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É natal!

Eu, minha filha e meus dois filhos saímos para jantar numa noite qualquer de dezembro e por todo o trajeto e por todos os lados luzes coloridas surgiam piscando para nós! Uma trilha luminosa se compôs para o nosso deleite, entoada no mesmo compasso do acelerador do carro, enquanto minha filha e seu irmão mais novo, sem cansaço nem arremate, escolhiam dentre tantos arranjos o mais belo.

A alegria das crianças e o encanto das luzes se entrelaçaram me levando de volta até onde minha memória ainda alcança.

De novo me vejo criança Palestina, natal, presépio, pinheiro, neve… Naquele tempo, o Natal tinha a simplicidade deslumbrante da brancura da neve e do boneco de neve com olhos de bolinhas de gude colorida a nos olhar e derreter. Dele, sempre restavam os olhos, nos olhando com ternura até um próximo natal.

As mulheres cuidavam dos doces que, feitos somente nesta época, por serem especiais ou por indisposições femininas, chamávamos de doces de Natal.

Os homens chegavam trazendo frondosos ramos de pinheiros, enquanto nós, crianças, corríamos para arrancar as pinhas remanescentes em seus galhos. Aí, então, com cuidado e suavidade, batíamos as pinhas no chão, até que de suas pétalas duras e secas caíssem as pequenas sementes que de tão pequeninas as chamávamos de língua de passarinho.

Naquele tempo, eu não sabia que a vida poderia estar contida numa semente e até hoje sinto o gosto bom das sementes que ingeríamos, rapidamente!

Alguns anos depois, quando atravessamos o mar e do outro lado do mundo viemos morar, descobrimos o Brasil e os natais sem neve; a infância terminando e um Papai Noel que não podia mais me presentear, diferentemente do Papai Noel de outras crianças.

Talvez haja muitos Papais Noel e o meu tenha ficado em apuros porque emigrou. Resolvi então deixar meu Papai Noel quieto, pedir-lhe algo só em ocasião muito especial, chamá-lo apenas em caso de precisão. E se não tenho seus presentes, tenho seu afeto e a certeza de que Papai Noel até hoje existe!

Naquele tempo de final de infância, o natal tinha sabor de sol, calor, cores, esperas, lutos e eternas descobertas.

Depois, ligeiro, veio um tempo plástico, árvores de plástico, bolas de finos espelhos coloridos, luzes enormes e os primeiros pisca-piscas. Adolescentes, esperávamos o Natal como quem espera um namorado: roupa nova, pintura e cabelo arrumado. Fazíamos o mundo parecer feito de sonhos e o natal a receita que os fabricava. Os aborrecimentos eram muitos, porém passageiros: coisas da idade! A beleza morava em nosso peito, espiando o mundo através do coração.

E o tempo, que leva e traz, forma e transforma, definindo o que somos e queremos, sempre nos presenteia do sabor de nossos sonhos que, doces ou amargos, a vida se encarrega de nos revelar.

Hoje, quando olho as luzes de natal em Natal, cada ano mais miúdas, numerosas e brilhantes, penso que isto não é por acaso.

Inconscientemente, buscamos luzes cada vez mais incandescentes e abundantes na tentativa de nos resgatar de nossas sombras.

Então olho casas, prédios, árvores, canteiros, cidades… O mundo inteiro iluminado! Mais e mais a cada ano. Aflorando a beleza clara e viva que as luzes lhe confere. Mas, ao mesmo tempo, vejo a neve na Palestina manchada de sangue no natal de milhares de crianças, a fome e a dor matando milhares de pessoas no mundo todo, os tempos mudando e nós nem tanto… Incertezas me afligem e me pergunto o que significa o natal.

Aí, imagino que nós, humanos, somos feitos de pequeninos astros luzeiros escondidos em cada um de nós e, em devaneio, quem sabe, assim, iluminando o Natal e, também, a nós mesmos, qualquer dia faremos um mundo de rara beleza.

Daqui a pouco é natal! Um tempo de começarmos também a acender nossas luzinhas e nos iluminarmos. Feliz Natal a todos!

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