EUA no Iraque

20 de agosto de 2010 às 16:29 - 1 Comentário

Sete anos e cinco meses de decisões catastróficas

El País/UOL
F. Peregil / J. M. Muñoz

Em Madri (Espanha)

Assim que entraram em Bagdá, os fuzileiros navais amarraram a ponta de uma corda à estátua de Saddam Hussein na Praça do Paraíso e a outra extremidade a um tanque. Esse fato tão simples quanto simbólico foi um dos primeiros na série de decisões que causaram efeitos catastróficos no Iraque a partir daquele 9 de abril de 2003.

Um soldado americano não pensou em outra coisa senão em cobrir a face da estátua com a bandeira americana. Aquilo não agradou na praça. Em uma cidade de 5 milhões de habitantes, só havia uns cem residentes na praça. Estavam felizes, iam dar pontapés e cuspir na imagem do ditador, mas nem a eles agradou esse alarde de patriotismo americano. Pouco depois outro soldado retirou a bandeira.

“É muito bom que Saddam tenha partido. Agora, que partam os americanos”, comentavam muitos moradores da capital iraquiana. Os fuzileiros demoraram meia hora para derrubar a estátua e sete anos e cinco meses para abandonar o país. Os erros, muitos e variados, se sucederam nesse período.

Para começar, permitiram que o caos tomasse conta de Bagdá. Durante três dias os palácios de Saddam foram saqueados. Os carros de luxo, as poltronas, as camas, abajures, talheres… tudo passou diante do olhar indulgente dos soldados americanos, que talvez dessa forma pretendessem conquistar o apreço da população. Mas ao saque dos palácios seguiram-se os dos postos de gasolina, das grandes lojas, do Teatro Nacional, dos hospitais, das universidades e do Museu Arqueológico, que abrigava peças de mais de 3.000 anos de antiguidade…

No entanto, o Ministério da Energia, onde era guardado tudo o que se relacionasse às jazidas de petróleo, encontrava-se bem protegido desde o primeiro momento pelos fuzileiros navais.

De repente o Estado desapareceu. Foi também dissolvido o grande partido do regime, o Baath. Precisamente o atual primeiro-ministro, Nuri al Maliki, passou a dirigir o comitê de “desbaathificação”. A Guarda Republicana, as forças de elite de Saddam, foi desarticulada. As ruas ficaram nas mãos dos mais violentos. As pessoas procuravam o tenente-coronel Jim Chartier para lhe pedir ordem e tudo o que isso implica: alimentos, eletricidade, telefone, água, segurança. O tenente-coronel dizia que em alguns dias tudo voltaria à normalidade.

Missão impossível, uma vez que o Estado estava desmantelado. Sobretudo porque muitas medidas aprovadas por Paul Bremer, encarregado da Autoridade Provisória da Coalizão – uma espécie de governo de transição antes da transmissão formal, embora limitada, da soberania para um Executivo iraquiano em junho de 2004 -, revelaram-se quase delirantes. Aprovar uma lei para a proteção de desenhos de microchips não parecia uma prioridade para os iraquianos.

Em 1º de maio de 2003, o presidente George W. Bush declarou o fim das operações militares. Mas elas continuaram por vários anos. E o pior ainda estava por vir. Em 14 de dezembro, pouco depois do meio-dia, começaram a se ouvir tiros para o ar em Bagdá. Três horas depois era anunciada a captura na véspera de Saddam Hussein. A enorme alegria demonstrada por xiitas e curdos se chocava com a tristeza de muitos iraquianos, pelo menos na capital do país e nas áreas de população sunita, no centro do Iraque.

Saddam tinha sido detido no dia 13 em um casebre a poucos quilômetros ao sul de Tikrit, sua cidade natal. Um exemplar do romance “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoievski, estava sobre um catre no covil em que ele dormia. Quando o ditador escutava o ruído de veículos militares ou recebia o aviso de seus protetores, escondia-se em um buraco sob a terra de 1,50 metro de largura por 80 cm de altura. Um pequeno ventilador lhe permitia respirar.

Então, com o ex-ditador nas mãos dos militares americanos, adotou-se outra decisão que não caiu bem para muitos iraquianos: divulgar o exame médico de Saddam Hussein. O doutor examinava a dentadura do ditador, de barba longa e despenteado. Poucos dias antes, o ministro da Justiça iraquiano apresentava o tribunal que julgaria Saddam. Manteve-se em vigor a pena de morte e se rejeitou a formação de um tribunal internacional. Ele foi enforcado em 30 de dezembro de 2006. O vídeo de sua execução também foi publicado.

Em maio de 2004 também foram divulgadas as fotos das torturas sofridas por prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib, outro golpe devastador para a imagem das tropas ocupantes. Em 2006, depois da explosão de uma importante mesquita xiita na cidade de Samarra, se desencadeou uma crua guerra civil entre xiitas e sunitas. Durante alguns anos a descoberta de cadáveres assassinados pelos métodos mais selvagens – vários ocidentais já tinham sido degolados por seguidores da Al Qaeda – deixou de ser notícia.

E as armas de destruição em massa que o regime de Saddam Hussein supostamente possuía, o principal argumento empregado pelo governo Bush para iniciar a guerra, jamais apareceram.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

1 Comentário

  1. Antonio Terrazzo
    20 de agosto de 2010

    No fim podemos imaginar que a memória de Saddam Husseim ainda pode dar muita dor de cabeça aos EUA, pois este, apesar das muitas atrocidades que cometeu, foi patriota e corajoso até o fim, e não nos causará espanto se um dia ele for reverenciado como herói. Antes do famigerado buche II invadir o Iraque ofereceram a Saddam a chance dele e sua familía se exilar, ele recusou, e seus filhos foram mortos ainda na invasão. Quando preso e humilhado em público, todas as vezes que falou, denunciou o tribunal de excercção de um governo fantoche que o acusava, se comportando como um verdadeiro chefe de estado, e por fim no episódio do seu enforcamento, assistimos a um verdugo zombeteiro sendo repreendido por um condenado altivo. O que fica de lição para o episódio dessa invasão ? Que foi uma insensatez e um crime barbáro não a um ditador sanguinário, e sim a grande nação Babilônica.

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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
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