A festa é sua, meu amor, sorria!!!

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Viver ao lado de uma emissora de televisão que costuma dar festas de arromba é a sina de moradores de Candelária; O que fazer se, em meio a suingueira e ao arrocha, eles perguntam: Do you wanna dance? Nem o sono de João Gualberto eles respeitam.

Fotografia de capa: Jens Juul

Sexta-feira passada teve micareta aqui em casa, com mais uma invasão sonora promovida pela TV Cabugi. Dessa vez começou cedo e teve duas partes.

A primeira às 06h, com uma banda de frevo em ação na calçada interna da emissora, metais no juízo sonolento de umas 600, 700 pessoas residentes no entorno, para ilustrar uma matéria carnavalesca do telejornal matutino.

Detalhe: Gosto muito do som de instrumentos de sopro.

Eu tinha acabado de acordar, botado água para ferver e estava na área de serviço para pegar uma toalha.

De repente, começa tarol, trompete, trombone crescente, um sacolejo medular impossível de ignorar, que me fez ir à janela ver aquela aurora pernambucana.

A artilharia metálica disparava Mamãe eu quero mamar, com dançarinos em volta, explosão de vigor e contorcionismo pra todo lado, em uma cena inacreditável para o horário.

Tudo isso em meio ao canto dos pássaros, da gente comum na bicicleta rumo ao trabalho, dos porteiros tirando remelas dos olhos e de nós, vizinhos de um sistema de comunicação que, vez ou outra, mostra quem manda no pedaço.

Há quem fale: “De boa, tu acorda numa sexta ouvindo um clássico do carnaval, a festa mais irada do ano, para o cara beber todas e não ir trabalhar uns dias, e ainda achasse ruim um frevinho?”.

“Tudo bem, foi relativamente ligeiro”, pensei.

OpressãoFoi numa festa, gelo e Cuba Libre

À noite a coisa amplificou, com uma festa de arromba nos fundos da emissora, terror para quem mora no residencial ao lado (por lá, a gritaria é geral; mas quem danado vai brigar com a Rede Globo potiguar?).

Aqui no prédio a coisa chega forte também. Tem hora que só resta cruzar os braços – a depender do cômodo, a altura do som estava naquele limite em que você não consegue conversar com quem está ao lado, nem ler ou ver televisão sem forçar a barra.

“Eu perguntava, do you wanna dance?”, gritou o cantor no tema oitentista do Roupa Nova, Whisky a go go. A letra soou irônica, após o frevo matinal e a balada noturna – durante o ano eles promovem várias fuzarcas, do São João à confraternização de dezembro.

Tem uma estrofe de Whisky que diz assim: “A noite inteira passa num segundo, o tempo voa mais do que a canção”. Quis acreditar nisso, mas a hora e decibéis registrados na lei foram extrapolados e muito – como sempre.

O pior é que, ou mudaram de banda, ou a mesma mudou o repertório, pois a sequencia foi de suingueira, sertanejo universitário, arrocha e toda milacria do show business brasileiro.

E nós aqui, impassíveis, sob efeito desse tóxico pesado.

Anthony Falbo_Hell-the-alternative

Reprodução do quadro “Hell the Alternative”, de Anthony Falbo

Respeitem o sono de João Gualberto!

Se existisse um livro que representasse para o jornalismo o que a Bíblia representa para um cristão, tipo Hunter Thompson ou David Foster Wallace como Deus, teria um versículo assim:

“Em verdade, vos digo: não creonte com os vizinhos, pois, para aquele que assim agir, o amor de Hunter se afastará”.

Faz uns 20 anos que o poeta e jornalista João Gualberto mora aqui no prédio. Durante um tempo, ele andou agitado. Com frequência, tocava gaita no corredor do 4º andar e cantarolava algo incompreensível a plenos pulmões.

Uma vez, duas, é divertido. Já pensou a chinfra: “João Gualberto tá dando um show aqui no prédio”. Sensacional!

Mas, toda hora, é demais. A galera se reuniu e pressionou o síndico e o próprio Gualberto (um dos sujeitos mais queridos no condomínio).

No processo de restauração por que ele passou nos últimos anos, creio que percebeu o incomodo causado com a cantoria despropositada, ainda que engraçada – imagine passar de elevador pelo hall do andar dele e escutar berros seguidos de uma gaita desafinada.

Portanto, respeite o sono de João Gualberto, galera. O homem passou dos sessenta, viveu a cem e mora no quarto andar, bem pertinho de vocês.

Existem alternativas para confraternização entre colegas de trabalho, sem perturbar a tranquilidade em um bairro residencial – granjas, casas de praia ou alugar um espaço propício. Basta querer.

Já aceitamos que o Carnatal é uma luta perdida, para quem é vítima dos torpedos sonoros dos trios elétricos durante quatro dias. Agora teremos mais esse point em nossa área? Mandem pelo menos a agenda dos fuzuês, pra gente se programar.

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