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Floratta in gold

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Vinicius de Moraes

– Floratta in gold. Disse o motorista assim que entrei no uber, antes mesmo de cumprimentar-me e confirmar se era eu mesmo a passageira que ele conduziria até um dos shoppings da cidade. Sim, porque o pedido foi feito do celular de uma amiga, já que meu aparelho não é dos mais modernos. Em seguida, foi logo explicando o porquê de ter falado o nome do perfume que eu estava usando naquela noite (o que me deixou um pouco atordoada, confesso).

– Esse era o perfume da minha ex-namorada, disse João. “Na verdade, ela deixou de usá-lo depois que terminamos nosso relacionamento porque essa fragrância lembra muito a nossa história”, confessou. Aliás, esse foi o ponto de partida para uma conversa sobre sua vida amorosa e alguns dos percalços enfrentados ao longo dos seus 27 anos.

A ex-namorada a quem ele fez referência foi também sua noiva. O namoro durou seis anos, e quando a pediu em casamento ela decidiu pôr um fim à relação porque não se considerava preparada para tal compromisso. A essa altura já haviam comprado um apartamento em nome do casal. “A burocracia para deixar no nome dela foi grande”, disse. Na verdade, eles já haviam terminado o namoro algumas vezes, quase sempre por iniciativa dela, como ele fez questão de frisar. Mas daquela vez seria diferente: ele disse que não teria volta e perguntou se estava realmente decidida. Ela deu de ombros e disse que estava segura de sua decisão. No entanto, arrependeu-se pouco tempo depois, tentando reatar o namoro a todo custo. “Até de joelhos ela implorou. Você acredita?”, disse, enfático, talvez com uma pontinha de orgulho.

Os esforços dela foram em vão. Ele estava realmente decidido. Aliás, começou a namorar outra moça um dia após o término do noivado. Diante do meu espanto com a rapidez de sua decisão, foi logo dizendo que se tratava de uma conhecida da igreja que por ele nutria certo interesse, mas que nunca havia dado espaço para tal sentimento porque era compromissado. Esse novo relacionamento durou dois anos. “Foi ela quem terminou”, fez questão de ressaltar, antes de falar da atual companheira.

– Estou casado há dois anos e vivo muito feliz. Disse João, sorrindo e mostrando, orgulhoso, a aliança na mão esquerda. Dessa vez as coisas foram um pouco diferentes: seis meses de namoro e logo em seguida o casamento. A distância certamente influenciou nessa decisão. Eles se conheceram através do WhatsApp, ambos participavam de um mesmo grupo de oração; o diálogo entre eles, no entanto, acabou enveredando por outros caminhos, o que despertou a vontade de se conhecerem pessoalmente. Detalhe: João morava em Natal e Larissa numa cidade do interior do Maranhão. Mas isso não foi um empecilho para ele, que a pediu em namoro poucos meses depois fazer uma longa viagem de ônibus para conhecer a amada.

E por falar em dificuldades, o namoro a distância não durou muito porque ele disse que não poderia mais viver longe de sua amada. Para compensar a ausência, até o dia do tão esperado matrimônio, João caprichava nas declarações de amor e, sobretudo, nos mimos que eram ofertados a sua musa: cartões, chocolates, flores, ursos de pelúcia, e até um carro de som com direito àquelas declarações que poderiam deixar algumas pessoas no mínimo constrangidas. Mas esse não foi o caso de Larissa, que encarou tudo com naturalidade e sempre demonstrou afeto e gratidão por cada pequeno gesto do seu amado. “Ela ficou muito emocionada com o carro de som; não esperava tamanha surpresa”, disse orgulhoso de suas façanhas amorosas.

A conversa só foi interrompida quando recebi um telefonema de uma amiga que me esperava no shopping, com os ingressos do cinema já comprados. Ela estava tomando um café e disse que faltavam apenas dez minutos para o filme começar. Expliquei a situação ao motorista e desci um pouco antes do local combinado, para tentar chegar mais rápido à sala do cinema. Antes de me despedir, no entanto, falei que sua história talvez fosse registrada em uma crônica, a qual seria enviada para sua aprovação antes de ser publicada. Prometi comunicar-me via WhatsApp, já que estava planejando adquirir um celular mais moderno nos próximos dias.

Ao chegar em casa, já decidida a escrever, fiquei pensando naquela história e no quanto aprendi com João, em uma conversa de dez/quinze minutos, que poderia ter ficado apenas no terreno das amenidades, o que seria o mais comum numa situação dessas. Meu sentimento era de gratidão, não só por ele ter partilhado comigo sua história, mas também pela amizade de Ceiça Fraga, que sempre me faz convites irrecusáveis para ir ao cinema e ao teatro. E, graças a um desses convites, pude conhecer João e com ele aprender coisas imprescindíveis sobre o amor; a lição do poeta Thiago de Mello talvez seja a mais importante delas: “[…] o prêmio do amor é apenas amar”.

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Andreia Braz

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