Eu me lembro de você

Demétrio Diniz
DestaqueLiteratura

Para a amiga Alessandra Régia

Eu me lembro de você, mas você não se lembra de mim, ele disse. Sebastião Nunes devia andar pela casa dos setenta e cinco e estava muito depauperado. Na academia de pilates era o aluno engraçado, divertindo velhas senhoras cujos quadris enrijecidos e esquecidos de prazer há muito se haviam crispado. Com algum esforço me recordei ter sido seu contemporâneo na Casa do Estudante, quando ele ainda muito jovem e diferente da grande maioria, cuidava em alcançar sucesso profissional. Na academia de pilates me disse ser dono de um edifício de vinte e cinco andares, por coincidência o mesmo que por trás do meu apartamento foi levantado recentemente. Liguei o seu nome ao da placa afixada no local da construção.

Poucos dias depois soube que os doze cachorros de Sebastião choraram a noite toda e não deixaram dormir os moradores dos quarteirões vizinhos. Mesmo tendo o seu dono morrido no hospital e de lá o corpo levado para a funerária, os cães, por motivos inexplicáveis, souberam do seu falecimento e arcaram com a dor. Sentiram mais os dois pastores-brancos-suíços, que alegremente o despertavam no quarto pela manhã. Sebastião entrara em depressão profunda, não se alimentava, não tratou mais dos rins, recusou a hemodiálise, os remédios, abandonou a leitura — seu melhor hobby, e por fim sucumbiu a uma pneumonia oportunista.

O que o teria levado à lona, ao fundo do poço? A grande solidão da velhice, como costuma acontecer, naturalmente deve tê-lo vergado. A filha única, morando distante, se comunicava com ele por mensagens curtas no whats app sem o uso da voz, apenas digitadas, e uma vez por mês para cobrar a mesada. Nessa precariedade de afetos a última mensagem dela foi a gota d’água. Sebastião não esperava, embora a pressentisse: Não vou doar meu rim pra ninguém!

Entre o rapaz desejoso de sucesso, nervoso a enrolar sempre as mãos enquanto falava, magro e rosto espinhento — acho que à época ele trabalhava em banco —, e o outro que encontrei velho, decaído, fazendo rir na academia, há um terceiro, que surpreendentemente vi no obituário. Um homem de meia-idade, elegante, bonito, cabelos bem penteados, me fazendo à primeira vista recordar a beleza máscula de Tyrone Power.

Imagino que as lembranças de Sebastião serão muito em breve engolidas pelo tempo. Infelizmente é inviável um museu para cada pessoa, todos vão desaparecendo no que Bowing, personagem de Modiano*, chamava o anonimato da grande cidade. Esquecimento que ele, Bowing, tentava evitar anotando num caderno de capa vermelha e plastificada, de 190 páginas, o nome e o endereço das pessoas que passavam pela sua vida.

O prédio de 25 andares aos poucos vai sendo ocupado, vejo pela quantidade de apartamentos iluminados. De cimento e ferro, subsistirá por alguns anos, mas certamente sem notícia do seu primeiro dono, tal um monólito que ninguém sabe de sua procedência. Sem noticia também de que naquele local, antes da sua construção, foi por décadas uma casa de baile, onde às oito da noite em ponto ouviam-se os primeiros sons da orquestra, a animar até de madrugada gente que ia ali dançar, arriscar um romance, ou tão somente livrar-se das chateações do cotidiano.

*Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida.

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Demétrio Diniz

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