Da política do coração

Milena Azevedo
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Filme israelense A Banda ganhou 46 prêmios em diversos festivais de cinema pelo mundo com sua história que aproxima as culturas árabe e judaica através da música e de improváveis relações humanas; é o primeiro longa do diretor Eran Kolirin

O diálogo entre Israel e Egito nunca foi dos melhores, pois durante décadas viveram uma relação de ‘tapas e beijos’.

E sendo a política do coração tão ou mais complexa do que as relações diplomáticas, o cineasta e roteirista israelense Eran Kolirin foi ousado em aproximar essas duas culturas em seu primeiro longa para o cinema, A Banda (Bikur Ha-Tizmoret – 2007).

O filme mostra uma banda da polícia da cidade de Alexandria, no Egito, convidada para tocar na inauguração do Centro Cultural Árabe da cidade de Petah Tikva, em Israel, esquecida no aeroporto pela Embaixada Egípcia.

Diante daquela situação embaraçosa, o íntegro Tenente-Coronel Tawfiq Zacharya entende ser melhor procurarem o Centro Cultural Árabe por conta própria.

Sem GPS, comunicando-se num inglês macarrônico e com o jovem oficial Khaled mais interessado em paquerar a atendente da rodoviária do que saber o destino do ônibus, a banda desembarca no pacato vilarejo de Beit Hatikva, onde os solitários habitantes tentarão estabelecer algum laço de empatia com os músicos árabes perdidos.

Cabe à extrovertida e bela Dina, dona de um pequeno restaurante, tentar os primeiros contatos. Ela começa por baixar um pouco a guarda do sisudo Tawfiq, oferecendo, além de informações, acomodações para eles passarem a noite, haja vista o próximo ônibus só sair no outro dia de manhã.

A partir desse ponto, Kolirin ameniza o nonsense e faz a câmera delicadamente acompanhar as relações humanas entre personagens de personalidades e costumes díspares, mas extremamente necessitadas de afeto e atenção, até cada um obter seu quinhão de paz.

A comunicação entre árabes e israelenses é toda em inglês, e em poucos momentos na trama, para expressarem uma emoção profunda ou um ponto de vista contundente, ou apenas para não se fazerem entender, alguns personagens recorrem às suas línguas mães.

A Banda_2Muito se fala, mas a comunicação inexiste

Há sequências tocantes, como as em que Dina tenta a todo custo se aproximar de Tawfiq. O gelo somente é quebrado quando ela evoca o amor dele pela música e pela regência da banda.

Contudo, mesmo viúvo, Tawfiq continua focado em seu sentimento de culpa pelo acontecido ao filho e à esposa, insistindo em tratar Dina formalmente, mantendo certa distância emocional.

Já o imaturo Khaled tem a oportunidade de ensinar ao tímido Papi como tratar uma mulher de forma gentil, possibilitando-o vivenciar seus sentimentos pela primeira vez. E Khaled ainda salva a noite de Dina, lhe oferecendo as carícias negadas por Tawfiq (que deixa o bem-estar dela vencer seu remorso).

Por sua vez, o paciente Simon, segundo-em-comando, fica hospedado na casa de Itzik, com o maior número de membros da banda. É aniversário da esposa do anfitrião e o clima na família não é dos melhores, culminado pelo ‘presente de grego’ trazido.

A Banda_Eran Kolirin

Em “A Banda”, Eran Kolirin, 44, conta a história do conjunto musical da polícia do Egito perdida num deserto em Israel à procura do lugar onde se apresentará: o Centro de Cultura Árabe.

Lá, muito se fala, mas a comunicação não existe. E com poucas palavras, Simon ajuda Itzik, e Itzik faz Simon entender o que precisa para finalizar a composição da peça.

Antes deslocados e zoados, os estrangeiros com seus uniformes impecáveis experimentaram uma improvável e edificante sensação de acolhimento.

Assim, quando chegam ao seu destino, articulando com seus pares árabes, cantam e tocam com alegria, extravasando uma profunda gratidão pelos amigos israelenses.

A simplicidade tocante de Kolirin, em A Banda, rendeu ao filme 46 prêmios em diversos festivais pelo mundo, entre eles o da mostra Un Certain Regard, de Cannes.

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Milena Azevedo

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