Teatro

Duas ou três coisas sobre Jacy

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Foto: Vlademir Alexandre

Depois de participar, ao longo de quase quatro anos, de festivais por todo o Brasil e de temporadas no Rio e São Paulo, Grupo Carmin fará últimas apresentações da peça “Jacy” no próximo final de semana, na Casa da Ribeira, às 20 horas.

Venho do século passado e trago comigo todas as idades.
(Cora Coralina)

“Jacy” nasce de uma frasqueira que o ator-diretor Henrique Fontes do Grupo Carmin achou em meio a entulhos numa esquina do bairro do Tirol em uma certa manhã do ano de 2010.

Entregue aos filósofos Pablo Capistrano e Iracema Macêdo, “Jacy” começou a ganhar corpo, ora um corpo de mulher, ora corpo de homem. Mas “Jacy” passou a ser tudo: ficção, realidade; uma mulher, uma cidade, um país; memórias, passado, presente – a trajetória pessoal, ancestral, coletiva, de cada um de nós. Das duas ou três coisas que anotei sobre “Jacy”, colocada em cena pelos excelentes atores Henrique e Quitéria Kelly e que vi no último sábado, uma delas chama logo atenção.

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I.

“Jacy” conta várias histórias: o processo de criação da montagem, a História da cidade do Natal e do Brasil, a trajetória da própria… Jacy – a personagem central de quem fala a peça, que se resgata e continua a viver por meio dos preceitos do teatro documental, a partir de uma estética que organiza os fragmentos de memória, o lugar dos sujeitos na História local, do país, do mundo. São várias histórias, ao mesmo tempo, que confluem quando os atores optam pelo desconstrução do processo de criação da montagem. (Uma frasqueira como elemento de cena ou como princípio da dramaturgia?).

Em “Jacy”, a ficção e o real se confundem permanentemente: nas lembranças dos atores a partir dos itens encontrados na frasqueira; na trajetória amorosa e solitária de Jacy; nos elementos de cena…. reais, fictícios; físicos ou projetados pela câmera de Pedro Fiuza. Chega um ponto que tudo pode ser invenção ou realidade. O que vem a ser uma opção ética fundamental, pois, no palco, o que é encenado é a biografia não-autorizada de uma personagem real… que não pode ser consultada. Portanto, deixar em suspenso o que é real e o que é ficção é um segredo que os autores deixaram para ser compartilhado apenas entre a equipe criadora da peça e as pessoas ainda vivas que conviveram com Jacy.

II.

À medida que o teatro reflete sobre seu próprio fazer e seu material de base, o Grupo Carmin reconstrói momentos da Natal e do Brasil do Século XX. O que não impede que nos coloque diante das ruínas do período da escravidão, quando, por meio de uma velha fotografia, sabemos da ama de leite a cuidar da menina personagem filha de dono de engenho…. ainda nos anos 20 do século passado.

São diversas trajetórias no palco, diversos mundos nos atores em cena

A multiplicidade das linguagens, em uníssono, refaz as desventuras de uma mulher (a perda da mãe, do amor estrangeiro, da sua juventude), acontecimentos da cidade (a 2ª Guerra Mundial), do país (o regime militar, a república das oligarquias) e os meandros do próprio fazer teatral (em um diapasão cômico, como na perfeita encenação dos atores, que, no palco que se transforma em set de filmagem, “brincam”com os códigos das técnicas de interpretação dramática).

É que, em “Jacy”, o palco se transforma no mundo inteiro.

E o mundo é real, fictício, histórico, local, universal e, ao término, sentimos que atravessamos junto com os atores um labirinto complexo e orgânico, à semelhança de um quebra-cabeças que, a cada ato, vai sendo montado para que as partes façam sentido e o fragmento não fique órfão – como a pequena Jacy Lisboa Lucena que perdera a mãe ainda criança.

Então, o jogo com a atualidade política de um passado recente, fazendo entrar em cena o período da Ditadura Militar, concatenado à tradição oligárquica do RN, que tem continuidade neste eterno presente, ecoa na platéia com a força de todos os significados latentes, pois, afinal de contas: ainda bem que as coisas mudaram, não é mesmo?!

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III.

“Jacy” trabalha com vozes sobrepostas, simultâneas e alternadas, quando os atores vivem uma Jacy mulher, uma Jacy homem. Nesse momento, as falas se confundem e jorram paralelas. Por outro lado, a variação de materiais, recursos e linguagens, como os recursos visuais projetados, como as formas humanas e arquitetônicas desenhadas à mão livre, tem uma sincronia perfeita a nos guiar nesse labirinto de memória, de amores perdidos, do tempo da velhice e do corpo já em declínio, do abandono, da solidão.

“Jacy” é também uma travessia.

Juntos chegamos todos ao mesmo lugar: lugares da memória, de passagens, das lembranças, das continuidades. Para a platéia, “Jacy” ecoa neste eterno presente, que, estupefato, olha para os entulhos e ruínas do passado produzidos por décadas à fio; que nos espantam como a um certo anjo benjaminiano.

“Jacy” é também a tempestade que nos sacode dos nossos lugares de conforto e ilusão e que nos joga em direção ao futuro, o mesmo que, em refluxo, será em seu tempo os destroços acumulados do passado no qual se tornará.

Todos nós somos um pouco essa mulher, essa cidade, esse país.

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Marcos Aurélio Felipe

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