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Dos touros da Água Branca

O touro é o rei do curral. Impõe respeito e se soubesse a força que tem, provavelmente, não teria quem chegasse perto, sobretudo, quando tamanho se soma ao sangue quente de algumas raças.

Na Água Branca, área próxima ao marco imaginário da Serra do Troncho que divide as terras da Paraíba com o Rio Grande do Norte entre São José de Espinharas e Serra Negra do Norte, terras de herança legada a Odacy Wanderley (1928-2016), homem dedicado à natureza e a tradição, chegou, anos atrás, uma vaca Guzerá muito boa, sem papel, mas em conformidade geral com a raça. Com pouco leite e arisca, teve o bezerro na caatinga, sem muito zelo. Bezerrão de primeira, filho puro de pai e mãe, o animal também pouco veio ao curral e virou, mais ou menos, um bicho do mato. Mesmo com uma seca em cima da outra, todavia, o animal se criou. A mãe não teve a mesma sorte. Foi encontrada morta. Uns acham que a cobra levou; outros acham que foi a malvada fome que a derrubou e, no fundo do cercado, ninguém por lá apareceu para levantar. O fato é que o bezerro foi se tornando touro e recebeu o nome de “Doutor”, considerando que era predominantemente branco até certa altura da vida.

Ninguém quis muita conversa com “Doutor” e ele, cada vez mais azougado, já olhava para o povo com jeito de cachorro com vontade de brigar. Era arisco igual à mãe. Avançava sem temor diante de estranhos, mesmo parando no meio, depois de feito o pantim. Dizem que é da raça, mas acho que era próprio dele e dos sofrimentos que atravessou no abandono das secas, inclusive, em algum acidente onde encolheu um dos testículos. Penso às vezes que, diante do problema físico, o touro se apresentava com incomum bravura para esconder o defeito que poderia gerar comentários constrangedores.

Temperamento forte, desconforto no manejo, insegurança para a lida, enfim, se tornou impossível continuar com “Doutor” no curral… Contam-me que somou 329 quilos na balança depois de sangrado, como de costume.

Chegou outro, da mesma raça, chamado “Lava Peito” por quem o nominou na nascença, mais chegado ao povo, vindo mais manso dos verdes pastos de Taipu-RN. Por lá anteriormente já tinha passado, com meu testemunho, um outro Guzerá chamado “Profeta”, que deixou bezerros grandes e bem feitos. Touros bons, sem registro, mas com genética afamada.

Quem entende do assunto sustenta que a raça Guzerá é muito antiga, própria de regiões áridas da Índia e Paquistão, chegada ao Brasil ainda por volta de 1870. Sei bem que tem linhagem de dupla aptidão leite e carne, é rústico, fértil e, na matança, faz peso. Se o sangue for mais apurado o temperamento é mais difícil. A reclamação dos vaqueiros, para as bandas do sertão, é que o gado Guzerá é danado para espernear e derrubar o balde de leite, muitas vezes o único apurado do dia. Também é pela desconfiança de uma ou outra cabeçada ou, às vezes, a disputa mais arrojada – quando dois touros se encontram – pela fêmea no cio. A reclamação, talvez, deriva da falta do manejo mais adequado… Quem cria há muitos anos a raça já desenvolveu técnicas que facilitam a convivência e tornam os animais mais dóceis e cabestreiros. Bicho danado vem de tratador sem jeito.

Mas, para brigar pela fêmea, não é preciso ser Guzerá. Conheço Zezinho de Ari, também das bandas de São José de Espinharas-PB que estava no caminho de dois touros brigando. Era um Holandês e outro Sindi. Animais mais quietos que outros, mas que se estranharam no curral e passaram por cima do que viram e do que não viram, inclusive, de Zezinho, gente da melhor qualidade, que, pela benção de Deus aos inocentes, ainda conta a história como ela foi.

Por derradeiro, chegou “Baluarte”, assim chamado por Paulo Balá, médico, escritor, sertanista e sertanejo, que se destinou a ir até lá, saindo do Acari de nossas raízes, para nominar o bezerro que hoje já é touro, corre e faz munganga, animal mestiço puxado para leiteiro, presente que a propriedade Água Branca recebeu do grande pecuarista Jaedson Dantas de São José da Bonita. Paulo Balá (1933-2017), de saudosa memória, foi, viu e achou o nome para o touro que já foi destacado para cobrir as poucas novilhas Guzerá que restaram do tempo sem inverno, calibrando o sangue – no dizer de lá – para ter filhas mais puxadas ao leite e renovar a esperança que o apurado, amanhã, poderá suportar os prejuízos da seca de hoje.

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Fernando Antonio Bezerra

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