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Esperando seu Lunga no TCP

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Duas irmãs octogenárias subiram no palco para interpretar uma montagem de Esperando Godot, de Samuel Beckett. As duas atrizes amadoras, imbiocaram no palco do TCP em Natal/RN, como uma estratégia de vida. Um espetáculo montado e dirigido por uma pessoa que interpreta dois papéis, perante as atrizes: filha e sobrinha. Uma peça adaptada para condições locais e vocabulários regionais. Pode-se dizer dizer então, que elas não aguardavam a chegada de Godot, mas que aguardavam a chegada de seu Lunga, devido a arengas e disputas entre uma e outra. Quase chegavam a uma irritabilidade apoquentada, interpretada no palco.

E para começar não tinham as botas que uma delas pudesse fazer caras e bocas, sacrifícios para retirá-las . Estavam com os pés descalços, interpretavam pessoas pobres e moradoras de ruas, em um país tropical, com seus trapos e mulambos. Cabelos de fua e roupas feitas com sacos e sacas. Enfeites a partir de fitas e descartáveis. Até julgavam no inicio, ao se encontrarem, que a outra já poderia ter batido a caçuleta, enquanto cascaviavam seus trapos, de uma trouxa mulambenta. E deu-se início a apresentação de um mundo de imaginários, a partir do que viam e viviam, no presente ou no passado.

Terminada a apresentação da peça, um filme P&B e mudo, do mesmo autor da peça, uma situação rara. E a oportunidade de ao fim do filme, participar de um debate, com a plateia, com a presença de uma teatróloga, e um representante do cineclube. E mais a fotógrafa oficial do evento, e um jovem de origens árabes. Na plateia, parentes e amigos, dos que estavam no palco e nos bastidores.

E chegamos a definição do teatro do absurdo. O esperar Godot, não mais como uma peça, mas como uma modalidade teatral como disse a teatróloga. Os absurdos representados no palco e presentes na vida. Na plateia ou no teatro. A eterna dúvida se a vida imita a arte ou a arte imita a vida.

A chegada de Godot como algo absurdo ou inatingível, de alguém ou uma situação que não chegará nunca. Como a crença de um povo, com futuro melhor, proporcionado por seus governantes. E enquanto elas aguardam a chegada de Godot, o público e os artistas aguardam a reforma no teatro. Uma reforma que proporcione uma acessibilidade, o conforto e principalmente a segurança. Com rampas menos inclinadas, para acesso de cadeirantes, cadeiras para obesos. E uma porta de emergência que não gere maiores transtornos, se precisar ser utilizada.

Que Godot chegue enquanto Maria preá ainda não está morta.

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