Em defesa da liberdade. E da conveniência

28 de fevereiro de 2012 às 10:21 - Comentar

Por Carlos Eduardo Lins da Silva
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Como quase todos os políticos no poder, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, faz tudo – dentro dos limites da legislação e da cultura política de seu país – para obstruir o trabalho do jornalismo independente que possa afetar os seus próprios interesses ou de seu partido. O que não o impede de se dizer favorável ao trabalho do jornalismo independente que atrapalhe seus adversários, ou mesmo ultrajado quando estes tentam dificultar tal trabalho.

Essa contradição foi apontada na semana passada na sala de imprensa da Casa Branca por Jake Tapper, setorista da rede de TV ABC, quando o porta-voz de Obama, em nome do presidente, lamentou a morte de dois correspondentes de guerra na Síria que, segundo ele, “tentavam reportar a verdade” sobre o que ocorre naquela nação, dirigida por um inimigo dos EUA.

É evidente que os métodos de Obama para colocar obstáculos à investigação jornalística mal podem ser comparados aos atos de brutalidade e violência que Bashar al-Assad utiliza. Mas, ao se valer – como tem feito com mais constância do que a maioria de seus predecessores – da Lei de Espionagem de 1917 para combater vazamentos de informações de governo para a imprensa, Obama não apenas deixa de cumprir promessas de campanha de que iria incentivar os que apontassem desvios de conduta na administração pública federal, como coloca o seu nome ao lado dos poucos chefes de governo americano dos séculos 20 e 21 que pontificam no quesito combate à liberdade de ação da imprensa – quem sabe apenas ao de Richard Nixon.

Tortura exposta

O caso mais famoso é o do recruta do Exército Bradley Manning, preso em condições pouco humanas há meses à espera de corte marcial por ter passado ao WikiLeaks os célebres despachos de diplomatas dos EUA a seus superiores no Departamento de Estado.

Mas há outros, como o de um ex-funcionário da CIA que passou informações a jornalistas sobre a prática de tortura. Agentes da CIA a respeito de quem há acusações sólidas de terem torturado pessoas suspeitas de terrorismo não foram até agora indiciados por crime nenhum, mas seu ex-colega que falou com repórteres sobre essas práticas, sim.

Por enquanto, só quem tem pagado o preço na Justiça por vazamento de informações têm sido funcionários de governo, não os jornalistas que as receberam (com a exceção de Julian Assange, do WikiLeaks, a quem o governo dos EUA pretende processar assim que ele veja resolvidas as pendências que tem com a Justiça de seu país).

Mas Obama (ou alguém em seu nome na administração que nenhuma vez foi desautorizado pelo presidente) tem se esforçado para colocar repórteres independentes na cadeia, mesmo alguns que o beneficiaram quando estava na oposição a George W. Bush.

É o caso de James Risen, do New York Times, que em 2005 ganhou o prêmio Pulitzer pela sua série de reportagens sobre as mentiras a respeito das armas de destruição em massa que serviram como justificativa para a invasão do Iraque, e textos sobre a prática de torturas por militares americanos contra civis iraquianos.

Nada de novo

Na época em que as reportagens foram publicadas, Obama se valeu delas para atacar o governo Bush. Agora, o seu governo processa Risen para que ele revele quem foram as suas fontes para aquelas reportagens; e, caso não as revele (como deve fazer, em respeito a um princípio ético jornalístico fundamental para a profissão), provavelmente será sentenciado a vários meses de prisão, como já ocorreu com colegas por motivos semelhantes.

Enfim, nada de muito novo no front da guerra entre políticos e o jornalismo independente. Eles sempre aplaudem e incentivam quem os pratica quando o objeto de sua investigação são seus adversários. E tentam coibi-los quando se sentem prejudicados.

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OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar