Artes VisuaisMais

Eu sou rock, bebê!

ROCK1

Os filmes de Woody Allen mostraram que satirizar a si próprio, aprendendo a rir com nossas inseguranças, paranoias e frustrações, pode ser algo super bacana, se bem executado.

O diretor, roteirista e ator francês Guillaume Canet foi um pouco além, e não apenas brincou com os atores de sua geração e a pressão para permanecerem eternamente jovens, como também fez quase um mockumentário sobre os bastidores do cinema em Rock´n Roll – Por trás da fama (2017), um dos longas presentes na programação do 8º Festival Varilux de Cinema Francês.

Canet e sua esposa, Marion Cotillard, interpretam a si mesmos em dois momentos da vida profissional: enquanto ela é convidada para participar de produções estrangeiras, estudando arduamente com o objetivo de trazer veracidade aos seus personagens, ele é escalado por um amigo para fazer o papel do pai de uma jovem mãe solteira. Rock´nRoll

Ao ser entrevistado para promover o dito filme, Canet cisma com os comentários da repórter e de sua colega Camille Rowe, sobre ele estar ficando velho e não ser mais assim tão “rock”.

A partir daí, mergulha de cabeça na “crise dos quarenta” e não mede esforços para provar a si e aos outros o quão jovem e descolado ele é, rendendo cenas impagáveis (algumas beirando, propositalmente, o pastelão), com direito a uma participação especial do cantor Johnny Hallyday.

As atuações de Canet e Cotillard são esplêndidas, e eles estão muito à vontade em parodiar a imagem e os rótulos criados pela imprensa (Cotillard, a perfeccionista, treinando dia e noite para falar o francês quebequense é de matar de rir, bem como sua imitação de Céline Dion, numa sequência de sonho de Canet), revelando um timing cômico impensável para a carreira de ambos, focada em dramas, romances e thrillers.

O ápice da película é a deformação de rosto e corpo vivenciada por Canet, fruto de aplicações de botox, exercícios exagerados e anabolizantes (destaque para a maquiagem e os efeitos especiais, os quais deixam o ator praticamente irreconhecível), que acaba lhe rendendo o convite para protagonizar um seriado norte-americano, deixando o terceiro ato voltado à alfinetadas em Hollywood e no “boom” dos seriados retrô.

Rock´n Roll – Por trás da fama não se deixa intimidar pelo caricato e parodia de maneira descarada os bastidores de uma produção, com atores, diretores e agentes em perfeitos pastiches de seus cotidianos (Philippe Lefebvre, inclusive, escreveu o roteiro junto com Canet), como se fosse uma versão debochada de A Noite Americana, substituindo a sensibilidade de Truffaut pela ousadia alucinada de Mel Brooks.

Share:
Milena Azevedo

Comentários

Leave a reply