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Ferreira Gullar e Raimundo Fagner

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Amigos e amigas:

Vendo tv de passagem, assisti a micro-entrevista de Ferreira Gullar sobre a canção “Borbulhas de amor”, versão que ele fez para um bolero de Juan Luiz Guerra, a convite do cantor Fagner. Confesso minha ignorância: já ouvira a música antes (rádio), considerei-a insossa, nunca supus que a versão fosse de Gullar, que já escreveu bem melhor. Nesse ítem, Paulo Coelho venceu com “Me deixas louca”, grande gravação de Elis Regina – Gullar, quem diria, acabou abaixo de Coelho!

Lembro do começo de Fagner (anos 70), assisti mesmo a uma apresentação dele, ao vivo, numa espécie de circo que funcionou na Av. Deodoro da Fonseca (parte alta, em frente ao Diário de Natal). Ele cantava muito bem na época, pegada e originalidade, repertório de boa qualidade – meus alunos, hoje, custam a crer que isso ocorreu um dia mas o disco “Manera, Fru-Fru, manera” é prova do que afirmo: “Penas do tiê”, interpretação comovente de uma canção dele e de Belchior (“Moto 1”: “Olhe-me, veja-me / Não há novidade alguma / em meus olhos espantados”) etc.

Na entrevista, Gullar, além de confessar o feito, comenta a versão de maneira melhor que os versos que traduziu: equipara o peixe da letra ao falo (usou o termo piroca mesmo) – suponho que o aquário seja a vagina. A metáfora não chega ao nível de Blake mas é melhor que o resultado da tradução.
Segue a versão de Gullar, digna do Fagner atual:

Borbulhas de amor.

Tenho um coração
Dividido entre a esperança
E a razão
Tenho um coração
Bem melhor que não tivera…

Esse coração
Não consegue se conter
Ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura…

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido
Aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor
Prá te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti…

Um peixe
Para enfeitar de corais
Tua cintura
Fazer silhuetas de amor
À luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti…

Canta coração
Que esta alma necessita
De ilusão
Sonha coração
Não te enchas de amargura…

Esse coração
Não consegue se conter
Ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura…

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido
Aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor
Prá te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti…

Um peixe
Para enfeitar de corais
Tua cintura
Fazer silhuetas de amor
À luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti…

Uma noite
Para unir-nos até o fim
Cara-cara, beijo a beijo
E viver
Para sempre dentro de ti…

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido
Aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor
Prá te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti…

Um peixe
Para enfeitar de corais
Tua cintura
Fazer silhuetas de amor
À luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti…(3x)

Para sempre
Dentro de ti…

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Comentários

6 comments

  1. Jimmy 8 novembro, 2010 at 13:10

    Trata-se de uma letra de música popular. O gênero (que é completamente diferente de um poema em versos) exigia um manuseio, uma roupagem nova.

    A impressão de que Gullar “já escreveu melhor” é compreensiva, mas infundada, e nos exemplifica a diferença entre um poema e uma letra de música. Não adianta exibir os versos da letra aqui, 50% dela é melodia. É como apresentar uma foto da Françoise Hardy em que ela está sem as pernas.

    Abraços

  2. Adriana Nogueira 16 setembro, 2013 at 19:05

    Boa Noite!!

    Bem, há algum tempo, li em uma gramática e não tenho certeza da veracidade desta, que o Ferreira Gullar escreveu este poema com um sentido que pra mim parece muito lógico. Como se fosse um bebê no útero da sua mãe. Lendo esta música várias vezes, absorvi isso e acho que tem todo o sentido do mundo.
    Abraço!

  3. Marcos Silva 16 setembro, 2013 at 20:11

    Essa interpretação do útero é melhor que a letra real de Ferreira Gullar! DEveriam divulgá-la cada vez que a música tocasse no rádio. Fiz uma versão pessoal, com o refrão “Queria ser piranha / para seguir tua vara de pescar”. Ainda não mostrei pra Gretchen.

  4. ROBERTO J.R. 7 novembro, 2015 at 11:35

    Sei que se passou muito tempo, mas só hoje tive acesso a essa sua interessante crítica. Tenho uma informação (mais recente que o seu artigo) que talvez explique a estanheza que teve ao ler os versos atribuídos ao poeta Ferreira Gullar.
    Após a morte do compositor e cantor romântico-brega WANDO, Fagner, como homenagem ao amigo falecido, entre outras histórias admitiu esta (palavras dele): “A composiçãoo de ‘Borbulhas de Amor’, uma de minhas canções de maior sucesso, foi dele. A verdade é que Ferreira Gullar apenas nos deu a ideia de traduzir a música de José Luiz Guerra. E Wando, agradecido, o homenageou cedendo os créditos da música. Agora, após sua morte, acho justo que se some este fato às honras da sua vida. Valeu, meu amigo! Paz para você.”
    Abraços.

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