Não me canso de dizer que leio tudo de e sobre o velho Shakespeare, seja lá o que for, peças, ensaios, ficções, biografias, o diabo a quatro. Peguei este livro numa promoção da Publifolha e foi uma grata supresa. Shakespeare – O Mundo é um Palco – Uma Biografia, de Bill Bryson, Companhia das Letras, 199 páginas, R$. Você pode pensar que é mais uma daquelas biografias do Bardo e começar a bocejar, mas tenha calma. Apesar de repisar todos os caminhos dos outros biógrafos, Bryson nos oferece um retrato em lusco fusco do grande homem de Strattford. Não se sabe quase nada sobre a vida de Shakespeare, a não ser que ele escreveu as melhores peças de teatro da história da humanidade, sonetos de tirar o fôlego dos reles mortais e foi um próspero cidadão de sua província.
Como todo bom biógrafo, Bryson fala sobre as desconfianças do lado gay de Shakespeare, de sua fama de plagiador, de como foi quase esquecido por todos apenas alguns anos depois de morto, etc. Vocês que sofrem com a falta de reconhecimento de seus contemporâneos podem pedir mais uma ‘chancinha’ a Deus, porque nunca se sabe. Shakespeare foi espinafrado por todos os medíocres de sua época e até por gente de peso como Samuel Johnson.
Pois é, ele pegava textos dos outros sem citar e transformava em algo maravilhoso de sua autoria, cometia erros de geografia, manipulava datas a seu bel prazer e falava de política sem chamar a atenção de políticos contemporâneos. Quando queria criticar o poder era só ambientar a peça na Roma antiga e passar nas ventas das “otoridades”. Cabra bom, esse Shakespeare.
De vez em quando Bryson nos oferece tanta informação que, às vezes, parece cultura inútil. Se não vejamos: “Contaram cada palavra que ele escreveu, registraram cada ponto, cada vírgula. Podem nos dizer (e disseram) que as obras de Shakespeare contêm 138 198 vírgulas, 26 794 dois-pontos e 15 785 pontos de interrogação; que ele fala de orelhas 401 vezes em suas peças; que dunghill, ‘esterqueira’, é usado dez vezes e dullard, ‘tacanho’, duas vezes; que seus personagens se referem ao amor 2 259 vezes, mas ao ódio apenas 183 vezes; que ele usou damned, ‘maldito’, 105 vezes e bloody, ‘infame’ e ‘sangrento’, 226 vezes, mas bloody-minded, ‘sanguinário’, apenas duas; que ele escreveu hath, ‘tens’, 2 069 vezes, mas has, ‘tem’, apenas 409; que no total nos deixou 884 647 palavras, contituindo 31 959 falas, espalhadas por 118 406 linhas”. Hehehehehe, é bom demais!
Como não poderia deixar de ser, ele também fala nos autores que defendem a inexistência de Shakespeare, ou seja, que ele não escreveu suas peças, e aí é de matar de rir. Ele desmonta cada teoria, cada invencionice com uma ironia tão fina que torna seus autores verdadeiros bobocas. É triste saber que gente como o filósofo Ralph Waldo Emerson, Thomas Carlyle, Mark Twain, Henry James e até mesmo Sigmund Freud e Orson Welles (pasmem!) embarcaram nesta barca furada. Não, não é triste não. A humanidade é assim mesmo.
Sinceramente, já tentei ler alguns desses livros que defendem que Shakespeare não é Shakespeare. Mas não passei das primeiras páginas, porque não consigo ler empulhação. Se você já leu algumas das melhores peças do bardo inglês nem precisa ler as outras peças menos conhecidas. Em Hamlet, Otelo, Macbeth, Romeu e Julieta, Rei Lear, O Mercador de Veneza e as peças I e II de Henrique VI ou uma e outra que me esqueci de mencionar, já pode se dar como bastante satisfeito de conhecer o gênero humano.
Tem gente que acha que Shakespeare é coisa para intelectual e mal sabe que mais popular que este sujeitinho não há. O cara fala das coisas mais simples da maneira mais simples e direta e das mais coisas mais complicadas da maneira mais simples também. Fala do mundo dos ricos como se os conhecesse de perto e do mundo dos pobres como se fosse um deles.
No Brasil existem excelentes traduções de Shakespeare e as de Barbara Heliodora e Millôr Fernandes estão entre as melhores. Ademais, nem adianta ficar de nariz empinado e dizer que só lê suas peças no original, pois o inglês de suas peças é completamente estranho para nossa época. Somente depois de Shakespeare e da Bíblia do Rei James é que o inglês se consolidou enquanto língua. Para encerrar, quero deixar aqui um trecho de Hamlet que é o mais simples que se pode dizer sobre a existência.
“Ser ou não ser. Eis a questão: é mais nobre sofrer na alma as pedradas e flechadas de um destino ultrajante ou pegar em armas contra um mar de problemas, e enfrentando todos, acabar com eles? Morrer, dormir… mais nada. E no sono acabar com a aflição e os mil choques naturais que a carne traz em si. Essa é a consumação que se deve querer como uma bênção. Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil! Porque os sonhos que podem existir nesse sono da morte, depois que nos livrarmos desta confusão mortal, nos fazem parar para pensar.”
Menino, traz a cerveja!!!!