“Esquina do Continente”: 30 anos

Thiago Gonzaga
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Foto/Destaque: Canindé Soares

Nos anos 80, Natal viveu um surto de desenvolvimento urbano, que se aceleraria na década seguinte. O crescimento vertical, que já se fazia notar nos chamados bairros nobres, era contrabalançado pela proliferação de conjuntos habitacionais nas áreas periféricas. E, com a construção de arranha-céus, em número cada vez maior, Natal ia se tornando uma “selva de pedra”. Essa transformação foi notada pela poeta Zila Mamede, no poema “Rua Trairi” em que o título faz alusão à rua onde ela morou, certo tempo, localizada no bairro Tirol. A poeta anunciava a chegada da urbanização.

Na cena nacional, em meio a graves turbulências econômicas (inflação disparada etc.) e institucionais, a ditadura militar, abrandada pela distensão “lenta, gradual e segura”, agonizava. Em 1979, extinguira-se o famigerado AI 5. O Brasil ansiava pela volta ao regime democrático, que, no entanto, só chegaria em 1985 com a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da República.

Ainda nesse período, a poesia potiguar começou a refletir com mais nitidez demandas de transformações sociais que aconteciam no Brasil e no mundo, demonstrando definitivamente que a nossa literatura estava antenada com o que acontecia no restante do país. Veja-se, por exemplo, a poesia feminina de caráter militante que surgiu aqui com Socorro Trindad, Diva Cunha e Marize Castro.

Em meio a esses eventos é que em meados da década, o cantor Pedro Mendes, nascido em Parnamirim, e um dos principais destaques da música do Rio Grande do Norte, lança um dos mais bem sucedidos discos da nossa MPB, “Esquina do Continente”, que dentre tantas canções de qualidade, contém a clássica “Linda Baby”, conhecida por anos como hino não-oficial de Natal, e recentemente registrada como Patrimônio Imaterial da Cidade do Natal pela Câmara Municipal.

A música, que foi originalmente composta em 1981, contribuiu para que o LP “Esquina do Continente”, projetasse Pedro Mendes no mercado nacional. O disco teve co-produção de Heraldo Palmeira e participações de muitos músicos talentosos como :,Roberto Tawfic, J. Franklin, Di Brito, Bauru e um jovem flautista que na época estava iniciando sua carreira, Carlos Freitas, hoje Carlinhos Zens.

A gravação do disco aconteceu em um estúdio de Recife, com participação de músicos de Natal e Rio de Janeiro, e a prensagem foi realizada na gravadora Continental, em São Paulo. O primeiro LP da carreira levou Pedro Mendes a percorrer todo o país divulgando a sua arte.

Não temos dúvidas que esse foi um dos melhores discos já lançados no Rio Grande do Norte. Tudo nele é harmonioso: músicos, composições, arranjos; quase todas as canções fizeram sucesso nas rádios do Estado. Pedrinho estava em grande fase. Faixas como “Raça”, que numa parte brada uma inteligente figura de linguagem “o calor da cor”, ótima sinestesia; “Brilho de Uganda”, arte engajada, militando pelos afrodescendentes; “Alegres Meninos”, para quem gosta de carnaval, um must. “Esquina do Continente” também trazia poesia em seus versos: ”O sol tá praqui como a lua nasceu prá são Jorge/O céu vai se abrir quando o azul descobrir o avião”. E todas essas canções tornaram-se populares, inclusive, muitas foram regravadas por outros artistas com o passar dos anos.

O disco “Esquina do Continente” que completa, em 2017, 30 anos, marcou época em nossa música popular e merece todos os elogios.

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Thiago Gonzaga

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