Em Pedaços

30 de junho de 2010 às 15:49 - 3 Comentários
Por Cláudia Magalhães

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A noite corria doce. As águas do rio lembravam calda de açúcar e as nuvens do céu, tufos de algodão. Ele esperava por seu amor na ponte dos desejos, sentindo-se um novo homem. Cantarolava sua música preferida, com a felicidade no peito alcançando as notas da loucura, que em seguida, perdiam-se no vento, num vôo belo e insano. Sentia-se livre de todos os erros. Paria a si mesmo e fazia-se anjo. Milagres do amor…
Ela chegou na hora marcada. Era alta, branca, de cabelos pretos e olhos amarelos. Vestia um vestido de algodão com estampa de flores miúdas que lhe ia até os pés. Ele aproximou-se, segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e beijou-lhe a testa, o que a fez levar a mão esquerda até os lábios, num gesto de timidez. Ele é tão gentil!, Pensou entregando-lhe a mão. Venha, vamos caminhar um pouco, ele pediu com doçura. Com trinta e poucos anos, sentiu-se uma adolescente. Nunca foi feliz no amor, embora tivesse tido vários relacionamentos. Todos terminaram de forma pacífica, sem grandes traumas, exceto o último, o grande amor da sua vida, mas que a abandonara com violência, deixando-a em pedaços que agiam como se fossem independentes, correndo, se humilhando por uma migalha daquele amor, destruindo sua essência, reduzindo-a a carne e ossos.
Agora, um ano depois, estava ali. Talvez, estivesse sendo muito ousada em se entregar a um estranho daquela forma, afinal, só trocaram algumas poucas palavras quando ele ligou para o seu número por engano. Que importa? Ainda estou doente e nenhuma dor pode ser maior que a minha, pensou tentando afastar a tristeza.
Caminhavam conversando amenidades quando começou a chover fortemente. Ele segurou firme a mão dela, atravessaram o pátio de um parque abandonado e seguiram até uma pequena casinha. Venha, aqui estaremos protegidos da chuva, disse abrindo uma porta velha de madeira. A casinha resumia-se a uma salinha, com uma pequena mesa de madeira e um imenso espelho na parede de entrada, e a um pequeno banheiro.
- Não conhecia esse lugar… – ela comentou sentindo muito frio.
- Faz, mais ou menos, um ano que esse parque está abandonado. – Ele respondeu tirando o enorme casaco e, colocando-o sobre a mesa, aproximou-se dela olhando-a profundamente por alguns segundos.
- Quer fazer sexo comigo? – ela perguntou num impulso.
- Eu quero te amar… – respondeu cheio de desejo.
- Sexo sem amor… – baixou os olhos e sorriu com amargura.
- Quero a mesma coisa que você e, pode ter certeza, o amor está incluído nisso…
Ele beijou-lhe os dois olhos e a boca. Ele é apenas um estranho, ela pensou tentando controlar o desejo que aumentava violentamente. Fechou os olhos e, através daqueles carinhos, tentou materializar a saudade do amor perdido. Sentiu a temperatura do seu sexo subir rapidamente, acumulando calor, tal qual uma panela de pressão prestes a explodir, a devorar-lhe as carnes com a sua água de fogo, e queimar-lhe os ossos até restar-lhe somente o pó. Ainda com os olhos fechados, ela tirou a roupa revelando suas carnes brancas. Vem, amor! Nossos corpos foram feitos um para o outro. Vem, logo! Que esse amor está me matando!, Pensou deitando no chão frio, abrindo levemente as pernas. Era-lhe tão grande o desejo que sentiu uma enorme vontade de chorar. Como você é bela!, Ele disse, pensando na imensidão do amor escondido por trás daquela porta, daquela flor em carne. Sentindo o perfume doce do amor invadir a pequena sala, caiu de joelhos e abocanhou-lhe o sexo. Precisava preparar-lhe o caminho, desenrolando o tapete liquido, sorvendo cada gota daquela água santa para dentro do seu corpo, benzendo-o. No início, com cuidado e carinho, enchendo o ambiente de gemidos baixos, doces, até tornar-se um ato desesperado, cheio de ansiedade. Pare, está doendo!, Ela gritou, causando nele grande alteração no espírito, e com isso, ele mordeu-lhe o sexo com mais força. O amor não poderia escapar, não dessa vez. Ela soltou um grito animal quebrando o silêncio da noite. Em desespero, estendeu o braço direito, pegou um dos seus sapatos e com o salto fino desferiu-lhe vários golpes na cabeça, até conseguir desvencilhar-se e correr para o lado oposto daquele pequeno inferno.
- Louco! Você é um louco!
- Eu amo você! – Disse olhando-a intensamente.
- Eu quero ir embora!
- Não torne as coisas mais difíceis pra mim. Diga que me ama…
- Eu não posso amar você, nos conhecemos há poucas horas!
- Por favor, diga que me ama…
- Eu não amo você! – gritou com desespero.
Naquele momento, ele teve a certeza. O que ele procurava não estava naquele coração. Tirou uma faca do casaco e enfiou no peito dela. Ela caiu trêmula no chão. Observou-a com cuidado. Ela já não estava mais ali. O esconderijo do amor estava, finalmente, arrebentado. Começou, então, sua busca, partindo-o, deformando-o. Onde você está? Na cabeça, nos fazendo perder o juízo, a razão? Na boca, que guarda o céu e cospe obscenidades? Nas mãos, atado em suas linhas tortas? No sexo, que chora no amor e na masturbação? Nos pés, que correm com sede de lama?, Procurou desesperadamente até a exaustão, até entender que ele se escondera num lugar que ele não teria acesso. Ele fugiu da vida. Com a dor, escorregadio e sem forma, entrou no sono dela, e se escondeu em seus sonhos…, pensou, com tristeza. O amor havia surgido em sua vida para, novamente, horas depois, deixar somente carne, sangue e vísceras.
Observou, pela janela, a noite se recolhendo para dormir. Precisava agir antes que amanhecesse. Colocou toda aquela sujeira num saco. Olhou-se no espelho, estava com uma aparência horrível, sujo de sangue e suor. Tomou um banho demorado e vestiu a mesma roupa. Pegou o casaco que ficara sobre a mesa, tomando o cuidado de abotoá-lo por completo, dos joelhos até o pescoço, a fim de esconder as manchas de sangue. Com a mente em branco e com o seu amor em pedaços, retornou a ponte dos desejos e, guiado pelo instinto, jogou o saco no rio. Era a terceira vez, naquele ano, que saía com o Sol cheio de desejos e sonhos e voltava na madrugada, oco, vazio. Não podia se queixar de solidão. Misturado aos seus inúmeros e bons amigos, logo, logo, estaria recuperado. Seja um bom menino!, Lembrou com carinho das últimas palavras da sua querida mãe antes de sair de casa. Precisava comprar pão fresquinho e preparar-lhe o café. Dormiria, pelo menos uma hora em seu colo, antes de ir para o trabalho.
As águas do rio refletiam o céu em vermelho, destruindo a vaidade de Deus. Tentou cantar. Não conseguiu, a sua língua estava presa no céu com gosto de sangue. Então, chorou. Os seus olhos deram a sua boca o gosto amargo da vida, o sal que mantém sobre a terra somente a carne e os ossos, mas que é inimigo do amor, que ele tanto deseja, mais que qualquer outra coisa. Precisava dormir. Com a luz do Sol, talvez o encontrasse novamente, então cantaria sua canção preferida, sonhando com um final feliz.

3 Comentários

  1. Rogerio Gastão.
    1 de julho de 2010

    memorável.

  2. Jarbas Martins
    1 de julho de 2010

    minha autora de folhetins preferida. beijos, claudinha. e o documentário com buca ?

  3. 1 de julho de 2010

    Eita, que delícia você por aqui Rogério! Saudades… Obrigada pela visita, meu rei! Volte, sempre!
    Jarbas, meu querido! Feliz, é como me sinto, com teu carinho sempre presente! Vamos marcar algo para falarmos dos projetos, sonhos e, claro, conversar miolo de pote! rsrsrs Espero que Tácito organize um encontro dos pluralistas e convide as meninas para quebrar esse clube do bolinha! Não é, Tácito? kkkkkk

    Beijos e beijos…

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”