Eu não tenho onde morar

10 de março de 2010 às 11:32 - Comentar

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Sou quase um sem teto. Vendi a casa onde moro há vinte e nove anos e estou à procura de um apartamento. Nunca pensei que aos 58 anos, depois de uma vida inteira pisando o chão, me treparia e encaixotaria num edifício. Morar em casa tornou-se impossível no Recife. Os bairros cresceram de forma desordenada, tornaram-se violentos, e os prédios de apartamentos acenam com uma aparente segurança.

Ninguém acreditaria que até alguns anos atrás meus filhos brincavam de bicicleta na rua e que nas festas de aniversário eu contratava charretes e cavalos pra garotada passear. No bairro, tínhamos a maior cobertura verde da cidade e a sensação de morar no campo. O crescimento urbano nos roubou esse pulmão verde. Cercamos de muro os sítios em torno das casas e, de tempos em tempos, passamos a subir os muros, criando verdadeiras fortalezas, que também davam a falsa sensação de segurança.

Sempre cuidei de cada pequeno detalhe de minha casa e chorei feito um bezerro desmamado quando me desfiz dela. Não terei como transportar comigo dois paus-brasil, uma mangueira, uma goiabeira, três palmeiras, duas árvores de grande porte típicas da mata atlântica, e dezenas de plantas do meu ex-jardim, cultivado com extremo zelo. E os sabiás, os bentevis e as ararinhas que vivem por cá? Quem vai prestar atenção neles?

Temo que o novo proprietário não goste dos assoalhos de ipê dos quartos e escritório, da azulejaria dos banheiros, do piso veneziano das salas, tudo bem conservado, mantido fiel a um tempo e estilo arquitetônico. E se ele cismar de substituir as belíssimas portas e janelas de legítima sucupira, uma madeira quase extinta, por esquadrias de alumínio? Será que ele terá sensibilidade para apreciar as vigas da cobertura, os caimentos dos telhados? Talvez não. Certamente porá tudo abaixo.

Nos quarenta anos em que moro no Recife, vi a cidade perder o seu patrimônio arquitetônico civil, considerando de valor para tombamento apenas o que é barroco, uma leitura medíocre do que seja patrimônio. Até a década de 1950, Recife era uma cidade soberbamente bela e decadente. A decadência se agravou com o crescimento desordenado, a falta de educação da população e de quem ocupa o poder, a desigualdade social, a miséria e a violência.

Andar pelas ruas do Recife representava uma aula de história e de arquitetura. Hoje, é a mais pura tristeza. Quase nada sobrou do que Manuel Bandeira evocava no seu poema. As casas foram abandonadas, derrubadas para a construção de prédios, transformadas em comércio, disfarçadas ou adulteradas por placas gigantes, fachadas de cerâmica, folhas de zinco, tudo muito feio e agressivo, o oposto dos traços do colonial e barroco, do clássico, neoclássico, eclético e art déco. É como se todos tivessem perdido o amor pela cidade e não se importassem com feição triste e feia que ela pudesse assumir.

Sinto-me como se tivesse capitulado e fosse mais um retirante. Para não sei que cidade de não sei que país.

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura