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Eu tenho medo de sorrisos amarelos

Maria Fabrizio for NPR

Estamos vivendo o Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicí­dio. Quantos sorrisos amarelos eu posso antever quando me proponho a falar sobre esse assunto?

Encare o problema de frente

Quando eu era criança, minha cor preferida era o amarelo. Gostava das roupas, dos dias, e meus papeis de carta nessa tonalidade eram os mais preciosos.

Assim prossegui até a adolescência, quando conheci as sutilezas do verde e, mais adiante, a imensidão do vermelho. Depois, vieram o alaranjado, o roxo e o azul, em todas as suas nuances.

E, mesmo com todo o arco-í­ris a meu dispor, o amarelo sempre voltou. Seja nas paredes das casas em que morei, na roupa que me vestiu durante a gravidez, no uniforme dos lugares onde trabalhei.

Talvez por isso eu me identifique muito mais com a Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque do que com a Vermelha, feroz e destemida, atrevida e sagaz.

Iara_Sorriso amarelo_Suicidio

“[…] o sorriso amarelo deixa um rastro de desconforto por onde passa”.

Escondido atrás de carapuças luminosas

Sempre fui Chapeuzinho Amarelo, amarelada de medo. E um dos medos mais complexos que me ronda é o medo que tenho de sorrisos amarelos.

Sejam eles meus ou de outros, o sorriso amarelo é uma das máscaras mais fáceis de se encontrar à  venda no mercado.

Está no cotidiano das massas, entre pais e filhos, casais, amigos, todas as gentes contidas por trás de um sorriso amarelo. Amarelo de medo? De vergonha? Por causa da mentira que o impressiona? Amarelo de lírio? De sol? De luz?

Amarelo de inútil. Os sorrisos amarelos podem ser tão inúteis…

Por mais que se tente esconder-se por trás de carapuças luminosas, camuflando sua individualidade falha ou sombria, vazia ou dolorida, de nada adianta, pois o sorriso amarelo deixa um rastro de desconforto por onde passa, seja em quem o sorriu, ou naquele alvejado por essa incômoda maneira de ser ninguém.

Setembro amarelo

Estamos vivendo o Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicí­dio.

Quantos sorrisos amarelos eu posso antever quando me proponho a falar sobre esse assunto? Quantos olhares de soslaio posso adivinhar quando desejo fazer vir à tona um tema comumente silenciado entre pessoas tão sorridentes, circunscritas alegremente nos terrenos baldios do planeta Terra? Seriam sorrisos amarelos de medo? De ultraje? De dor?

Não sei. Mas que venham amarelos os sorrisos, ou, se preferirem, não sorriam: falem; ouçam.

Suicide prevention

“Acrescente seu fio de luz junto aos mais frágeis fios de vida e se entusiasme em formar uma teia de esperança, forte, feroz, lí­rica, capaz de resistir aos ventos mais loucos […]”.

Falar sobre suicídio não motivará o autoextermínio de ninguém. Ouvir acerca deste tema não aumentará o número dessas mortes tão precoces. Antes, o contrário: falar e ouvir são dois mecanismos poderosíssimos na luta contra o suicí­dio.

Sim, SUIC͍DIO. É uma palavra forte de se escrever, ler, escutar, proclamar, viver… Uma palavra que precisa ser dita, para ser refletida e, quem sabe, evitada.

Fale mais, ouça mais. Com sorriso amarelo no rosto ou com simples olhar compadecido, disponha-se a ajudar o Outro.

O Outro que está ali, amarelado de medo, de dor, sem sonhos nem sorte, (des)equilibrando-se num último fio amarelo de vida que lhe segura entre os vivos, fio muito tênue e pouquí­ssimo lúcido, correndo o risco de ser cortado a qualquer momento.

Desconstrua os sorrisos amarelos e encare o problema de frente.

Acrescente seu fio de luz junto aos mais frágeis fios de vida e se entusiasme em formar uma teia de esperança, forte, feroz, lí­rica, capaz de resistir aos ventos mais loucos e a esse tempo em que vivemos, tão confuso e cruel, mas também tão possível de ser vivido com fé e perseverança, solidariedade e amor.

Esqueça o sorriso amarelo, viva o Setembro Amarelo, amarelo de Vida, amarelo de Amor.

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Iara Carvalho

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