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Filhos: por que não os tenho

Assim como a maioria das mulheres que ainda não têm filhos, especialmente as que estão solteiras, vez por outra, sou questionada sobre a maternidade. E foi exatamente isso que aconteceu dias atrás, durante minha aula de ginástica. Conversando com uma senhora que acabara de conhecer, e que já havia me contado boa parte de sua história de vida, falei que não pretendia ter filhos. Imediatamente, ela me veio com uma receita pronta: “Se eu fosse você, teria um filho, mesmo que não tenha um marido. Talvez agora você não sinta essa necessidade, mas quando ficar mais velha… Ah, e quando você ficar doente, aí é que vai perceber a necessidade de ter um filho”.

Continuamos nossa atividade física e decidi expor minha opinião de forma mais contundente, pois achei que ela não havia aceitado de pronto a ideia de uma mulher decidir que não quer ter filhos e/ou que não sabe dizer exatamente por que ainda não é mãe. Ou melhor: ela não havia aceitado que é possível ser feliz sem ter filhos.

Na verdade, já estou acostumada a esse tipo de reação. Outro dia, o irmão de uma grande amiga disse, em tom quase ameaçador, que eu iria ficar sozinha na velhice, que deveria ter filhos etc. “E você acha certo uma pessoa decidir ter um filho somente para não ficar sozinha na velhice? Não seria egoísmo pensar dessa forma?”. Questionei. Ele nada respondeu. “E quem garante que tendo filhos eu não ficarei sozinha na velhice?”. A conversa terminou com essa indagação.

Vejo tantos idosos abandonados por seus próprios filhos, ou muitas vezes explorados por estes, não só do ponto de vista financeiro, mas também em relação a trabalho doméstico. E não estou me referindo apenas ao abandono de deixar o pai ou a mãe num espaço geriátrico e esquecer de sua existência, como muitos fazem, por razões as mais diversas. Refiro-me a um outro tipo de abandono, talvez até mais doloroso que este: o abandono dentro da própria casa, o desrespeito à condição de idoso e tudo o mais que provém desse tipo de postura, nada condizente com quem diz amar seus pais, cabe frisar.

Esse tipo de situação faz cair por terra a ideia de que ter filhos é garantia de uma velhice tranquila, cheia de afeto e cuidados. Aliás, sempre associei à ideia de amor a cuidado, respeito. Conheço uma senhora de idade avançada que mora com alguns filhos e netos e é bastante explorada por todos quando o assunto é atividades domésticas. Quando me deparo com esse tipo de situação, indago-me: que prova de amor demonstram pessoas que tratam um idoso dessa forma? Conheço outra senhora cujos filhos e netos e só a querem morando com eles porque parte de sua renda (uma pensão por viuvez) garante o sustento da casa. Ela veio do interior para tratar de problemas de saúde e, após ficar curada, o filho insistiu para que continuasse em sua casa, onde ela trabalha bastante e ainda ajuda a cuidar de um neto de três anos.

Voltando a minha decisão (talvez por insegurança) de não ter filhos, e ao espanto de uma senhora que parece não conceber tal ideia, tenho mais algumas considerações a fazer. Analisando depois a solução apresentada por ela, até parece que uma questão desse tipo é tão exata quanto uma equação matemática. Foi exatamente assim que recebi aquela receita pronta da minha colega de ginástica, que em outras palavras me disse para ter um filho sob quaisquer circunstâncias.

A propósito, o fato de não ter filhos nada tem a ver com não gostar de crianças. Que isso fique bem claro. Eu amo crianças e tenho com elas uma excelente relação. Acho que as crianças têm muito a nos ensinar. Sou daquelas pessoas completamente fascinadas por criança, que não pode ver uma sorrindo que vai logo puxando conversa. Isso pode ser no ônibus, em restaurantes, lojas… Conversar com uma criança, e receber seu afeto e atenção, é algo que me faz sentir renovada, é sempre uma oportunidade de enxergar a vida com mais leveza, otimismo e esperança.

No entanto, devo admitir que gostar de crianças não é suficiente para decidir trazer um filho ao mundo, ou mesmo adotá-lo (o que seria mais provável, no meu caso). Talvez eu não saiba explicar exatamente a razão de não querer ter filhos, mas penso que ela se fundamenta em algumas vivências (ou ausências). A primeira delas, e talvez a mais forte de todas, é que fui abandonada por minha mãe aos dez anos de idade, e isso deixou em mim marcas profundas. Depois, quem sabe em consequência disso, vem a “falta” de referência familiar, ou seja, talvez eu não tenha sentido a necessidade de “copiar” nenhum modelo familiar e, consequentemente, de construir minha própria família. Por último, vem o sofrimento de duas irmãs que criaram seus filhos sozinhas: uma teve três filhos e separou-se do marido antes mesmo de o caçula nascer; a outra separou-se poucos dias após o nascimento do seu único filho. Situações que marcaram bastante a minha formação para a vida sentimental e quiçá minha não inclinação para a maternidade.

Além disso, confesso que nunca tive aquele grande sonho de ser mãe, como algumas das minhas amigas, por exemplo. Não me vejo grávida, amamentando, passando noites em claro… Sim, acho que esse seria o primeiro passo para se ter um filho: desejá-lo. Não sei se estaria preparada para uma nova vida onde o trabalho não fosse o centro dos meus interesses e uma criança passasse a ocupar a maior parte do meu tempo. Sinceramente, não sei se estaria preparada para aguentar a maratona que é cuidar de um bebê, realizar as atividades domésticas, trabalhar fora, estudar, cuidar de mim mesma… Sim, porque essa é a vida da maior parte das mulheres que têm filhos. E não falo isso por puro egoísmo, ganância ou coisa do tipo. Aliás, minha filosofia de vida passa longe do desejo irrefreável de ter, de acumular para um futuro incerto. Prefiro viver o presente e usufruir o que tenho hoje. Sou feliz assim.

Sei que você, meu caro leitor, especialmente se é pai ou mãe, deve estar se perguntando: será que ela nunca pensou em ser mãe? Talvez. Não acho coisa simples tal decisão, e penso que deve ser tomada em conjunto, que não basta apenas a mulher querer ter um filho simplesmente porque está apaixonada por um homem ou porque acha lindo ter filho, se o seu companheiro não tem o mesmo desejo.

Conheço mulheres que se nortearam por esses princípios e confesso que não me sentiria nem um pouco feliz agindo assim. É uma questão de escolha. Acho que um filho deve ser fruto de um desejo comum. Já me apaixonei, e vivi lindas histórias de amor, e talvez tenha até cogitado a possibilidade de ter um filho com um homem que muito amei. Ele, no entanto, não desejava ter mais filhos. Tinha três filhos adultos e não cogitava a possibilidade de ser pai novamente, nem tampouco de casar.

São inúmeras as preocupações que me vêm à cabeça quando o assunto é filho. A estabilidade financeira é uma delas. Outro questionamento seria: estou preparada para educar alguém? Formar uma pessoa para o mundo não é tarefa fácil. Sei das minhas lacunas por não ter tido mãe (nem pai) numa fase crucial de minha formação. Os livros, os amigos, alguns professores, e especialmente os meus irmãos, é que me ajudaram nesse processo de “educar as emoções”, por assim dizer, e me ensinaram valores importantes os quais deveriam ter sido transmitidos na infância.

Não tenho nada contra quem o fez/faz, mas nunca tive planos de fazer uma produção independente. Acho que uma criança precisa vir ao mundo de forma planejada e, se possível, ter uma família. E não estou me referindo apenas ao modelo tradicional de família. Afinal, sabemos que muito mais do que laços de sangue, o que forma verdadeiramente uma família, são os laços de afeto. Essa família a que me refiro pode ser formada por dois pais, duas mães… O que defendo é uma estrutura familiar, uma referência para a criança, um lar, uma rotina minimamente estruturada, para que ela possa se desenvolver de forma saudável e ocupe seu lugar no mundo com dignidade e autoconfiança suficientes para enfrentar as intempéries da vida.

Não sei se essa minha postura está relacionada ao fato de eu não ter tido essa família (ideal?) formada por pai, mãe, filhos, mas a verdade é que acredito bastante nessa ideia, e só teria um filho se fosse algo planejado a dois. Nada contra quem decide ter produção independente, que isso fique bem claro. Cada qual sabe exatamente por que tomou certas decisões. Sei que há mulheres com um forte desejo de ser mãe, mas que não encontraram o companheiro ideal, ou mesmo aquelas que não acham necessário ter um companheiro ou companheira para educar uma criança. Bem, o que interessa mesmo é se a criança está sendo amada, respeitada e se desenvolvendo de forma saudável.

E o futuro, como será? Casada? Solteira? Com ou sem filhos? Não posso responder a nenhuma dessas perguntas agora, mas sigo feliz, cuidando dos afazeres mais urgentes, revisando livros, escrevendo, desfrutando da companhia dos amigos e familiares, e sobretudo colocando em prática a máxima latina carpe diem. Assim como o poetinha, também penso que “a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais”. Prefiro pensar na brevidade da vida e no que tenho para viver hoje, o que significa, acima de tudo, amar e respeitar o meu semelhante. Caso eu sinta necessidade de ter filhos, posso perfeitamente entrar na fila de adoção e me tornar mãe. Não vejo maiores problemas quanto a isso. Não acho que para me tornar mãe eu tenha que gerar um filho em meu ventre.

Eu mesma fui adotada aos dez anos e raramente lembro que não fui gerada pela mãe que me acolheu com tanto afeto e continua me dando provas do seu amor até hoje. A cada vez que nos encontramos, meu amor por ela se renova e posso sentir o seu amor e a sua preocupação com o meu bem-estar. Seu olhar e seu sorriso quase sempre me comovem e enchem meu coração de paz e alegria. Quando ela me abraça, é como se dissesse: eu te amo e quero a tua felicidade, filha. Ela mesma nunca me criticou ou questionou minha decisão de não ter filhos. Bem, o importante é que mesmo diante das críticas, cobranças, questionamentos ou incompreensão de alguns, sigo feliz e em paz comigo mesma. Acho que isso é o mais importante.

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Andreia Braz

Comentários

1 comment

  1. Maria Tereza 30 setembro, 2017 at 02:23

    A vida flui, cada um com seus pensamentos , ideias… ter filhos ou não ter? Cada um sabe o que quer, sem fórmulas prontas, sem indagar muito a vida, e sem cobrar dela . Cada um será o que decide ser quando muito pensa.

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