Espelho, espelho meu!

14 de junho de 2010 às 22:00 - 3 Comentários
Por Cláudia Magalhães

www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

Estava nu diante do espelho. Olhou seus pés, as pernas finas, o tórax pouco definido, os braços longos, as mãos grandes e magras, o rosto delicado, quase feminino. Gostou do que viu, exceto os pelos insuportáveis que o deixavam nervoso, como se tivesse um grave defeito físico. Tinha dezoito anos e era virgem. Seu nome, Pedro, que significa pedra, contrastando com sua alma de cristal. Uma alma, com um brilho intenso, ofuscada pela imagem que sorria falsamente diante do espelho. Entrou no banheiro e depilou-se por inteiro. Lavou o corpo com água do chuveiro, e a alma, com água de chuva. Secou-se com cuidado e sentado diante do espelho, que ficava ao lado dos porstes de Oscar Wilde e Arthur Rimbaud, seus ídolos, colocou as meias finas que estavam sobre a cama, cobrindo o sangue que teimava em lhe escorrer pelas pernas. É preciso ferir-se para continuar vivo, pensou observando os pequenos cortes sobre a pele. Roçou as pernas uma na outra. Nunca experimentara nenhum prazer maior que aquele. Colocou a sandália prateada, de salto fino e, por último, o vestido vermelho de seda que lhe ia até a altura dos joelhos e que revelava seus ombros delicados. Em seguida, seguindo a geografia da alma, pintou o rosto. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Pedro não mais existia. Pegou a bolsa e atravessou a sala com cuidado para não acordar sua mãe. Quando já estava próxima a porta de saída, escutou um leve ranger na madeira da escada. Sentiu o sangue gelar e, devagar, olhou para trás. A sua mãe a observava, na penumbra, imóvel. Abriu a porta e saiu para o deserto do mundo com as pernas bambas, pisando no chão firme como quem pisa em areia fofa e quente. Com sede de vida, como um criminoso, um homicida.

Não conheceu o seu pai. A sua referência de família girava em torno da saia de sua mãe, D. Alma. Uma saia que escondia com sete anáguas uma lua cheia de desejos, com sede de Sol. O seu pai morreu de câncer quando ela estava grávida de sete meses, e com ele, a sua felicidade. Tornou-se uma mulher de poucas palavras, uma sombra da saudade, dividindo seu trabalho de bibliotecária com os pincéis. Seus quadros passaram a retratar pessoas tristes, melancólicas. A sua nova forma de ver o mundo. O que minha mãe está pensando nesse momento…, pensou ligando o som do carro. É certo que ela sabia que o filho tinha alma de mulher, mas, ela, nem ninguém, nunca o vira vestido como tal. Sempre o fazia trancado em seu quarto. Era filho único e o véu de noiva da sua mãe substituiu as bonecas que nunca tivera. Leve-me para sair hoje à noite, onde haja música e haja gente que seja jovem e viva…, a música de Morissey fez sua mente seguir viagem, suspensa na lua.

Sentou numa das mesas, na Praça das Flores, e pediu uma cerveja. Sentiu os olhares curiosos, zombeteiros, que desconhecem o valor da vida, penetrar-lhe a carne e atingir-lhe o coração. Risos nervosos, gargalhadas debochadas soltas ao vento. Nesse momento, envelheceu dez anos. Sabia que precisava enfrentar aquela situação, mas não resistiu. Com os cotovelos sobre a mesa, segurando a cabeça com as mãos, chorou desesperadamente, sem entender que aquela dor era, em parte, manipulada. Era o choro que alcançava o tamanho indefinido das poesias, das músicas, dos livros que povoavam sua cabeça cheia de sonhos adolescentes. Diferente de alguns que aconteceriam ao longo da sua vida, mas não muito, já que todo choro arrasta uma série de lástimas, que sob o julgamento dos olhares externos, e por isso, afortunados, seriam facilmente lançadas ao abismo. Sentiu saudade do seu quarto e dos inúmeros personagens imagináveis que o rondavam. Posso sentar?, perguntou um rapaz alto e magro, que surgiu a sua frente como um furacão, interrompendo os seus pensamentos. Acenou afirmativamente com a cabeça. Ele tinha cabelos pretos, curtos e desalinhados, e enormes olhos castanhos com olheiras escuras que encaravam destemidos os seus. Seu coração saltou do peito, feito um animal selvagem, colando-se ao céu da boca, e seu corpo ardeu em brasa, fazendo a tristeza evaporar-se por completo. Conversaram coisas incríveis. Era um paulista de vinte e dois anos, e estudava gastronomia. Estava em viagem de férias com os pais e aquela era sua última noite na cidade. Descobriram que gostavam das mesmas músicas, dos mesmos autores e eram apaixonados por cinema. Ele era uma pessoa excepcional e sua companhia a fez esquecer seu desprezo por grande parte da humanidade. Bem, já está amanhecendo… Eu preciso ir. Vamos viajar ao meio-dia e ainda precisamos nos despedir de alguns parentes. Além de descansar um pouco, é claro, ele falou com certa tristeza. Pediram a conta e seguiram em direção ao carro dela. Quer que te deixe em algum lugar?, perguntou na esperança que ele dissesse um sim. Obrigado, estou de carro, agradeceu. Com um lindo sorriso, aproximou-se e, segurando-a pela cintura, beijou-a com paixão. Ela sentiu a vida começar naquele instante e feito criança explorou o mundo novo pela boca. Com a língua livre no céu infindo da boca, mudando as estrelas de lugar, descobriu seus desejos mais secretos. Salivando mel, engoliu, naquele beijo, toda a doçura do mundo. Um encontro de alma para alma, tanto mata quanto faz nascer!, pensou observando ele desaparecer, lentamente, sob o céu vermelho.

No caminho de casa, lembrou da imagem da sua mãe no alto da escada. Olhou para o relógio. Eram cinco horas da manhã. Ela, com certeza, estaria acordada. O que dizer?, pensou abrindo a porta da sala com cuidado. Silêncio. Foi até o quarto dela e, estranhamente, encontrou-a adormecida com as mãos sujas de tinta. Melhor assim. Descansaria um pouco e enfrentaria esse problema com calma, sem hipocrisia, nem mentiras. Seguiu em direção a seu quarto e viu pendurado, no lugar do espelho, um quadro. Era seu retrato. Estava linda com o vestido vermelho. No lugar do rosto assustado, da noite anterior, um rosto sereno e feliz. Ao lado, um bilhete: Para minha linda menina, Cristal! Ass.: Alma. Ficou parada, imóvel, tomada por grande emoção. Lembrou com carinho da mãe, uma mulher silenciosa, sempre vestida de preto, com o seu eterno avental branco sujo de tinta, e um cheiro suave de manga doce invadiu o quarto. Cristal, que lindo nome!, pensou sorrindo feliz diante do quadro que, agora, refletia sua imagem como um espelho.

3 Comentários

  1. 14 de junho de 2010

    Claudinha sempre arrazando nos textos, um texto de encher a alma e lembrar que o amor verdadeiro é o do nosso bem maior .. nossa mãe! Que nos aceita da forma qe somos!
    Parabéns mais uma vez pelo belo trabalho !
    “É preciso ferir-se para continuar vivo.”

    Beijos amiga !

  2. 17 de junho de 2010

    Rodrigo, querido, que delícia te ver por aqui!
    É nesses encontros que engolimos toda a doçura do mundo! Obrigada pelo carinho, meu rei. Saudades…
    Beijos, amigo!

  3. Jeremy
    28 de abril de 2011

    Lindo texto, carregado de emoção e simbolismo. Parabéns, Cláudia !

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante