“Eu sou um mito”, afirma Cohn-Bendit

25 de agosto de 2010 às 9:36 - Comentar

Líder do Maio de 68 diz ser refém daquela época e fala da necessidade de refletir sobre os “erros da revolução”

Hoje no Partido Verde, ativista alemão, que fez palestra em Porto Alegre, ataca política ambiental do Brasil

MARCOS FLAMÍNIO PERES
ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE
FSP

“Objetivamente, eu sou um mito, mesmo que tente me libertar dessa imagem.” Eternizado na foto que o mostra, irônico, desafiando um policial durante os protestos de Maio de 68 em Paris, Daniel Cohn-Bendit é vítima de seu próprio sucesso.

Mas, aos 65 anos, o hoje deputado pelo Partido Verde no Parlamento Europeu rebate, em entrevista à Folha, a acusação de haver “se instalado no sistema”.

Cohn-Bendit, que falou na segunda no ciclo Fronteiras do Pensamento, diz que é preciso fazer refletir sobre os “erros da revolução”.

O alemão, que em 1983 viajou pelo Brasil e assistiu ao Corinthians, elogia a seleção alemã de futebol como multicultural, diz que a proibição das burcas na França é uma questão menor e ataca Mahmoud Ahmadinejad -”irracional e totalitário”.

Cohn-Bendit, que se encontra hoje com a candidata Marina Silva (PV), critica Lula por não dar importância à questão ecológica.

Folha – Qual a diferença entre ser jovem hoje e nos anos 60?

Daniel Cohn-Bendit – Hoje é muito mais difícil. Em 68, todas as utopias -as mais justas, as mais tolas- estavam à nossa disposição. Hoje, elas não querem dizer mais nada, e as crises -econômica e ecológica- são mais profundas, o que torna mais difícil para o jovem encontrar seu lugar.

Em 2008, a “Nouvel Observateur” o acusou de haver “se instalado” no sistema…

Em 68, queria a transformação da sociedade por processo revolucionário, mas isso só é possível dentro das instituições democráticas.

Por que Maio de 68 parece ser uma herança maldita na França, criticada tanto à esquerda quanto à direita?

Ele foi uma resposta à sociedade dos anos 60 e hoje enfrentamos outros problemas. Não é culpa de Maio de 68 se os jovens são indisciplinados ou se há distúrbios nas periferias das grandes cidades. Maio de 68 se tornou hoje um mito e todo mundo tenta instrumentalizá-lo.

O sr. se vê como um mito?

Sim, em toda parte os jovens falam comigo a partir da imagem que têm de 68.

E como seu filho o trata?

Bem, ele é malandro: “Mas em 68 você fazia o que queria. Por que agora não quer que eu faça tal coisa?”

Aprova a proibição da burca na França?

Essa é uma questão inútil, que afeta pouquíssima gente. O que há, sim, é um problema com o integrismo islâmico, não com o islã em si.

O Reino Unido, com sua política multiculturalista, lida melhor do que a França com a questão da diferença?

Lá é o lugar que mais produz terrorismo, o que prova que o comunitarismo não tornou a sociedade britânica mais unida ou pacificada.

Porque a esquerda parece ser hoje um fenômeno americano e não europeu?

Na Europa, está ligado ao fracasso dos sociais-democratas em regular o capitalismo. Na América Latina, acho que tem a ver com os efeitos da ditadura. Mas Lula representa uma esquerda de 30 anos atrás, que defendia o produtivismo a todo custo. O Brasil pode pagar muito caro por isso, pois está fracassando em sua virada ecológica.

O jornalista MARCOS FLAMÍNIO PERES viajou a convite do ciclo Fronteiras do Pensamento.

“É preciso esquecer Maio de 68″, afirma ativista durante palestra

DO ENVIADO A PORTO ALEGRE

Quando Daniel Cohn-Bendit sobe ao palco e desanda a falar e gesticular, é fácil entender o papel que ele deve ter exercido nas revoltas estudantis do longínquo 1968, tanto nas ruas quanto no campus da Universidade de Nanterre.

A retórica inflamada, os braços incansáveis para cima e para baixo, a cabeleira (sim, ele ainda a tem!) entre o loiro e o ruivo e o rosto sempre transtornado fazem de qualquer lugar-comum um ovo de Colombo.

“Esqueçam 68!”, brada logo no início. Está bem, mas, se apagássemos essa parte de sua biografia, ele certamente não estaria ali na nossa frente, falando a quase mil pessoas reunidas no auditório da Universidade Federal do Rio Grande Sul.

Cohn-Bendit faz um apanhado das utopias que fracassaram na história -Revolução Francesa, comunismo, fascismo, Revolução Cubana. Nada mais justo e de bom senso do que defender essa ideia, pois todas resultaram em barbárie, lembra.

A democracia burguesa, afirma, é a única alternativa possível, pois ela constitui a base das sociedades abertas.

China, Irã, Rússia e a Venezuela de Chávez não são sociedades abertas porque não têm a liberdade como fundamento. “Eu era um anarquista libertário e demorei para entender que as mudanças só ocorrem se houver estruturas democráticas.”

Para ele, só restam duas utopias possíveis: primeiro, a União Europeia, que é um sonho de integração política e cultural. O banimento do uso de burcas e a deportação de ciganos na França, a proibição de minaretes na Suíça ou o fenômeno Berlusconi são apenas retrocessos temporários e normais, crava.

A outra utopia de Dani, o ex-vermelho, é a verde. É preciso mudar modos de produção e estilos de vida para não esgotar o planeta.

Mas, quando nos damos conta de que o ícone de uma geração fala ali sozinho no alto do palco só tendo à frente o logo da petroquímica que o trouxe -e a vários outros nomes de inegável prestígio intelectual-, somos obrigados a concordar com ele: talvez seja melhor esquecer Maio de 68. (MFP)

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    NAN GOLDIN
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    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente