Em Havana: Dez dias que abalaram meu mundo

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Entre a Avenida dos Presidentes e a Praça da Revolução, homenagem ao irmão mais novo que apresentou Fidel a Che Guevara, no México, em 1955

Um casal de austríacos dividia o olhar admirado entre o lado de fora do Lada soviético e minha conversa com o taxista. Eram cerca de 21h30, e saímos do aeroporto José Martí em direção ao Vedado.

Fui bombardeado com perguntas sobre Lula, novelas e “mujeres brasileñas”, enquanto percorríamos a periferia de Havana. A loira era a mais interessada na conversa, por entender um pouco de espanhol.

Após 20min, ela balbuciou algo: “E como está a revolução?”.

O taxista era negro, aparentava ter 45, 50 anos. Tinha vivido sempre sob o regime socialista, como a imensa maioria dos cubanos. “Muy bien, muy bien”.

Seu histórico familiar iniciava na província de Matanzas, a mesma do escritor Pedro Juan Gutiérrez, autor de meu manual de ‘autoajuda’ predileto, Trilogia Suja em Havana.

O motorista disparou benesses estatais em um tom meio ensaiado. Vagávamos por ruas desertas, com a metade dos ocupantes do carro sem entender direito o espanhol afrocubano, tão rico em sonoridade (e velocidade!).

Há quem conteste aquelas informações. Ou quem chame o taxista de doutrinado. Tudo bem. Mas, como disse ontem François Silvestre aqui no Substantivo Plural, se for brasileiro, não vale.

São realidades distintas demais para falar em ‘regras universais da humanidade’, em democracia, liberdade de expressão, etc.

E, numa boa, entendemos muito pouco de respeito ao próximo, obediência às leis e a real função de um estado para opinar sobre uma ilha outrora tratada como antro da esbórnia alheia.

Relembre as peculiaridades, digamos assim, no auge do turismo sexual estrangeiro aqui em Natal, coisa de uma década atrás. Agora multiplique por vinte. Era Havana até o final dos anos 1950.

Para mim, detonar a vida em Cuba sem ser cubano ou residente na ilha é como uma mulher dos Jardins Paulistanos atacar uma árabe por usar burca e aceitar a poligamia do marido. É o uso bruto de um universo de significados em outra cultura.

Viajei até o Caribe, naquele fevereiro de 2009, não para provar algum conjunto de preceitos sobre teorias político-econômicas, mediante evidências, argumentos ou exemplos colhidos dos nativos.

Eu estava em uma das cidades mais musicais do mundo. Um lugar histórico, pobre, é verdade, mas de bela arquitetura, apesar de corroída pelo atraso econômico e o salitre. Papos sobre comunismo, desigualdade e tal, seriam inevitáveis, mas longe de meu foco, pois tinha tanta coisa para se ver fora dos livros, entende?

Desci na calçada do hotel Saint John´s, onde me hospedei por dez dias, com a conversa do taxi à espreita.

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Praça da Revolução: Ministério do Interior e a icônica homenagem ao Che. FOTOGRAFIAS: Conrado Carlos

Che na mão é vendaval

No dia seguinte, bem cedo, caminho em direção ao Malecón, a via beira-mar com oito quilômetros de extensão, inaugurada nos anos 1930 e até hoje invicta contra a fúria do mar caribenho – ao contrário das marolinhas arrasadoras no calçadão de Ponta Negra.

Só voltei no final da tarde, depois de ir bater na Praça da Revolução, a dos prédios públicos famosos, como o Memorial José Martí e o Ministério do Interior (o da face de Che Guevara na fachada).

Durante todo o rolé, fui abordado por um pedinte. Um cara branco, vestido com formalidade, estilo pastor evangélico que, de início, perguntou se eu gostava do Che. Mal respondi, ele mostrou uma nota de dois pesos cubanos, ilustrada com a imagem do argentino, e tascou: “Te gusta este Che?”.

Convenhamos: para quem é cercado todos os dias por um batalhão de elementos maltrapilhos, no cruzamento da Prudente de Morais com a Integração, alguns bem agressivos na abordagem, aquilo me pareceu uma brincadeira.

Pense nas principais chagas sociais do Brasil: violência urbana, acidentes de trânsito e caos no sistema público de saúde. Elas simplesmente inexistem em Cuba, um país um pouco maior do que Pernambuco e com menos gente que o Ceará, de parcos recursos naturais e excluído do comércio mundial desde os 60s.

“Mas Fidel matou e torturou milhares!”, diz a parcialidade endêmica. Dizem que 25 mil pessoas no mítico ‘paredón’.

E o uso da violência de estado para melhorar a vida do povo, na tese do bandido bom é bandido morto?

E quem foram os mortos pela revolução? (1) Gente ligada ao governo de Fulgêncio Batista, ditador sanguinário e incompetente para gerir um país como raramente se viu. (2) Parte das elites corruptas das principais cidades. (3) Opositores do regime.

Nessa última categoria, um detalhe: corriam os anos 1960, Guerra Fria em ebulição. Creio ser desnecessário citar o que fizeram os Estados Unidos no Vietnã, na Coréia ou durante o Macarthismo.

O povo cubano apoiou em peso a revolução (repito: quase 60 anos atrás), como os brasileiros apoiariam uma matança ‘corretiva’ hoje em dia, não?

Poema audiovisual inspirou minha ida

Minha viagem começou a tomar forma cerca de um ano antes, ao ver o documentário Soy Cuba – Um mamute siberiano, de Vicente Ferraz.

O diretor carioca esmiuçou o filme homônimo do russo Mikail Kalatosov, então o cineasta mais badalado no sistema soviético. É um poema audiovisual lançado em 1964 para homenagear o socialismo dos trópicos, cuja fotografia de Serguei Urushevski vale menção.

Eu fiquei tão impactado com as imagens, sobretudo com o plano sequência de um enterro filmado do alto de vários prédios havaneiros, que decidi por Cuba como destino de curtição e algo frutífero para meu futuro como jornalista.

E assim foi. Contei com a ajuda enorme de Olavo Queiroz, sociólogo paulista radicado em Natal, com indicações de lugares e pessoas a procurar, caso do afilhado Jorgito.

Jorgito foi meu guia por três dias. No primeiro encontro, recomendações interessantes. Antes de entrarmos num cadillac velho que fazia a vez de Uber havaneiro, ele me disse: “Não abre a boca, porque você parece cubano”.

Entendi ele dizer que Conrado Corrales foi um jogador de beisebol popular na ilha.

Eram proibidos estrangeiros nos carros tipo lotação, assim como nos restaurantes menores, pagos em pesos cubanos. Ou seja, usei o jeitinho brasileiro para me dar bem em Havana – tá vendo porque jamais devemos opinar sobre a realidade dos outros?

Fomos dois dias ao Castillo del Morro, o maior forte das Américas, local onde aconteceu a Feria Internacional del Libro de La Habana daquele ano. Um espetáculo multicultural com gente de todo o mundo e livros quase de graça.

“Mas só tem Che e histórias da Sierra Maestra”, diria um patrulheiro ideológico, leigo no assunto livro.

Bastou uma circulada para aparecer coisa boa, como uma biografia do argentino Ricardo Piglia, escrita por Jorge Fornet, e Un largo camino hacia la luz, ensaios sobre cinema de Julio García Espinosa. Ambos vieram em minha mala.

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Operários descansam na hora do almoço, em Habana Vieja

Enxergar só defeitos ou absorver virtudes?

Você que adora gritar ‘Vai pra Cuba’ realmente aceita a tese de que lá eles vivem uma ditadura dos diabos, com a população sufocada ao extremo, sem chance alguma de contestação? Se sim, digo para ler mais sobre a história cubana.

A ilha tem uma longa tradição de golpes, revoluções, bala solta pra todo lado, se algum governante aloprar – Fulgêncio Batista que o diga.

Por outro lado, os Estados Unidos fomentaram contrarrevoluções em toda a América Latina, derrubaram governos em países maiores e mais complexos, como o Chile. Havana fica a 140km de Miami e sustenta uma elite doida pra acabar com Fidel Castro.

Por que isso nunca aconteceu? A União Soviética acabou no distante 1991. Todas as forças armadas cubanas mal aguentariam um round contra um porta-aviões norte-americano. Seria moleza invadir Cuba e acabar com a revolução.

Voltemos à viagem.

Fui três noites seguidas ao La Zorra y el Cuervo, o clube jazzístico mais importante do Caribe. Cada uma mais impressionante do que a outra. A maior delas, o show de uma banda com o neto de Chano Pozo, o Pozito, na percussão.

Minha tentativa frustrada de registrar a viagem em vídeo ganhou apoio do gerente, que liberou o brasileiro de câmera na mão para subir ao palco.

Final de set, zoeira com franceses, japoneses, canadenses, eslovacos, venezuelanos e gaúchos, vários com cubas libres no juízo, eu incluso.

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Neto de Chano Pozo, ‘Pozito’ integrou banda sensacional, que tocou no La Zorra y el Cuervo, principal clube de jazz do Caribe; Pense nas principais chagas sociais do Brasil: violência urbana, acidentes de trânsito e caos no sistema público de saúde. Elas simplesmente inexistem em Cuba

Pozito ficou tão empolgado que me perguntou duas vezes se eu tinha como trazê-lo para tocar no Brasil, terra adorada por quase todo cubano com que tive contato.

Novo porém para os patrulhas: o pedido era por admiração à música brasileira, não um plano de fuga.

Acredito que o fracasso da elite latino-americana, ao contrário das anglo-saxônicas, foi nunca querer papo com a turma do andar de baixo, nem se sentir integrante de um mesmo barco. Cada um cuida do seu bolso e dos chegados e só.

Sem contar o desprezo da pessoa padrão classe média natalense conservadora aculturada por arte. Senti uma emoção enorme no dia em que fui ao Teatro Karl Marx.

A companheira de Jorgito trabalhava para alguma companhia ou rede de teatro, não sei. Sei que ela articulou nossa ida ao espetáculo Vida, um alucinante musical que vinha de temporada de sucesso no Canadá.

A entrada custava 10 pesos para um cubano, menos de R$0,50, em valores de 2009. Falo de uma atração eleita o melhor espetáculo musical das Américas pela associação canadense de artes cênicas, com bailarinos em onze atos representativos da trajetória de uma mulher angustiada em meio ao clima político-religioso.

O último ato, chamado El Conficto, com tambores africanos e violões flamencos, canhões em explosão, foi de arrepiar.

Navarro também estava em Havana

Na segunda vez em que fui à Casa das Américas, fiquei o tempo todo na pequena livraria La Rayuela, nome de um conto de Júlio Cortázar. Prédio imponente no comecinho da Avenida dos Presidentes, chamada Calle G – no Vedado, as ruas são conhecidas por letras.

O principal centro cultural cubano foi fundado pela revolucionária Haydée Santamaria, quatro meses antes da Revolução. O administrador da livraria era o pintor Roberto Navarro, um homem de vasta cultura e simpatia.

“O livro em Cuba é barato porque é um bem do homem, não dos cubanos”, ele me disse. Paguei 20 Camilos Cienfuegos (um dos líderes da Revolução), coisa de dois reais à época, em um bolo de revistas da própria Casa, espécie de Serrote cubana.

A impressão de um visitante sempre tem mais cor e brilho. Ou ele só enxerga cores e brilhos. Emito alguma coisa agora, sete anos depois, também estimulado por versões de conhecidos com opiniões que respeito. Já imaginou o que diz um alemão depois de ver o melhor do Rio de Janeiro, camarada?

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Havana é uma das cidades mais musicais do mundo, com ótimos grupos em várias esquinas dos pontos turísticos, ideia que poderia ser usada aqui em Natal

A morte de Fidel

A questão vai além de idolatria, para muita gente que simpatiza com minorias. Pois Cuba é uma minoria discriminada na geopolítica mundial, tratada com rigidez e publicidade negativa o tempo todo, mesmo sem oferecer o menor perigo ao planeta, ao contrário de Irã e Arábia Saudita.

Para quem mistura liseu, bronca com o PT, Lula, Dilma, cor vermelha, tudo de esquerda, socialismo, comunismo, Che Guevara, Fidel Castro no mesmo balaio, recomendo a leitura de O homem que inventou Fidel, de Anthony DePalma, e Cuba sem Fidel, de Brian Latell.

Assim como Saddam Hussein, Osama Bin Laden e demais déspotas, Fidel virou fenômeno mundial através dos norte-americanos. Como sempre, no mesmo esquema: primeiro vira brother, é recebido com pompa e curiosidade.

Fidel discursou para 35 mil pessoas no Central Park, em Nova York, e 10 mil estudantes em Harvard, antes de virar o filho do capeta.

Enquanto o presidente Eisenhower foi jogar golfe na Georgia, por ser um veterano do desembarque na Normandia com 68 anos de idade que se recusava a sentar à mesa com o guerrilheiro desgrenhado de 32, Fidel brilhou na América a convite dos editores de jornais – já pensou?

Ele falava um inglês vacilante, mas extremamente musical – poucos governantes tiveram mais charme e carisma diante do público. Empresários texanos dos ramos da carne, arroz e petróleo chegaram a trocar tapa para falar com ele, pois Cuba deixava dinheiro no estado do ‘Gigante do Norte’.

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Dentro ou fora da ordem, uma revolução foi construída

Formada sobre tudo

Com a morte de Fidel Castro, a balela virtual e parcial aumentou – até entendo, neste momento em que muitos opinam sobre tudo, das leis ao sistema educacional brasileiro. Sem observância do passado em seu devido contexto, porém, ficamos sem respostas: fazemos a nossa revolução dentro da ordem ou contra ela?

Aposto em gente pensante à frente de eventos paradigmáticos, com respeito e honestidade pelo sujeito sem estudo que topa suar sangue em nome da causa. Aqui no Brasil isso é um fracasso.

Quem entra no pacote Elite raramente tem senso público e quer mudar a realidade. Trata dinheiro estatal como confeitos que caem do pote quebrado por alguém vendado no São João. Quem for mais esperto, bom de empurrões, joelhadas e ombradas vai aparar a maior quantidade possível.

“Isso de socialismo é coisa de latino-americano!”, grita a mesma voz.

Claro, na América Latina corre a maior desigualdade do mundo. Os países mais violentos estão aqui. A coisa se resolve na bala, deste lado do paraíso, pois bandido bom não é bandido morto?

A revolução liderada por Fidel Castro fuzilou milhares, como quer o brasileiro médio de hoje. Entendeu a contradição?

O que vi em Cuba foi muito mais do que esperei e bem menos do que ouço dos ‘conservas’. Bastou deixar os símbolos e signos do Patropi varonil em casa.

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Comentários

7 comments

  1. Fábio DeSilva 30 novembro, 2016 at 18:24

    Haters irão grunir, mas a caravana rumo a história continuará sua jornada. Excelente texto, primoroso e cirúrgico. Uma ode romântica a “isla”.

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