Erre de novo, erre melhor

Pablo Capistrano
Artes VisuaisMais

Poucas vezes a arte rompeu muralhas ideológicas, como na França dos séculos XVIII e XIX; exemplo intenso vem dos quadros de Eugène Delacroix, pintor que foi além da moda de seu tempo e construiu um caminho para revolucionar a pintura moderna.

Imagem de capa: A Liberdade Guiando o Povo, de Eugenè Delacroix

Jacques-Louis David_O Juramento dos Horácios

Reprodução do quadro O Juramento dos Horácios, de Jacques-Louis David.

Em 1784, Jacques-Louis David apresentou ao público francês seu quadro: O Juramento dos Horácios. A pintura retrata um episódio da peça Horácio, de Corneille, e mostra três heróis romanos fazendo um juramento ao pai antes da batalha. No canto do quadro as mulheres da família, desoladas, ansiosas e impotentes diante da compulsão masculina em cultivar a estupidez, choram antecipando os tempos turbulentos que vão viver.

A obra causou euforia em Paris. Cinco anos antes da revolução de 1789, sua apreciação pública chegou a produzir em um visitante alemão citado por David Priestland, no seu livro A Bandeira Vermelha: a história do comunismo, a seguinte observação:

“Nas festas, nas casas de café e nas ruas (…) não se fala de outra coisa a não ser de David e o Juramento dos Horácios. Nenhum negócio de Estado da antiga Roma, nenhuma eleição Papal da Roma mais recente, despertou sentimentos tão poderosos”.

Os sentimentos poderosos descritos pelo comentário do visitante estrangeiro, coadunavam com a perspectiva que o filósofo Jean Jacques Rosseau nutria acerca do caráter eminentemente revolucionário de certo militarismo de tipo espartano.

Idealizado e costurado pelo espírito de um iluminismo europeu que insistia em “imitar os inimitáveis” (ou seja: os antigos); Rosseau imaginava a nova sociedade esclarecida como uma mistura da puritana Genebra com a heroica Esparta. Um lugar onde o egoísmo individual fosse suplantado pela austeridade guerreira do espírito societário e do autossacrifício em função da comunidade.

Assim como Rosseau, um de seus seguidores, Guilhaume-Joseph Sage, já defendia desde 1770 que: “(…) a razão pela qual nossas instituições são eternamente ruins é que em princípio são totalmente opostas àquelas de Licurgo”, fazendo referência ao famoso legislador espartano.

A imagem que melhor representa a Revolução Francesa

Apesar dessa nostalgia da Grécia e da influência popular da obra O Juramento dos Horácios, não é o quadro de David, com seu imperativo absoluto do desenho sobre a cor e sua geometria obsessivamente ordenada, que melhor sintetiza o espírito de 1789.

Curiosamente, se você pedir a qualquer pessoa razoavelmente instruída na história da arte para pensar qual imagem melhor representa o espírito da revolução francesa, é outra pintura que vem logo à mente.

Em 1831, o jovem Eugenè Delacroix, filho de um membro do governo revolucionário que votou pela decapitação de Luis XVI em 1793, apresentou mais uma de suas obras no Salão de Paris.

Delacroix, que ironicamente havia sido aluno de Pierre-Narcisse Guérin, antigo discípulo de David, na verdade já havia ‘tocado o foda-se’ para as regras do classicismo europeu quando apresentou no salão de 1827-1828 o quadro A Morte de Sardanapalo, inspirado num poema de Byron.

O movimento obsceno da cor, o desequilíbrio dinâmico do quadro e a temática mórbida de uma orgia de morte e violência, havia chocado até os apreciadores mais avançadinhos dos cafés parisienses.

O jovem Delacroix, que era uma espécie de “cratera vulcânica artisticamente encoberta por um arranjo de flores” (de acordo com a descrição que o poeta Charles Baudelaire fez do amigo) não se continha.

Delacroix

Erudito precoce, Ferdinand Victor Eugène Delacroix (1798-1863) traduziu momento político francês em seus quadros.

Delacroix e a revolução da pintura moderna

Ele estava saltando para além da moda de seu tempo e construindo as bases para uma obra romântica e selvagem que ajudaria a pintura francesa a libertar a cor, naquela época ainda sufocada pelo desenho, e abriria caminho para toda a revolução da pintura moderna que se seguiria nas décadas vindouras.

Talvez por isso, mesmo sem ter tido nenhuma participação efetiva no frison revolucionário de 1789; o quadro A Liberdade Guiando o Povo tenha capturado de modo tão intenso o espírito daqueles anos incontidos.

Na verdade, a pintura não foi feita em função da revolução que derrubou a bastilha e devastou o antigo regime aristocrático na França.

Ele faz referência a revolução de 1830, que derrubou o rei restaurado Carlos X e colocou no seu lugar o duque Luís Felipe, queridinho da burguesia parisiense.

No começo, quando os confrontos de 1830 eclodiram, Delacroix ficou bastante temeroso com a presença de grandes quantidades de miseráveis e pobres na rua; mas, como descreveu Alexandre Dumas: “quando viu a bandeira do império, o entusiasmo tomou lugar do medo e glorificou o povo que a princípio o assustava”.

Essa mudança de percepção acerca dos acontecimentos daquele ano aparece claramente no quadro.

A Liberdade Guiando o Povo

French 1830_duchesse d'Angouleme, Charles X and the duc d'Angouleme.

Quadros de Delacroix surgiram em meio a moda de desenhos e ilustrações na França, como nesta de 1830 com Carlos X acompanhado pelo duque e a duquesa de d’Angouleme.

Num primeiro plano, o pintor retrata cadáveres caídos, tanto de revolucionários quanto de militares fieis à monarquia de Carlos X. À esquerda, em meio a um turbilhão de fumaça, a multidão armada avança com três figuras lançadas em destaque. Um operário parisiense com espada na mão, um burguês com um chapéu cilíndrico e uma espingarda (no qual o próprio Delacroix teria supostamente se retratado) e um camponês, lançado em uma adoração religiosa aos pés da figura épica que aparece no centro do quadro.

A mulher que, com os seios à mostra, portando o barrete frígio símbolo da antiga revolução, carrega em uma mão a bandeira tricolor e na outra uma baioneta.

Para Delacroix, a liberdade que guia o povo em 1830 é a mesma liberdade que o guiou em 1789.  A obra, considerada por alguns críticos conservadores (eles sempre enchem o saco nestas horas, não é?) como “feia e ignóbil”, foi retirada da vista do público algum tempo após ser exposta; para não “estimular desordens”.

Revolução de 1830 não alterou status quo

Logo, logo, para a massa de pobres franceses, ficou claro que a revolução de 1830 não iria mudar substancialmente o status quo econômico que havia se consolidado na França no período posterior a queda de Napoleão.

French 1830

Massa de franceses viu que a situação econômica permaneceria a mesma, após a queda de Napoleão; nova revolução fracassou, a despeito da vitória política e da deposição de Carlos X, e mostrou esgotamento do modelo das revoluções liberais.

O consorcio de banqueiros, industriais e comerciantes não tinha nenhum interesse sério de atender as demandas de uma massa de trabalhadores e pequenos proprietários que ainda pensava a sua luta emancipatória nos moldes do que havia acontecido quarenta anos antes.

Pois é camarada, isso é sempre recorrente. Na história das revoluções os fracassos são elementos incontornáveis.

Eles apontam para o fato do esgotamento que comunidades humanas tem em tempo de desordem, bem como para o receio que uma parte majoritária da sociedade tem em mergulhar a fundo em experiências sociais radicais de transformação de estruturas, crenças e valores.

A covardia revolucionaria que geralmente produz o terror, também puxa o freio do furor revolucionário, mesmo quando as ondas da história insistem em se repetir. 1830 parecia ser uma reedição de 1789, mas não era.

A nova revolução fracassada, a despeito da vitória política e da deposição de Carlos X, deixava claro que o modelo das revoluções liberais que varreram o globo por décadas já se esgotara, afogado em seus próprios erros.

Delacroix_A Morte de Sardanapalo

Delacroix ‘tocou o foda-se’ para as regras do classicismo europeu ao apresentar o quadro A Morte de Sardanapalo, no salão de 1827-1828, inspirado num poema de Byron.

Cadáveres na rua e quadro escondido pelos senhores da nova ordem

Curiosamente, o espírito daquilo que embalou as gerações no final do século XVIII, pode ser captado de modo intenso até hoje no quadro de Delacroix, que se tornou um ícone daqueles anos.

Talvez por isso, os senhores da nova ordem, tão logo os cadáveres tenham sido retirados das ruas e a massa recolocada em seu lugar doméstico de sempre, tenham empurrado o quadro de Delacroix para dentro de um sótão. Ele só sairia de lá quando, em 1848, uma nova vaga revolucionária, dessa vez com novas cores, tomasse de conta da Europa.

A arte, o maior e mais desconcertante mecanismo de desempacotamento da imaginação política, fazia seu serviço de movimentar o entulho da história, criando fendas na muralha ideológica e mostrando, para quem tivesse olhos para ver, ou ouvidos para o ouvir, que a tarefa política que chama ao campo de batalha cada mulher e cada homem que tenha de algum modo aprendido a cultivar esperança no futuro, era a de fazer valer a velha máxima que diz: “erre de novo, erre melhor”.

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Pablo Capistrano

Comentários

3 comments

  1. Gabriela 20 março, 2017 at 12:15

    Magnífico como as histórias se repetem. Cada uma com uma nuance diferente mas de modo geral as peças principais continuam as mesmas. Os mesmos erros, as mesmas ilusões.

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