FAULKNER 120 ANOS: Sufocado entre Palmeiras Selvagens

DestaqueLiteratura

Repleta de semelhanças com a paisagem e a condição humana do brasileiro interiorano, obra de William Faulkner será destacada aqui no Substantivo Plural; na abertura, “Palmeiras Selvagens” (1939), tido como o último livro da fase áurea do escritor norte-americano.

Faulkner.5Fazia tempo que eu lutava contra a preguiça e a insegurança para reler Faulkner. Seus livros densos, de tamanho médio para grande e escrita caudalosa, me fitavam, como se perguntassem: “E aí, vamos tentar de novo?”.

Eu fugia, evitava-os sempre que a necessidade de ler um clássico batia às portas de minha percepção. Tinha lido a maioria deles cerca de oito, dez anos atrás, e o que consegui registrar significou muito pouco, diante da grandiosidade literária em mãos.

Pois se a literatura é a maneira mais completa de examinarmos o mistério irracional da existência, ela vai além da narração de fatos, análise de sentimentos e registro de mudanças sociais, na técnica de um autor como Faulkner.

Técnica paradigmática em sua época, com perí­odos longos, enxertos, monólogos internos, alternância temporal, o tal fluxo de consciência a exigir maior grau de atenção do leitor.

No entanto, o que nos enlaça e demonstra o poder catártico da literatura para expressar ansiedades entranhadas é perceber personagens sarcásticos, sombrios e taciturnos, em um ambiente de pobreza endêmica, ou em famílias outrora ricas, mas em plena decadência, no trecho dos Estados Unidos cuja vida passada guarda enormes semelhanças com o interior nordestino.

Trocasse nome de lugares e pessoas, e fizesse pequenos ajustes na fauna e flora, Faulkner passaria como um dos principais intérpretes do brasileiro – ou do argentino.

Faulkner_Walker Evans

Estados Unidos, primeiras décadas do século XX: Pobreza afetava brancos e negros dos grotões. Fotografia: Walken Evans.

O amor nos tempos do cólera

As duas histórias de Palmeiras Selvagens estimulam uma crescente ansiedade. Você espera o momento em que personagens saltarão de uma história para outra (e ele nunca chega).

São duas novelas independentes. Na primeira, que intitula o livro, tomamos conhecimento de um casal refugiado em uma casa decrépita, às margens de um trecho inóspito do litoral do Mississippi. Ele um jovem médico, ela, uma mulher mais velha, grávida e algo tensa.

A vizinhança carola percebe que eles não são casados, o que gera fofocas (estamos no sul dos Estados Unidos dos anos 1930 e todo o universo de Faulkner é conservador).

O que levou Harry Wilbourne e Charlote até ali? Qual crime cometeram ou estão prestes a cometer? De que eles fogem?

Apocalipse Now faulkneriano

Na outra história, O Velho, um preso de uma penitenciária agrícola é designado para uma missão suicida durante uma enchente (fato ocorrido no Mississippi dos anos 1920): resgatar uma mulher grávida e isolada no teto de uma casa na iminência de submergir no apocalipse fluvial.

O Condenado Alto (nome do personagem) é selecionado quase numa sentença de morte, como Martin Sheen no filme de Francis Ford Coppola, na busca kamikaze pelo Coronel Kurtz, entre o Camboja e o Vietnã. O máximo de água que ele tinha visto era o bebedouro dos cavalos.

Em uma jangada improvisada, o preso e a mulher enfrentam o cenário diluviano. A todo instante, pensamos: “É agora que ela será abandonada ou estuprada”. Crocodilos, marginais e a fúria dos céus estão logo ali, em torno da mulher indefesa.

Aprisionado por um crime besta, o Condenado Alto tem a chance de fugir e ganhar uma nova vida, após sete anos encarcerado.

Faulkner_4

William Cuthbert Faulkner venceu o Nobel em 1949, após uma sequência impressionante de romances, como O Som e a Fúria e Luz em Agosto.

Década de ouro de William Faulkner (1929-1939)

Minha ideia nesta retrospectiva é comentar romances que vão de O Som e a Fúria a este Palmeiras Selvagens – já estou relendo Luz em Agosto.

Se, hoje, histórias entrecruzadas, que revelam um final em comum, são manjadas inclusive no cinema (das que mais gosto, cito Amores Perros, 21 Gramas e Babel, de Alejandro Gonzáles Iñarritu), à época, em que escritores eram tão fortes quanto homens públicos, Faulkner revolucionou.

São personagens duros, cruéis, perdidos desde o nascimento, destinados à margem da sociedade norte-americana, surgidos em romances que mais parecem uma notícia jornalística bem apurada ou uma fotografia de Walken Evans.

Seres modestos, não grandiosos, que posicionaram Faulkner na briga entre romancistas objetivos e naturalistas do século XIX e no mergulho na consciência individual da centúria seguinte.

Faulkner, Kafka, Proust, Joyce e Nabokov, eis um inventário de ficcionistas das décadas iniciais do século XX com larga simpatia pela psicanálise – o irlandês brincava ao dizer que seu nome Joyce, em alemão, era Freud.

Psicanálise usada não na caracterização de personagens, mas na construção formal de uma narrativa, sem lógica linear, com cenas e cenários aparentemente remotos, para o leitor apressado, bem destacados no retorno via associações imprevisíveis, jogo de palavras e evocações oníricas.

Bons romances são fenômenos naturais

Harry e Charlote firmam um pacto: sustentar o amor eterno sem qualquer preocupação material. Nada de trabalho, obrigações, dores de cabeça, apenas amor puro.

Detalhe: ela foge com a anuência do marido, agora único responsável pelos dois filhos ‘abandonados’ pela mãe, e com um cheque de 300 dólares dado pelo mesmo, para urgências – já nos anos 1930, o romance sugere, sem querer, uma boa discussão feminista.

Manter a quantia intacta é questão de honra para Harry, enquanto a vontade de Charlote em abortar aumenta a necessidade de dinheiro (ela é a condutora do projeto romântico-franciscano).

Em Palmeiras Selvagens, a natureza participa das ações psíquicas. As noites na casa carcomida ganham em fantasmagoria com o barulho do vento nas plantas, cuja famí­lia de flor monocotiledônea inclui nossos coqueiros como uma das espécies.

Sem grandes descrições da paisagem, somos transportados para o ambiente com uma simples mirada nos parágrafos tão bem escritos – gosto da teoria de que o bom leitor precisa aprender a olhar tanto quanto ler, e não pela geometria ou arranjos linguísticos inovadores, mas, sim, pelo ritmo, o acelerar e brecar, criar ansiedade no porvir; o que o poeta faz ao escolher palavras de acordo com o número de sí­labas, só que em uma dimensão maior.

(Original Caption) 5/6/1955- Oxford, MS: Roots of a writer. Author William Faulkner. This is what the birth of literature looks like. Faulkner does most of his writing in this manner, hunched over a glass-topped table with a pen. SEE NOTE

Para o escritor brasileiro Cristovão Tezza, “A obra de Faulkner é o triunfo da narração como forma de reconhecimento do mundo”.

Dois tipos de amor em Palmeiras Selvagens

Buscar a vida na morte ou a morte na vida talvez seja o que procuram os habitantes deste romance. Seres moralistas, em meio a imoralidade; pací­ficos diante da violência, ou violentos defronte a calmaria; singelos em um ambiente brutal.

Faulkner, ao falar sobre as duas histórias distintas, dizia que eram “dois tipos de amor” (Glauber Rocha quis transformar Palmeiras Selvagens em filme).

Amores revelados já em estado terminal, pois as histórias têm várias ‘omissões’ – sabemos que Harry e Charlote se conheceram numa festa e logo aparecem na casa litorânea, como um casal com anos de vida em comum, daqueles que mal se tocam; tanto o crime cometido, quanto detalhes da vida do Condenado Alto são desconhecidos.

Quem espera um livro com cenas fortes, explí­citas, de final bombástico ou diálogos quase aforismos, melhor esquecer Palmeiras Selvagens. A bomba é armada aos poucos, sem alarde e possibilidade de fuga para o leitor.

De repente, estamos todos como o Condenado Alto que, ao voltar um mês depois da odisseia jangadeira pelo Mississippi em chamas, ganha um charuto do diretor do presídio e mais dez anos de encarceramento.

Sua única preocupação era com a qualidade do fumo – como os amigos no velório de Ivan Illich, de Tolstói, a angustia e a tristeza do entorno são descartáveis. É a cena que traduz as quase 300 páginas de um livro que instiga novas releituras.

Fico com as palavras de Cristovão Tezza, para quem: “A obra de Faulkner é o triunfo da narração como forma de reconhecimento do mundo. Para quem ainda não leu, Palmeiras Selvagens será um belo começo”.

Share:

Comentários

Leave a reply