Em “O sal e o lírio”, o homem se aquece do próprio abraço

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“O sal e o lírio” é o mais novo livro de poemas de Francisca Vilas Boas, uma das pioneiras do miniconto no Brasil. Com sete livros publicados e participação em antologias, neste recente trabalho poucas palavras dizem muito. Gestos de sal e feridas caminham lado a lado através de um silente ou gritante ‘eu lírico’.

Lançado pela Editora Scortecci, SP, os poemas do livro se alternam entre lirismo e salinidade. No ofício da palavra, a poetisa se sobressai com metáforas. Francisca escreve sobre afetos germinais, ilusões, ilhas inacessíveis de encontros, corpos que enrugam a paisagem. No campo afetivo, aqueles que foram provar das fábulas se extraviaram. Como um voyeur, um guarda age na contrarrazão do desejo e multa o amor.

Pós-graduada em Letras e Direito, Francisca Vilas Boas exerceu as funções de professora e de oficiala da Justiça Federal, adquirindo assim familiaridade com as dobras do tempo, com o desrumo e o calendário das almas e, também, com inventários do abandono. Hoje, a poetisa questiona: “- a ferida sonha? o corpo é seu refém?” Enquanto isso, “deus se tornou imagem de museu”.

Há excesso de sal nos súbitos da rua. Um homem mata e tinge de sangue o branco do espaço. Mesmo depois que o caos dessangra, nem o cavalo branco de Gauguin escapa das mutações, e tem sua cor desbotada. Somente um carneiro na paisagem rural se mantém branco… branco.

Mineira de Guaxupé, Francisca registra as lembranças dos pomares da infância e dos lírios que refletem arco-íris. Mora no Rio de Janeiro desde 1973, entre belezas e máquinas do mundo. Em qualquer lugar há solidão e “a barca da morte atravessa o deserto das almas.” Ainda bem que as mulheres (incluindo a autora) emprestam doçuras ao sombrio.

Desde os anos de 1960, a escritora cumpre o ofício da espera e da lapidação de palavras. No processo criativo, definido como pura tocaia, vultos ganham ossatura e asas. Versos respiram: o suor no ar envolve a brisa que passa. Curiosamente, em um dos poemas a letra y lembra o formato de uma taça… de lírio.

Para a ex-professora de Literatura Brasileira e Língua Portuguesa, por mais de 30 anos, a gramática do mundo foi deletada. Sem perder o refinamento literário, ela registra a atual (in)comunicabilidade humana, em que o diálogo agoniza. Nesse aspecto, alguns poemas são salinamente líricos.

Com doçura farta e uma pitada de sal, Francisca não poupa sensibilidade ao descrever um amor de pai no primeiro contato com o filho – predestinado “a reescrever-te, a semear-te.” A mulher, tão traduzida e tão enigmática como em lua lúnula, ganhou poéticas de beleza e fortaleza. É fruto sobre a terra a urdir sua história de silêncios. A autora pergunta: o que é silenciado?

Vasto e profundo, “o sal e o lírio” pode ser definido em um verso do livro: “o homem caminha agasalhado do frio no próprio abraço.”

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