E por falar em poesia

Maluz Medeiros
DestaquePoesia

Uma seleção de poemas da nova geração de poetas potiguares sem publicações em livros, porém, com a urgência das palavras e vivências na cidade expressa em zines, saraus, grupos de performances e livretos independentes.

“[…] forçoso é lhes impor os tempos e universos”, Flores do Mal, Charles Baudelaire.

Agnes Cecile_ birth

Reprodução do quadro Birth, de Agnes Cecile.

“A poesia é a união de duas palavras que ninguém poderia supor que se juntariam, e que formam algo como um mistério”, “A poesia é um ajuste de contas com a realidade”, “Escrever um poema é descobrir”.

Existem várias definições do que seja poesia, para além do dicionário, mas a verdade é que ela está longe de ser contida em um conceito, e por isso rompe a barreira do tempo encantando aos que a ela se permitem.

A poesia é espaço de reinvenção, possibilidades, inquietação, novos olhares, causadora de comoções, a poesia está em toda a parte, para além das palavras e dos livros.

Hoje é dia da Poesia! E aqui em Natal é data comemorativa, cidade com cena efervescente vem sendo terra fértil para escritores há décadas.

E para esta data preparamos uma lista de poemas em comemoração, com o critério de levar aos leitores uma nova geração de poetas potiguares sem publicações em livros, porém, com a poesia latendo nas palavras e vivências na cidade, nos ditos ‘corres’, em saraus, livretos independentes, ‘zines’, grupos de performances…

Voilá apreciem sem moderação de sentidos!

Ana Mendes_2

A estudante de filosofia Ana Mendes tem 22 anos (escreve desde os 12) e já participou de livro CidaDelas e da antologia poética Blackout.

Ana Mendes

Ela tem 22 anos, é estudante de Filosofia da UFRN, escreve desde os 12 anos e em 2015 começou a fazer experimentos com declamações e vários estilos de poemas, mantendo a declamação como algo político.

Escreve no blog Pensamentos Avulsos e na página do Facebook Erro Errante. Lançará seu primeiro fanzine independente intitulado Lacônica neste mês de março. Também participa do livro CidaDelas e da antologia poética Blackout.

 

– o que você fez criança?

 

à noite tudo se contrai

mas meu coração permanece inchado de sopros:

existir é escolher as palavras que seremos

aperfeiçoando o que deus não foi capaz:

a si mesmo

 

e não sei quais são as minhas…

 

herdeiros do orgulho de lúcifer que somos

nos é intrínseca a queda e assim sendo

nos é própria a ferida materna:

 

eu também quis saber como é destruir algo belo

e talvez tenha sido isso o que deus desejou

quando empurrou a luz do céu

e afogou o mundo

 

Augusto B. MedeirosAugusto B. Medeiros

Tem 32 anos, é professor formado em História pela UFRN. É um necessitado de arte e café! Nascido em Natal, tem o bairro da Cidade Alta como reduto desde a infância.

Como artista plástico realizou a primeira exposição em 2015. Seus desenhos têm traço minimalista de temática existencialista. Também participou de concursos e coletâneas poéticas.

Botões

Em noites de mormaço

Os dedos empurram pesados botões

Casa a casa

Na camisa engomada

Perfumada

E tem sido assim

Pois jogaram em minhas mãos

A autoria da minha autobiografia

E escrevo

Evento a evento

Festa a festa

Cumprindo por tabela

E quando me faltam as palavras

Os dedos reencontram os mesmos botões

Já em suas casas

Com eles

E com a minha vida

Eu só sei brincar.

 

ayrton alves

Ayrton tem 22 anos, é tradutor, pesquisador e graduando em Letras.

Ayrton Alves

O poeta de 22 anos é tradutor e pesquisador, graduando em Letras pela UFRN. Participa do Coletivo Saliva, além de organizar, com Victor H, a antologia BlackOut.

 

Nenhum antídoto

para os dias que evaporam

sobre os nossos corações

 

Nenhuma linha

pra costurar a boca

que bebe o mar que nos afoga

e deixa entre os dentes os barcos

que não nos salvam

 

As montanhas estão se desfazendo

montanhas de convicções

de pássaros

de pedras

de penas

de cacos de homens:

que temem ir além das margens

 

Nada que sustente

nossa vontade de voar

pulamos  janelas

levando apenas remos

e neles a fé

 

Ken_Wong_Two_Set_Out_In_Dark_Water

Ilustração Two Set Out In Dark Water, de Ken Wong.

Caroline Santos

Uma mulher com 26 anos de resistência, bem parida por mainha, astróloga de bar e escritora errante. Em movimento contínuo na busca do extraordinário.

 

Juízo Final

 

Caroline Santos

Mulher com 26 anos de resistência, Caroline Santos é astróloga de bar e escritora errante.

Nojo é um verbo que tirei do meu calendário

assumi o escárnio que os outros descartam em mim e escarro

cada cusparada é fecunda

Sou a palavra aberta, encruzilhada na América

de becos, vielas, ruas asfaltadas e esgotos a céu aberto

tudo queima perto da linha do equador

e minha pele morena reluz melanina de sabor intenso

O olho permanece aberto

habitando cada palavra desse vocabulário

que transgride e assopra e grita

vocabulário mitológico, serpentes, medusas e Harpocrate

Eros me acerta certeiro no clitóris

Eu sou o horror de cada boca salivante que não beijei

anunciada pela trombeta do apocalipse

e a pomba gira e revira meus olhos pra me vestir de vermelho

boca e sexo, a língua afiada

Essa cidade é um deserto de almas vivas e desabitadas

Deus não me pune, mas me deu o inferno

e eu não salvo ninguém

o céu é um condomínio fechado de fichas marcadas

Mas quando a pele arde e me olham torto

entortado mundo dos outros

eu lembro que gemer alto é gostoso

e a benção de todos os santos eu levo no pescoço

Na quaresma tive uma anunciação divina

a natureza dizia ‘seja!!! minha filha

como poesia intrauterina e ria e ensine os outros a rir também’

agora estou em paz, com deus e o diabo

pelo meu corpo, pela alma e pelo tempo

até o fim das eras.

 

Art Wolfe Human Canvas Study Clay Studyfulô du agreste

Fulo do agreste

Poetisa negra, enaltece a causa dos movimentos negros e feministas, expondo e criticando o racismo e machismo estruturais que configuram as sociedades contemporâneas.

nocaute carpe diem

minha solidão motriz

desacredito nas bocas que riem

do corpo aberto raiz

mãos calejadas me tocam

meu corpo treme em resposta

não quero paralisia causar

nem pretendo ninguém assustar

cabelo duro provoca espanto

lanças enlaçam meu pranto

útero contorce mazelas

fome preenchida com miudezas

palavras alimentam meu sono

caminho inventando planos

cair é questão de ponto

de turbulenta vista

fulô

 

Gabrielle Dal Molin_2

Gabrielle é antropóloga, professora e vocalista de uma banda punk.

Gabrielle Dal Molin

Resvalando nas bordas de ser poeta, a antropóloga, professora e vocalista de uma banda punk atinge através da palavra o âmago do ser mulher, amando. Acredita na liberdade, que toda mulher é bruxa e que todas as teorias da conspiração são verdadeiras.

 

Se existe um deus

esse homem barbado

de quem há que ser temente

ele ama os viados

as putas

cães e cadelas das ruas

ele ama os filhos delas

e os gatos

e as bruxas

Se existe um deus

dessa vez menos carne

mais consciência mais luta

esse deus menos acabado

ama as mulheres

os surdos e cegos

e mudos de nascença

ele ama as abelhas

os ratos e os buracos

cavernas e vulvas

Se existe afinal um deus

que não se possa dizer

gênero

número e grau

se for só vento

flor que nasceu no asfalto

curva de rio

pensamento

essa coisa que se chama por tanto nome

ama as travestis

o hospício todo

índias e escravos

as amas de leite

os ônibus lotados

mas ama mesmo quem não sabe

quem é deus

 

DreamIan Itajaí

Ian Itajaí

Tem 20 anos, potiguar. Escreve, logo existe. Apreciador de jabuticabas, água de coco e má literatura.

Na esquina do mundo

eu gosto quando as nuvens pesam baixas de dia:

me sinto mais perto do céu.

e foi quando levaram K. que a gente sentiu a morte perigosamente perto;

ela lufava sobre nossas costelas.

todo dia à terra eu barganho mais tempo;

já não queremos abrir mão do vento na cara.

enquanto consigo alguns trocados,

vou de esquina em esquina procurando minha casa,

mas as ruas se fecham em muros altos demais e eu penso que

até isso nós mesmos pudemos tirar de nós.

uma vez tive um canto meu,

mas ele foi invadido há tempo demais e hoje eu caminho muito só,

só o medo me ligando à humanidade

e um respeito enorme por K. que,

por ter sido levada,

levou todo o medo que trazia consigo.

José Alberto Zapiski

Jovem, mas não é escriba. Começou a escrever aos 17, depois de um período de internação no Ceduc Nazaré. É admirador de Antônio Francisco, Maria Carolina de Jesus e Zé Ramalho.

Gosta de Pablo Capistrano, do Bispo de Taipu, de pão com manteiga e de ginga com tapioca. Admira as ruas do Centro, mas num se chega muito a aglomerações. É natural da encruzilhada entre pequena cidade de Natal no interior do RN e a metrópole do Sítio Córrego nas vastidões da Chapada do Apodi.

Seu sonho é gastar todo dinheiro de prêmios literários numa noitada de drogas e travestis ao lado de Maradona e Ronaldinho. Investe em ações do mercado de zines desde 2015: www.zezapiski.tumblr.com

José Alberto Zapinski

AH,

minha mente;

cansada de letras gritando coisas,

saturada de tanta anunciação!

Vão para o inferno, demônios internéticos!

Quero páginas para mergulhar.

 

Murilo Zatú

Nasceu em Natal, no dia 24/01/97. Desde sempre tem a escrita como refúgio e como contato consigo mesmo. Foi publicado na antologia Iapois Poesia, organizada pela poeta Regina Azevedo. Participou do recital e exposição Pipoco, um ano depois. Em fevereiro, ele lançou o Romance Bad, seu primeiro trabalho poético.

 

Te espero.

 

Murilo Zatu

Murilo escreve como refúgio e contato consigo mesmo.

Minha língua ainda sente o roçar da sua

entrelaçadas

(como um coro).

Te espero.

Como chineses,

demos tchau enquanto ainda havia vista.

Te espero, meu bem.

Mesmo sabendo que não voltas.

Mas te espero. Te espero naquele quadro no meu quarto

onde estávamos em Ilhabela em pleno verão.

Eu te espero.

Meu coração não quer saber de egresso.

Só quer saber de esperar. Aquilo.

A espera escusa.

A espera desolada.

A espera sôfrega.

O tempo e a espera.

Te espero conforme os ponteiros giram

e o cigarro arde em minha mão.

Te espero até mesmo na madrugada

quando, insone, bato uma pensando na nossa transa soporífera.

Te espero com meu corpo.

Te espero com meus olhos

que não enxergam nada além de fagulhas

do que já não mais é.

 

Eu sou Caio, tenho 20 anos

e acredito que ele vem.

Eu o espero.

Minha espera é a sua dádiva.

Victor H Azevedo

É uma bicicleta antirromântica, publicou vários zines entre eles 19XX e Passeio Cadente. Reúne suas quinquilharias no www.vvctrh.tumblr.com

 

victor h azevedoQuarto Sala Cozinha

 

cada ônibus vazio é um coração sem pasto.

ruas vazias — ruínas vazias

— servindo de cobertura à maravilha.

minto

é ser o único cavalo do planeta terra

a se chamar telhado

é uma piscina seca

e azul

como um hematoma.

hematoma que nunca desanuvia

que lateja

quando deixa os amigos serafins no parque

para poder enfeitar o quarto

de estrelas incongruentes.

quarto sala cozinha

 

e os amigos dos amigos,

uma criaturas cariadas de tédio,

são todos anjos aposentados,

desencorajados de álcoois e carrosséis,

que vivem nas praças públicas

nos hortos florestais

enquanto cá estou,

paquiderme desempregado,

temendo que meu cabelo negro

um dia

se aposse da minha casa.

 

casa jardim aeroporto

 

distante dessa falha geográfica

pequena e ingrata,

a qual nomeamos afetivamente de cidade,

sei que a faceta daqueles

cleptomaníacos incendiários

agorafóbicos e incultos

desmorona como um

presidente decorativo.

mas ainda sim perpetuam-se

as ameaças de morte na pastelaria.

moramos num reduto chamado

pedagogia do bruto

onde plantações de acidentes e obituários

estão presentes em qualquer menu de pausa.

alguns sabem somem catequizar

usando-se de apetrechos cortantes.

pobres homens de crânios de papelão

pobres mulheres rasgadas pela agonia dos igarapés

pobres crianças chauvinistas de quintal

resta sol unhas e arranhões neste lugar chamado

cama.

cama mesa banho

cama para mudar a camuflagem rutilante

mesa para burilar os trabalhos lupinos

banho para incinerar as brumas mordidas

na ortografia.

Igor Barboá

Nascido e criado no Alecrim. Batizado da Cidade Alta pra Ribeira. Ou o contrário ou como der pra encontrar.

Igor Barboá

A rua é minha cidade Natal.

Nasci desse interior

de fora…

acostumado à capital.

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Maluz Medeiros

Comentários

5 comments

  1. Isis 14 março, 2017 at 11:16

    Massa, gostei de conhecer essa galera! Mas faltou a minha poetisa preferida… Que nem se acha poetisa! <3

  2. Cellina Muniz 15 março, 2017 at 10:09

    Beleza de texto e de seleção! Oportunidade, para quem ainda não percebeu, de ver que a poesia se renova e acontece para além dos clássicos!

  3. Anchieta Rolim
    Anchieta Rolim 15 março, 2017 at 18:38

    Essa turma é boa demais! E esse poema aí do Ayrton Alves é do jeito que gosto. Parabéns para todos!

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