Eternamente Praieira; eternamente Othoniel

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Não morre aquele que deixou na terra
a melodia de seu cântico na música de seus versos.
Cora Coralina in Meu Epitáfio

De la musique avant toute chose, a música antes de qualquer coisa – com este verso definitivo, Paul Verlaine abriu o famoso poema Art Poétique, em 1885, considerado um verdadeiro manifesto da poesia simbolista. O poeta francês ressaltou a importância da musicalidade nesse gênero textual, pois o desejo do bardo era um verso fluido, ritmado, como se dissolvesse no ar.

Existem poemas cuja musicalidade está de tal forma entranhada nos versos que parece tarefa impossível dissociá-los de uma bela composição musical. Com esse joint venture, a música e a poesia formam um casamento perfeito.

Vários grandes poetas, mesmo sem a mínima intenção de se tornarem parceiros musicais, tiveram suas obras transformadas em música por compositores e cantores renomados.

Assim foi com Carlos Drummond de Andrade, Florbela Espanca, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, dentre tantos outros.

O cantor e compositor Fagner foi um dos que mais recorreram a poemas para compor grandes sucessos como: “Motivo” e “Canteiros” de Cecília Meireles, “Traduzir-se” de Ferreira Gullar, “Sina” e “Vaca Estrela e Boi Fubá” do “Patativa do Assaré”, “Qualquer Música” de Fernando Pessoa, “Fanatismo”, “Tortura”, “Frieza”, “Chama Quente” e “Fumo”, de Florbela Espanca, e até uns versos de Câmara Cascudo, -‘Maria Luíza’-, constantes do CD “Fortaleza” (2009).

“Morte e Vida Severina” – longo Auto de Natal do pernambucano João Cabral de Melo Neto, publicado em 1956, ganhou música de Chico Buarque de Holanda, para o espetáculo teatral de 1966.

Paulo Diniz gravou “E agora, José?” de Drummond. O poeta carioca Antonio Cicero teve inúmeros dos seus poemas musicados pela sua irmã Marina Lima.

A banda de rock paulista Titãs, musicou o poema “Go Back” de Torquato Neto, que inclusive teve vários dos seus poemas musicados por Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Vinicius de Morais, em parceria com João Ricardo, transformou em canção o seu poema “Rosa de Hiroshima”, sucesso na interpretação do conjunto Secos & Molhados. Além deste, o “poetinha” teve numerosos outros poemas musicados por compositores como Tom Jobim e Toquinho.

Poderíamos encher várias paginas com a simples enumeração de poesias em feitio de música. Certos versos tornaram-se como que emblemáticos, tanta é a melodia, tanto o ritmo que contêm em si mesmos. Quem não conhece, pelo menos , o primeiro quarteto do famoso soneto de Olavo Bilac:

“Ora (direis) ouvir estrelas ! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

Deste poema o cantor e compositor Belchior faz uma citação direta em sua canção “Divina Comédia Humana”. Belchior em suas canções fez inúmeras alusões a poetas, como Edgar Allan Poe, García Lorca e Fernando Pessoa. Belchior, inclusive, caprichou com Carlos Drummond de Andrade; o compositor cearense colocou música em 31 poemas do escritor mineiro.

São pequenas obras-primas que marcam… marcam tanto que ficam no senso comum, transcendendo o meio artístico e intelectual, e atingindo até as camadas mais populares. Poemas conhecidos mundialmente como “Canção de Mim Mesmo” de Walt Whitman, “Tabacaria” de Fernando Pessoa, “O Corvo” de Edgar Allan Poe, “Quatro Quartetos” de T.S. Eliot, “O Analfabeto Politico” de Berthold Brecht e centenas de outros.

Leide Câmara com seu mais novo rebento. Foto: Hudson Helder

Leide Câmara com seu mais novo rebento.
Foto: Hudson Helder

No Brasil, vários dos poemas de Drummond caíram no gosto popular, desde o seu primeiro livro, Alguma Poesia (1930). Com peças como “Poema de sete faces”, “Infância”, “O sobrevivente”, entre tantos outros versos, este livro demonstrou de imediato a enorme maturidade do jovem Drummond, ainda estabelecido em Belo Horizonte. Dois anos antes, Drummond havia causado escândalo entre as hostes literárias ao publicar, na Revista de Antropofagia, o poema “No meio do caminho”.

No Rio Grande do Norte, a história não é muito diferente. A pesquisadora Leide Câmara, atenta à força da poesia de Othoniel Menezes (poeta que dispensa qualquer tipo de apresentação), bem como o cancioneiro potiguar, publicou recentemente o livro Praieira – A Canção da Cidade do Natal, 93 anos. A obra reúne vasto material sobre famoso poema de Othoniel, publicado originalmente no livro Jardim Tropical (1923) e posteriormente musicado pelo maestro Eduardo Medeiros. Qual o potiguar que não conhece estes versos:

“Praieira dos meus amores,
encanto do meu olhar!
quero contar-te os rigores
sofridos, a pensar
em ti, sobre o alto mar…”

Composição aclamada durante décadas, tanto assim que a edilidade natalense, numa decisão sensata e nobre considerou-a Canção Tradicional da Cidade. “Praieira”, cujo título original é “Serenata do Pescador”, virou uma espécie de hino, a partir do início dos anos 70.

O mestre Câmara Cascudo, por sinal, elogiou o ato da edilidade, inclusive afirmando que “o poema de Othoniel Menezes, que tão alto eleva e dignifica a emoção dos trabalhadores do mar, é merecedor da homenagem que a nossa Câmara Municipal, em boa hora, pretende tributar-lhe.”

Última foto de Othoniel Menezes, em 1968. Por Laélio Ferreira

Última foto de Othoniel Menezes, em 1968. Por Laélio Ferreira

Escritor polivalente, Othoniel Meneses é coautor de várias outras modinhas. Na obra em foco, Leide Câmara faz um registro discográfico do famoso poema-canção desde sua primeira gravação em meados dos anos 50, com regravações até os dias atuais e dezenas de interpretações de um dos mais famosos, quiçá o mais famoso poema potiguar de todos os tempos.

A obra também contém uma minibiografia de Othoniel Menezes e do compositor e maestro nascido na cidade de Touros, Eduardo Medeiros, que musicou inclusive mais de 60 poemas, segundo a pesquisadora. Entre os que gravaram “Praieira”, estão, por exemplo, Paulo Tito, Fernando Luiz, Marina Elali, Glorinha Oliveira, Terezinha de Jesus, Babal…

Inúmeros outros poemas de autores norte-rio-grandenses ganharam roupagem musical entre os quais alguns da lavra de Diógenes da Cunha Lima, que teve seu livro de poemas “Natal, Poemas e Canções”, praticamente todo musicado, e Lívio Oliveira, que fez um Cd em parceria com Babal, exemplos estes mais evidentes em fase recente da poesia potiguar. Dos mais antigos relembramos “Súplica”, de Ivo Filho, e “Ao Luar”, de Auta de Souza, musicados, respectivamente, por Olímpio Batista Filho e Heronides França, dois modinheiros famosos. Nenhum, todavia, alcançou a notoriedade da “Serenata do Pescador”.

Como está visto, poesia e música dão em casamento perfeito. Que o diga Bob Dylan.

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