Entrevista com o homenageado da Bienal de Pernambuco, Fernando Monteiro

Redação
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Fonte: Clube de Leitura Caruaru

Foto: J. Saraiva

Dia 07 de Outubro o Clube de Leitura Caruaru irá realizar uma excursão para a Bienal de Pernambuco, que tem Fernando Monteiro como um dos homenageados. Conseguimos uma entrevista com ele, confira:

Clube de Leitura Caruaru: Expressar-se a partir da escrita é mesmo magnífico. Logo, o que não nos falta é curiosidade a respeito de como se deu o processo de criação literária nessas vidas sensíveis. Saber sobre os caldeirões onde é cozida toda essa fartura de versos e prosas. Fernando Monteiro, como tudo começou para você?

Fernando Monteiro: Eu creio que escrever é o resultado quase natural de ler — com uma sensibilidade “adequada”, digamos assim, ou, talvez, despertada para tentar, um dia, auto-expressão. Lendo, lendo e lendo: foi assim que começou, para mim, primeiro em Bibliotecas e, depois, começando a comprar, com o dinheiro curto da “mesada” de um pai pobre (mas generoso) alguns livros que eram lançados e não estariam numa biblioteca nem tão cedo… Depois, veio a vontade de tentar emular, imitar — necessariamente — aquilo que me deslumbrava: a capacidade de fazer o leitor se interessar pelo que é escrito, narrado, contado e fixo na cultura, a partir daí, por menos ou mais tempo. [E algumas das “coisas escritas”, às vezes poderão se tornar clássicos que atravessarão as épocas.]

CLC: Um homem multifacetado: cineasta, textos poéticos, teatrais e prosaicos. A que se deve esse fenômeno

Fernando: Sou de uma geração muito influenciada pelo cinema, acima de tudo. Mas, se você assistia “Ricardo III” no cinema, isso fazia se interessar também por teatro, enquanto a vida começava a ser vivida e, no colégio, os assuntos da cultura e até da vida política do país despertavam interesse etc. “Homem, mulher, ser humano nenhum é uma ilha”. Você descobre que tem uma opinião (mesmo que ainda pouco embasada, eventualmente), e vai seguindo em busca de respostas para o que vê, ou julga ver, iniciando a vida de “não-Ilha” de cada ser pensante…

CLC: Em linhas gerais compreendemos que escrever trata-se de posicionamento, reflexão. Mesmo quando é por prazer está associado a um caráter quase que didático. Como você caracteriza a importância do exercício da escrita enquanto produção social?

Fernando: Deduz-se da resposta anterior: ninguém pode fugir ao seu tempo — mas é preciso ter muita informação, também, sobre o passado (que se repete — e “uma ou outra vez, como farsa”), sobre as experiências de pessoas que já passaram por fenômenos parecidos, em outras épocas tão ou ainda mais confusas e\ou agitadas.

CLC: Ainda nessa perspectiva, como você destaca a importância da literatura na construção do ser social?

Fernando: É claro que sim. A literatura dilata a consciência — quando é verdadeira. E faz muito muito mal — quando é falsa.

CLC: Verificando algumas de suas entrevistas é marcante o quanto você tem a dizer sobre a produção literária brasileira e seus respectivos fenômenos mercadológicos. O que determina que uma obra seja boa ou ruim?

Fernando: Nós temos uma literatura ainda incipiente, aqui no Brasil. É evidente que ela não está entre as grandes, sendo mesmo vista, até, como apenas uma ramo da literatura de língua portuguesa (o que seria apenas “tecnicamente correto”, como descrição limitada). Nosso escritor mais universalmente conhecido — Jorge Amado (ainda) — não é, de modo algum, um escritor profundo, porém foi capaz de criar um mundo, um universo quase “particular”, baseado na vida do Recôncavo baiano, no povo de Ilhéus, Salvador e também do sertão da Bahia. Criar um universo, que passa a existir pelo meio de determinadas obras (e existir enquanto elas forem lidas) é algo que iria dar, ao Jorge, o Prêmio Nobel, naquele ano em que os suecos resolveram “premiar” a língua portuguesa, e ele era o escolhido. O que aconteceu, porque afinal se fixaram no nome do português José Saramago, eu conto isso no meu romance O grau Graumann… Está esgotado nas hoje péssimas megas-livrarias brasileiras, mas existem exemplares, em quantidade razoável, na “Estante Virtual”, por exemplo.

CLC: Considerando a sua trajetória, os caminhos que fez questão de trilhar até que se chegasse ao primeiro escrito, o que você destacaria como indispensável para aqueles que também têm a pretensão de serem escritores?

Fernando: Sinceridade para consigo mesmo, olhar claro para as coisas, o mais agudo e compreensivo possível. EMPATIA para com o Outro, numa ponta — e REJEIÇÃO absoluta das injustiças, do fanatismo, das visões curtas, na outra ponta. E TRABALHO, trabalho incansável. Depois de muito elaborar qualquer texto que for, deixe o tempo que puder na gaveta, e, um dia, releia com capacidade crítica feroz, quase “homicida”, disposta a cortar toda a “gordura”, tudo que não seja essencial para o que você quer dizer no texto.

CLC: Sabemos que muito em breve acontecerá a XI Bienal internacional do livro de Pernambuco. E nesta edição, Lima Barreto será homenageado. Como foi receber a notícia de que seu nome também compõe o quadro de homenageados?

Fernando: De fato, o grande Lima Barreto e este “escriba” aqui são os homenageados da XI Bienal Internacional do Livro, que acontece de 6 a 15 deste mês de Outubro, no Centro de Convenções do Recife e não só lá: um dos eventos da XI Bienal será a exibição — excepcional oportunidade — da obra-prima Ivan, o Terrível, do gênio russo Sergei Eisenstein, no velho Cinema São Luiz, no centro, sábado 14, às 16 horas. Em seguida à exibição do longa-metragem — em PELÍCULA 35mm –, farei o lançamento do meu novo livro, Contos Estrangeiros de Fernando Monteiro, que está sendo lançado pela editora carioca Confraria do Vento.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DA BIENAL DO LIVRO DE PERNAMBUCO 2017

CLC: Fernando Monteiro, qual a grande ficção que existe no real?

Fernando: O real é também uma grande ficção. Talvez tudo seja ficção, narrativa e, no final, Poesia. A “Poeisis” pela qual tudo começou, à roda de uma fogueira na antiga Suméria ou defronte das muralhas de Troia, os soldados afinal relaxados enquanto conversavam sobre a batalha da manhã prestes a entrar no poema imortal de um bardo com vocação para o épico chamado Homero.

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