Ele

1 de junho de 2010 às 22:52 - Comentar
Por Cláudia Magalhães

www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

Ele foi, aos poucos, abrindo o seu enorme baú de vergonhas. Vinícius era o seu nome. Conheço-o desde a mais tenra idade. Crescemos juntos. No início, eu o achava destemido, inteligente, ousado, mas, com o passar dos anos, ele foi se revelando um ser repugnante, capaz das piores baixezas para conseguir o que queria. Aos 22 anos, nos formamos em jornalismo e começamos a trabalhar na redação do jornal de um amigo em comum. Apesar dos vexames que ele me causava, não conseguia me afastar dele. Sentia, por Vinícius, medo e fascínio, uma espécie de obsessão. Com o início do trabalho no jornal, vi a adolescência ir embora. Deslocado, no meio daqueles homens mais velhos, eu me refugiava, cada vez mais, em sua companhia. Saíamos todas as noites, depois do trabalho, para beber. Ele foi se afogando, rapidamente, na bebida. Confesso, que sempre senti uma forte atração pelo lado escuro da vida. Mas, depois da falsa alegria, só me restava uma forte depressão. Apesar disso, não saberia o que fazer da minha vida sem Vinícius. Tinha medo da solidão, de ser consumido pela ternura e amor que existiam em mim.
Até que conheci Márcia, meu grande amor. Imediatamente, me afastei do meu amigo e comecei uma vida nova. Ela me devolveu o sono tranqüilo e o dia. Apagou as nuvens cinzas do meu céu e pintou um arco-íris. Ela me trouxe a poesia. Depois de dois meses de namoro, nos casamos. Todas as noites, ela apagava as luzes da nossa pequena varanda e dizia: É na escuridão que melhor enxergamos as estrelas. Mas, existem homens que têm medo do escuro e, principalmente, de céu. Eu era um deles.
Eu e Vinícius, aos poucos, reatamos a nossa amizade. A partir daí, começou o meu inferno. Todas as noites, eu via a minha vida se arrastando de bar em bar e escorrendo pelos copos. Passei a chegar, cada vez mais, tarde em casa, causando tristeza e desgosto à minha amada. A minha vida profissional começou a ruir. Sempre colocando o meu nome em jogo, ele começou a desrespeitar o nosso chefe, a furar as entrevistas marcadas e a chegar bêbado no trabalho. Fomos demitidos. O desgraçado exercia um forte poder sobre mim. Influenciado por ele, virei mais uma vítima da piedade e compaixão das pessoas. A que ponto, meus amigos, um homem pode chegar! Metíamos-nos em brigas, importunávamos as pessoas, lambíamos o chão, impregnando a nossa língua com toda a sujeira do mundo. Até que aconteceu o pior.
Um dia, cheguei em casa e encontrei Márcia sentada na cama, acuada, com o corpo cheio de hematomas. Os seus olhos estavam assustadoramente inchados e o seu lábio inferior tinha um corte profundo. Quando ela me viu o seu rosto perdeu a cor. Disse-me, gritando aos prantos, que ele, o maldito Vinícius, bêbado, entrou no apartamento, feito um louco, dizendo palavras obscenas e movido pelas piores danações do mundo, a violentou. Cão dos infernos! Excremento do mundo! Ah, meus amigos, senti, naquele momento, a dor de mil facadas no peito! Perdi os sentidos. Quando acordei, ela já havia partido. Ela se foi e toda a beleza deixou de existir. Ela levou a pureza e a alegria. Levou a poesia de Shakespeare, o lirismo de Camões e o encanto das músicas. Ela foi embora arrastando o tempo, o perfume e todas as cores. Apagou as linhas das minhas mãos, deixando somente uma enorme tristeza. Ela se foi e, nas primeiras horas de abandono, multipliquei por mil os meus recalques.
Eu queria me vingar! Acabar, definitivamente, com aquele lixo! Reuni todas as minhas forças e fui ao encontro do maldito. Encontrei-o sujo, bêbado, fedido. Levei o canalha para o famoso bar da linha do trem, do outro lado da cidade, conhecido por ser freqüentado por marginais da pior espécie. Estava lotado. Pedimos uma garrafa de cachaça e começamos a beber. Incentivado por mim, não demorou, para o desgraçado arrumar confusão. Falando alto, começou a provocar o sujeito da mesa ao lado.
- O que você está olhando? Quer levar porrada, seu merda?
Imediatamente, o sujeito pegou uma faca e ficou encarando Vinícius.
- Venha, seu corno filho da puta! Covarde! – insistiu.
O sujeito enfiou a faca na barriga dele, que parecia possuído pelo demônio.
-Ah! Ah! Ah! É só isso o que você sabe fazer, seu frouxo?
Foi tão grotesca a reação que o sujeito se intimidou por alguns segundos.
- Ora, pelo amor de Deus! Faça o que tem que fazer, depressa!
Feito um animal selvagem, o sujeito desferiu-lhe várias facadas, Até restar-lhe somente um fiapo de vida.
Apesar da dor, eu mantinha um sorriso de satisfação, de vitória. Com o corpo banhado em sangue, eu agüentava firme. Logo, logo, viria a recompensa. Ali, imóvel, eu aspirava o cheiro da morte. Feito um urubu aguardando carniça, eu vi a vida fugindo de mim em vermelho. A luz foi sumindo aos poucos. É na escuridão que melhor enxergamos as estrelas, pensei. Meu nome, Vinícius. Derrotei o meu maior inimigo: eu!

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    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar