. Daí o pescador que negou três vezes, haver chorado. Judas não teve aquele olhar. Tão grande era a mágoa do homem, que nem olhou o filho das trevas. Do contrário, ele teria repetido Pedro e não estaria sendo queimado nas festas de Aleluia.

Feijão no prato, farinha na cuia. Eu poderia escrever um tratado sobre a mágoa. Da mágoa. Não esqueceria de dizer que ela dói com intensidade, especialmente à noite. E no inverno, também. A gente deitado, o corpo em repouso, o espírito vadiando. Quando dá por si, está mergulhado em mágoa. Até a nuca. Sentindo o aguilhão. Começa recapitulando coisas, tecendo a colcha de retalhos. Pega daqui, junta dali, tira de acolá e o passado, num átimo, salta. Sangrento e doloroso. E repercute. Tentar dormir – inutilidade. O sono não chega. É pior. Surge mais afoita. Na vigília, é possível domá-la e reconduzi-la ao sótão das más lembranças. Faz-que-esquece. No sono, chega potencializada. E muitas vezes, quando se acorda, o corpo ainda treme e o travesseiro conta uma história úmida. Suor e lágrimas. Cismo.

As horas lindas foram as da infância. Quando as tristezas chegam, é que a infância se foi. Mas não se nota, na hora, o fim da infância. A gente só vem sentir depois, muito depois. Quando é tarde. E Inês é morta.

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante