Eleições e ilusões

9 de maio de 2010 às 9:45 - Comentar

Por Marcos Coimbra
No Estado de Minas

Para alguns dos que querem mudanças, o gesto de Lula, quando escolheu Dilma para sucedê-lo, soou como bravata. É como se ele a tivesse indicado pelo que ela não tem.

Enquanto a grande maioria da população dá sucessivas mostras de estar satisfeita com o governo, continua a existir uma parcela da opinião pública que não. Dentro dela, há quem tenha alguma simpatia por Lula e até enxergue virtudes em seu trabalho, admire sua trajetória ou ria de suas tiradas. Mas não gosta do governo e, quase sempre, tem ojeriza ao PT. São aqueles que aceitam o presidente, mas não querem que sua turma permaneça.

A existência desse tipo de sentimento fica clara nas comparações entre a avaliação do governo e o desejo de continuidade. Nas pesquisas, a proporção dos que o aprovam enfaticamente, dizendo que é “ótimo” ou “bom”, anda na casa dos 75%, e há outros 20% que o consideram “regular”. Somados, beiram os 95%, o que deixa apenas 5% da população para repartir as opiniões de que é “ruim” ou “péssimo”.

Quando, porém, se pergunta a respeito de quanto do que Lula faz gostariam que fosse mantido, mais de 20% dos entrevistados responde que preferiria que houvesse mudanças na maior parte ou na totalidade das políticas. É verdade que a opção por mudanças completas é pequena e corresponde quase exatamente à da avaliação negativa. Ainda assim, deve-se registrar que há mais pessoas que o aprovam (agregando avaliações positivas e regulares) que querendo a continuidade de tudo (desejo de 35% delas) ou da maioria das coisas (40%) que faz.

Para alguns dos que querem mudanças, o gesto de Lula, quando escolheu Dilma para sucedê-lo, soou como bravata. É como se ele a tivesse indicado pelo que ela não tem (experiência eleitoral, carisma, jogo de cintura) somente para afrontá-los. “Inventar” uma candidata como ela seria um arroubo de poder, tornado possível pela escassez de lideranças dentro de seu partido. Querer que ela ganhasse seria, no entanto, ir longe demais, atribuir-se uma missão de altíssimo risco, apenas pelo gosto do desafio e a perspectiva de, obtendo sucesso, infligir uma derrota humilhante ao que resta de oposição.

Cada um desses eleitores olha para Dilma e não a vê como simples candidata, em quem se pode ou não votar em função de escolhas racionais. Para eles, ela é uma espécie de provocação ambulante, a encarnação de tudo de que não gostam em Lula, no PT e no governo.

Enquanto ela permaneceu lá atrás nas pesquisas, o mal era menor. Ao contrário, muitas dessas pessoas ficavam felizes a cada confirmação de que o sonho onipotente de Lula estava ameaçado. Quando, no entanto, ela começou a subir, o quadro se complicou. Não é que o impossível passou a ser provável?

Uma parte relevante da mídia brasileira compartilha esses sentimentos. Na verdade, em algumas redações, estão muitas das pessoas mais extremadas nessa mistura de desaprovação ao lulismo e indignação frente à hipótese de Dilma vencer.

Nenhum problema nisso. Afinal, editorialistas, colunistas e repórteres são também filhos de Deus, e possuem as mesmas prerrogativas das pessoas comuns. Têm todo direito de não gostar do que não gostam.

O que é discutível é permitir que suas preferências interfiram em seu trabalho a ponto de comprometê-lo. Por exemplo, deixando-se levar por elas na hora de informar a opinião pública sobre o que está acontecendo na eleição.

Um tom de indisfarçável torcida marcou o noticiário de abril. Quem leu o que vários órgãos da chamada grande imprensa publicaram só ficou sabendo dos “erros de Dilma” e os “acertos de Serra”, os primeiros provocando o “desespero” de Lula e abalos na coligação governista, os segundos gerando empatia na sociedade e novas alianças políticas. Foi informado de que o saldo disso seriam “novas pesquisas”, que mostrariam o avanço de Serra.

Pode ser que venham, mas ainda não chegaram. O que todas as conhecidas apontam é para um cenário de estabilidade: quando se comparam os resultados do final de março, antes da desincompatibilização, com os do final de abril, nada mudou. No Datafolha, a distância entre Serra e Dilma aumentou um ponto, no Ibope, dois. Ou seja, ficou igual. É o mesmo que indicam outros levantamentos, ainda não publicados. A marola do noticiário não parece ter alcançado, pelo menos por enquanto, a imensa maioria do eleitorado. E será que vai tocá-la nos próximos meses?

Torcer é bom e faz parte da política. Querer que seu candidato vença e os outros percam é um sentimento natural. Mas torcer não rima com informar.

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    QUANTO R$ 8
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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante