Espanha x Alemanha

12 de julho de 2010 às 18:05 - 1 Comentário

Por Tatiana Martins

Obrigada, meu Tio Jarbas. Devo a você e Eduardo Galeano o meu despertar para a arte que é o futebol.

Por André Kfouri

TOURADA EM DURBAN

A única chance do toureiro é sair da arena sem que o touro o encontre. O animal pode vê-lo, sentir seu cheiro. Pode saber onde ele está e para onde vai. Mas não pode tocá-lo.

O peso é tamanho, a força tão bruta, que um leve raspão dos chifres pontiagudos é o fim.

A única chance do touro é suportar a tortura, as provocações, os ferimentos. Participar do bailado sem permitir que as repetições da coreografia quebrem seu espírito, derrubem sua determinação. E esperar um vacilo.

O toureiro tem a coragem, a técnica, a estratégia, as armas. O touro tem a força, a explosão, a velocidade, o instinto.

O toureiro é paciente, maquiavélico. Sabe que o tempo corre a seu favor, que o controle das ações provocará os erros, que o cansaço deixará o touro à sua mercê, para o golpe final.

O touro é insistente, obstinado. Sua natureza lhe obriga a se comportar e se mover da mesma forma, sempre oferecendo perigo, porque isso é o que está programado em seus genes. Um engano, uma falha, uma demonstração de arrogância do toureiro, e seus chifres o punirão com severidade.

O toureiro sabe como a dança terminará, se tudo correr como ele deseja. Mas tem de ser perfeito. Pagará caríssimo pela indecisão, ou pela má execução.

O touro só sabe atacar, agredir. Sua luta é pela sobrevivência. Ele corre, sua, sangra à espera do momento em que a lei do mais forte prevalecerá.

Na “plaza” de Durban, as cornetas africanas soam de um jeito diferente. Mas o duelo entre o toureiro espanhol e o touro alemão é familiar. A camisa vermelha do toureiro se move por todos os lados, pretende hipnotizar o animal. Xavi, Iniesta, Pedro e Villa são como as lanças que perfuram o bicho, o fazem sofrer, o deixam irritado.

Mas é preciso ter cuidado. Schweinsteiger é o coração que não diminui seu ritmo. Podolski e Klose são os músculos que impulsionam o touro. Ozil é a ponta do chifre.

Na segunda parte do espetáculo de vida ou morte na Copa, o toureiro acelera as ações, conduz a dança de maneira mais objetiva. O touro parece cansado, não responde com a mesma ferocidade. Pedro instiga, fustiga. Iniesta provoca, Alonso bate.

Mas subestimar o touro é imperdoável. Quando o toureiro se imagina no total comando da coreografia, Kroos quase o acerta. Por pouco.

Num movimento da esquerda para a direita, Xavi prepara a lança, Puyol a espeta fundo na carne do touro. Ferimento grave, quase mortal. E, finalmente, o toureiro tem o touro como queria.

Exausto, o touro não reage. Apenas se mexe, pois é o que lhe resta. O toureiro baila, se exibe, até se permite um exagero preciosista.

As cornetas africanas anunciam o fim do espetáculo. O toureiro espanhol agradece os aplausos. No domingo, ele se apresentará na “plaza” de Johannesburgo.

1 Comentário

  1. Marcos Cavalcanti
    13 de julho de 2010

    Caro André, não com a mesma destreza que vc na arte de tourear, mas apenas para colaborar com a Tourada de um ponto de vista diferente.

    OLÉ! OLÉ! DIZ O TOURO AO TOUREIRO

    O belo estádio de Moses Mabhida, em Durban, foi o cenário de uma das semi-finais da Copa do Mundo da Africa do Sul, disputada entre duas das grandes potências do futebol europeu e mundial, a Alemanha e a Espanha. Na arena, privilegiados 61 mil torcedores foram testemunhas oculares da tão badalada partida, entre os quais, se fez presente até mesmo o sangue azul de “La Reina Sofía de España”. Menos privilegiados, mas não menos reais, outros milhões de telespectadores súditos do bom futebol e espalhados pelos 5 continentes, também testemunharam a lição tão popular quanto óbvia, que com sapiência helênica vaticina: “Quem teme perder, já está vencido”. E para saber disso nem é preciso filosofar em alemão. Filosofia de beira de mesa de bar de qualquer país do mundo, também serve.
    Como acontece nas famosas arenas da Espanha, por vezes, de olé em olé, é o toureiro quem sai sangrando e acabrunhado do palco, onde o touro, para o espanto da multidão, resta furioso e ofegante, mas vitorioso. Como todos sabem, a melhor defesa é o ataque, e foi com essa filosofia que a seleção alemã encantou o mundo aplicando nas arenas da África, goleadas memoráveis em rivais do poderio de uma Argentina e de uma Inglaterra, mas os meninos de Joaquim, se apequenaram diante dos comandados de del Bosque, quando obedientes, passaram a rezar de joelhos na nova cartilha imposta pelo medroso Loew. As lições desta nova cartilha, forjaram uma Alemanha débil, vacilante e inofensiva, que no máximo conseguia erguer seu pano vermelho, desbotado, para atiçar a fúria do touro espanhol. O mortal florete alemão de quatro pontas? Ninguém sabe, ninguém viu!
    Com a estratégia equivocada quedou-se a Alemanha numa partida sonolenta, evitada, quando finalmente, aos 73 minutos do segundo tempo, foi ferida de morte pela chifrada certeira e impetuosa do mais valente, do mais aguerrido e obstinado jogador em campo. Puyol, “el toro” que empunhou a bandeira da vitória com a fúria de um touro ensandecido pelo desejo de continuar vivo na última arena do mundial. De um salto, voou por sobre os Adamastores alemães e cravou na história o gol que poderá levar-lhe à glória definitiva frente à Holanda, na grande final. Sem trocadilhos, o lance chave da partida saiu dos pés do meio-campista Xavi, que do córner, mandou a Jabulani na cabeça do ariete “rojo”. A bola, golpeada com força minotáurica, vazou o já amarelo goleiro alemão, que nada pode fazer. A Alemanha bem que tentou retomar as antigas lições e acordar do pesadelo revivido, mas já era tarde, o sonho das quatro estrelas foi ficando distante, distante, até que o apito soou e pôs um definitivo fim ao conto de fadas alemão.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante