FlipAut Onírica!

23 de novembro de 2010 às 22:59 - 1 Comentário
Por plinio sanderson

A nova indústria de eventos, pós-autos, Cinemas, Feiras/Bienais de Livros, Gastronômicos, os Festivais Literários que se instaura: Flip, Paraty/RJ; Fliporto, P. de Galinhas/PE; de Passo Fundo/RS e nesse caso Flipipa/RN, desemboca na Teoria dos Ídolos de Francis Bacon. Os “ídolos da tribo”, que generalizam com bases em casos favoráveis (vide-bula). Ou os “ídolos do teatro”, na invenção de factóides, com a conivência de autoridades que se rendem ao tráfego de influências e/ou as famigeradas leis de incentivo.

Transformar Pipa em contexto de evento cultural para sair do trinômio sol, praia e desbunde (cosmopolita) forjado no viés de aproximação da população local com os intelectuais e escritores de projeção local e (inter) nacional, incentivando a formação de novos leitores (sic!). È argumento insustentável, ledo engano – Zeus se travestiu de cisne para afogar o ganso com a linda Leda.

Chega de tietismo, celebrar celebridades. Antes, a obra que o escritor produz, do que o escritor que a mídia enaltece. Na Flip/2010, Crumb disse: “Não sei o que estou fazendo aqui. O que interessa é meu trabalho”. Ou, como afirmou no Flipipa/2010 João Ubaldo: “Não entendo nada de literatura e não gosto de falar de literatura”.

Mesmice deslavada. Denotar figuras abastadas da literatura não legitima a aura de encontro literário. A repetição de personas e temáticas é lugar comum. Quatorze a zero: concordo com o Fábio (revista 14) que ousou dizer “repetitivo e chato”. E ainda: “obsessão por um passado que já aconteceu”; e mais: “viver imerso em ilusões nostálgicas”.

Estou farto, cansado da estética do cangaço. Gosto do Mia Couto, principalmente de sua criação lexical acronímica, junção de dois vocábulos existentes para a formação de uma nova palavra – apesar de termos cá, o original nonada Guimarães Rosa. Não preciso ouvir dele que há várias Áfricas e vários Brasis, e uma “África brasileira”. Curto o Noll, mas não sou noiado. Pra dormir, conto Carneiro(s)… Carito, ainda continuo sem saber que danado é mascafon? Uma de Cascudo. Quando não se sabia de alguma coisa, parodiando o Mário de Andrade, aconselhava o provinciano incurável: vá procurar o prof. Panqueca!

De leve que é na contramão. Não sejamos apenas cenário, nem só figurantes! Exercitar o “Genius Loci/Espírito do Lugar” e quem nele habita. Não queremos público pudico; necessitamos construir um público que não se resigne na coadjuvância lhes atribuída historicamente – que acha lindo o que não é espelho.

Eis que mesmo na surdina aviltante da imprensa, eclodiu o FlipAut, Out (FORA). Nem contra, nem a favor, mas, avesso ao reverso. Uma aventura prometéica, que rouba o fogo que cega/encandeia na fogueira das veleidades do Olimpo, para distribuí-lo aos singelos mortais. Coletivamente, colaborativamente… Compartilhadamente… Inclusivamente… Conclamando todos ao protagonismo, a fazer (p)Arte da História!

FlipAut! 2010, Festival Literário Alternativo da Pipa foi circuito paralelo de interações, descentralizando acontecências sem conflitos com ninguém, corroborando para popularizar a literatura e a arte em todas nuance. Vislumbrou permear barreiras sociais e espaciais, exercitando práticas lúcidas e lúdicas na praia, no book shop, na escola, na esquina da rua, no boteco… Sem fins lucrativos, nenhum dos escritores, jornalistas, poetas, produtores, colaboradores, oficineiros, etc. ganharam uma pataca sequer pelo esforço, além do prazer de propiciar/vivenciar junto à grande e heterogênea comunidade local/global uma instigante experiência onírica de pertencimento cultural.

1 Comentário

  1. flávia assaf
    24 de novembro de 2010

    a flipaut foi bacana (intenção/eventose) a flipipa também. a flipaut teve coisas rasteiras, assim como a outra. mas, ainda assim, prefiro que elas ACONTEÇAM. é melhor do que NÃO.

Postar Comentário

AGENDA

Esposição de Ana Prata - Instituto Tomie Ohtake

A artista apresenta tanto telas pequenas, como também trabalhos grandiosos, usando o efeito de escorrido; até agora não acho razão para que alguns [leia mais]

Recital de piano com Guilherme Rodrigues nesta quinta - Entrada grátis

O professor da Escola de Música da UFRN Guilherme Rodrigues apresenta recital de piano esta quinta-feira no auditório da EMUFRN. O recital começa [leia mais]

Oboé, Música de Câmara e Tecnologia, de quarta a sábado na EMUFRN

Acontece de quarta a sábado desta semana na Escola de Música da UFRN o evento Oboé, Música de Câmara e Tecnologia. Na ocasião, [leia mais]

Exposição "Quixote com Rosas", será aberta quinta, na Galeria Newton Navarro

Será aberta quinta-feira, 17, às 18 horas, na Galeria Newton Navarro (sede da Fundação José Augusto - Rua Jundiaí, 641 - Tirol) a [leia mais]

Festival “Thomaz Babini” da Escola de Música da UFRN – 22 a 25 de maio

No mês de Maio um evento histórico acontecerá na cidade de Natal. Italo Babini (FOTO), violoncelista natalense, considerado um dos mais importantes violoncelistas [leia mais]

"Mattinata", de Fernando Monteiro, será lançado em Natal quinta-feira, 17

Anote aí na agenda: na próxima quinta-feira, dia 17, a partir das 19 horas, o escritor e pluralista Fernando Monteiro lança na Livraria [leia mais]

OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar