A festa dos mortos

Pablo Capistrano
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Contam as velhas fofocas filosóficas que a população de Königsberg, na Prússia oriental, ficou profundamente impactada quando a notícia da queda da Bastilha chegou à cidade. Isso ocorreu menos por causa da notícia em si, e mais pelo fato de que o filósofo Immanuel Kant havia se atrasado para o seu tradicional passeio vespertino, ao ser informado do acontecimento.

Para o bom povo da pacata Königsberg apenas um acontecimento de proporções cósmicas, muito aproximado ao dia do juízo ou a algo equivalente, para a época, ao fim da última temporada de Game Of Thrones, poderia provocar um atraso como aquele.

O curioso é que aquela não era a primeira notícia de uma revolta popular que chegava aos rincões da Europa Oriental. O final do século XVIII havia sido pleno de rebeliões e levantes populares. A plebe se agitava nos Estados Unidos (1776 – 83), na Irlanda (1782 – 84), na Bélgica (1787 – 90), na Holanda (1783 – 87), gerando distúrbios políticos e violência social, dando sinais que o antigo regime estava fadado ao colapso.

A questão é que, naquele tempo, Paris era a maior cidade da Europa, praticamente tendo dobrado de tamanho até 1784, após a vitória da França na guerra contra a Inglaterra. Em 1789, um em cada cinco europeus era francês e a capital do reino de Luís XVI era “A Capital” do mundo ocidental.

Ciente de sua condição de centro cultural e político do mundo ocidental, mas sofrendo os augúrios de uma crise fiscal violenta em função dos débitos contraídos para custear a guerra contra os ingleses e financiar a luta pela independência dos norte americanos, o rei francês começou, pouco antes da revolução, um ambicioso plano de modernização e urbanização de Paris.

A própria Bastilha, um presídio real que depois virou símbolo da opressão aristocrática, deveria, conforme os planos do rei, ser posta abaixo.

Hoje, se qualquer aluno de ensino médio responder uma questão do ENEM sobre o ponto de origem do acontecimento revolucionário na França vai seguir a data oficial da república francesa e apontar a tomada da Bastilha como o marco que desencadeou esse processo.

No entanto, é possível encontrar em outro momento, nove anos antes dos distúrbios de 14 de Julho, um elemento simbólico bem mais significativo, que ajudou a desempacotar, no imaginário político da cidade, as forças represadas da história.

O fechamento do Cemitério dos Inocentes, patrocinado por Luís XVI em seu ensejo de realizar uma reforma modernizante de Paris pode ser visto como um sintoma simbólico extremamente impactante do anúncio dos novos tempos.

Tratava-se do cemitério mais antigo da cidade. Um grande terreno baldio, com fossas que eram abertas, fechadas e reabertas constantemente; bem próximo ao mercado de Les Halles. Era ali onde se encontravam depositados os ossos de boa parte da população da cidade desde a época medieval. O cheiro dos mortos se misturava ao burburinho das atividades comerciais do mercado em uma simbiose promíscua que ensejava na área, junto com os odores mefíticos que emergiam da putrefação dos cadáveres, todo tipo de atividades marginais, desde o comércio de produtos roubados até práticas do baixo meretrício parisiense.

Essa zona limítrofe entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos não apenas representava um desconcertante sintoma de medievalismo em uma capital que se pretendia agente privilegiada do futuro, esplendor de um reino fadado a dominar o mundo ocidental. O Cemitério dos Inocentes também indicava, com suas constantes aberturas e reaberturas de valas na terra limpa, por sobre aonde transitavam as pessoas em suas práticas sexuais clandestinas, um contínuo que ligava o tempo e costurava a história da cidade, marcando um fluxo que remontava a antiga ordem.

Sob o protesto do clero, com a ordem do rei Luís XVI, os ossos dos mortos foram desenterrados à noite e as ossadas de todos os parisienses mortos desde a Idade Média foram transportadas à luz de tochas para fora da cidade.

Esse desempacotamento simbólico dos mortos é, provavelmente, o primeiro grande ato do imaginário revolucionário em uma Paris que buscava o futuro.

O que faz a revolução francesa mais fundamental e mais disrruptora, do que as outras revoltas que se espalharam no final do século XVIII e começo do século XIX, não é apenas o fato de que a ruptura política que se seguiu aos eventos de 14 de Julho se deu na potência central do mundo europeu, à época. O acontecimento revolucionário francês é fundamental porque não se contentou em ser apenas uma troca de um grupo político no poder por outro. Tratou-se de uma subversão da ordem, de uma cisão, de uma quebra com o passado.

A revolução é assim, um solavanco, um tranco, um “cavalo de pau” no sentido da história.

A mesma pá que desenterrou os mortos no Cemitério dos Inocentes cortou a linha que ligava a França medieval à França moderna. A repercussão desse acontecimento disrruptor foi tão violenta no imaginário global, que chegou a influenciar movimentos revolucionários e reformistas como o Brahmo Samaj, na distante Bengala indiana.

Até 1848, era praticamente impossível se pensar em qualquer plano de levante geral na Europa, sem que a liderança dos franceses não tivesse sendo posta no caminho da realização da tarefa coletiva da liberdade.

Muito provavelmente foi isso que o velho Kant deve ter pressentido, ao sentir os efeitos tectônicos da revolução reverberarem como notícia em seu gabinete de trabalho, na distante Königsberg. Um motivo mais do que suficiente para atrasar o seu passeio de fim de tarde, porque bem sabia o velho pensador que, afinal, as revoluções são mais perigosas por aquilo que inspiram do que por aquilo que de fato realizam.

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Pablo Capistrano

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