Entrevista com Safran Foer

1 de fevereiro de 2010 às 15:01 - Comentar

Por Cíntia Bertolino
Estadão

No seu primeiro título de não ficção, o escritor americano Jonathan Safran Foer disseca a indústria da carne nos EUA

Em Eating Animals (Hamish Hamilton), publicado no fim de 2009 nos Estados Unidos, o escritor americano Jonathan Safran Foer traça um perfil perturbador das fazendas industriais, responsáveis por 99% da carne consumida naquele país.

Ao saber que sua mulher, a também escritora Nicole Krauss, estava grávida, Foer, tomado pela preocupação de alimentar um filho, quis saber em profundidade de onde vinha e como era produzida a carne que comia. Desde então é vegetariano. Autor dos elogiados romances Tudo se Ilumina (2005) e Extremamente Alto & Incrivelmente Perto (2006), ambos editados no Brasil pela Rocco, Foer passou três anos pesquisando o assunto.

Eating Animals será lançado por aqui, também pela Rocco, em meados deste ano, com tradução da escritora Adriana Lisboa. “Nem todo mundo adora o livro, mas mesmo quem não gostou concorda que este é um assunto que precisa ser discutido. Importar-se com essa questão é ser fundamentalmente humano”, disse ele nesta entrevista ao Estado, de Nova York.

Por que um romancista aclamado decidiu escrever um livro-reportagem sobre as fazendas industriais americanas?

Não foi uma coisa que escolhi fazer. Para ser sincero, não achei nem um pouco divertido. O livro trata de um tópico sobre o qual pouca gente escreveu, apesar do fato de ser algo enormemente importante. É como se existisse um véu silencioso ao redor do assunto – e escritores, frequentemente, são atraídos por coisas sobre as quais ninguém fala. Considero-me um romancista, não um autor de não ficção. Ainda assim, a discussão, se deveríamos ou não comer animais, sempre esteve presente na minha cabeça. Embora eu não pensasse nela seriamente desde criança, a decisão de deixar de comer carne tornou-se uma questão urgente quando minha mulher engravidou.

Como foi escrever o livro?

A pesquisa foi tremendamente frustrante; era difícil ver qualquer coisa relacionada ao assunto. A indústria impossibilitou completamente o acesso às fazendas onde a maior parte da carne consumida nos Estados Unidos é produzida. Acabei tendo que “tomar a lei em minhas próprias mãos”, como costumamos dizer. Mas, apesar de frustrante, esse processo foi muito revelador. Tenho vários amigos que me disseram que em vários momentos do livro ficaram tão surpresos que liam essas passagens em voz alta para suas mulheres e namoradas, sempre começando com um: “Deus do céu, você sabia disso? E disso?” Exatamente a mesma coisa aconteceu quando eu estava escrevendo. Em inúmeros momentos falei em voz alta: “Oh, meu Deus, é inacreditável.” Foi um processo chocante para mim.

Comer ou não comer carne é um assunto delicado de tratar. Foi difícil acertar o tom?

Acho muito irritante quem faz discursos pregando que as pessoas mudem. Existem várias questões que eu ainda não tenho certeza. No curso da produção desse livro estava tentando também encontrar meu próprio caminho. A falta de certezas absolutas me encorajou a escrever de um modo, talvez, mais humilde. Acho isso importante quando você tem de desenvolver um argumento. Como disse, foi muito difícil fazer a pesquisa, mas nada foi mais difícil do que achar o tom certo.

A preocupação era não deixar que o livro se transformasse em um relato passional demais?

Em momentos pontuais deixo minhas emoções falarem explicitamente. Acho que esse aspecto faz parte da história. A história da comida tem fatos, estatísticas, mas também tem a ver com nossas emoções, memória, raiva, prazer e amor, as sensações que uma refeição em família pode desencadear. Não me preocupei em tentar convencer as pessoas. Nesse caso, informar é convencer.

Qual foi o impacto de se ver numa fazenda estranha no meio da noite?

Nunca quis ter de invadir um local em que não era bem-vindo. Não gosto desse tipo de situação. Contudo, era o que tinha de ser feito. Essa experiência teve um grande impacto sobre mim. Já tinha visto vídeos e fotos dessas fábricas, mas quando se está diante de um cenário desses, vendo tudo com seus olhos, é diferente.

É possível vislumbrar, para um futuro próximo, um cenário diferente do que você descreve no livro?

Uma mudança imediata é bem improvável, porém talvez daqui a 10 anos a maior parte das refeições que faremos seja vegetariana. Não acredito que todo mundo será vegetariano, mas acho que temos refletir mais a respeito de nossas escolhas. As pessoas dizem “não posso ser vegetariano”, porém usam isso como uma desculpa para não fazer nada.

Na fase de preparação do livro, você escreveu muitas cartas aos grandes produtores americanos de carne. Agora que a obra foi publicada, alguém da indústria se manifestou?

Não. Tudo o que eles não querem é chamar a atenção.

Durante a produção do livro você trabalhou em outro projeto?

Sim, estou escrevendo um romance, para o qual não tenho previsão de lançamento. Escrever romances é o que imagino fazer pelo restante da minha vida. Não acredito que vá voltar a escrever não ficção.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente