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Fome de Marize

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“Já faz tempo eu vi você na rua/cabelo ao vento, gente jovem reunida…” (Belchior)

Tranquiliza a alma saber que a poesia de Marize Castro tem continuidade e mantém incólumes as suas belezas e o seu viço. Por isso, corri para o salão de Nalva, lá naquela Ribeira cheia de mistérios apaixonantes, para beijar Marize e abraçar o seu novo livro – com as urgências que o caso poético requeria.

Naquela noite cheia de luzes, deste ainda dezembro de dezesseis, havia na cidade fartura de lançamentos natalinos e natalenses. Iniciei o périplo literário ali mesmo, quase que inaugurando a fila de autógrafos (que seria imensa, eu soube depois). E me emocionei diante de Marize numa mesa com bonsais e os sais delicados da sua poesia em cadernos que traziam o “Espelho mágico”, de Paul Klee, na capa. Noite com luzes. Magia farta. Tanta Marize nos ares bons e perfumados…

Continuei o percurso por uma cidade animada, após receber em mãos a bênção impressa – “A mesma fome”, Una, 2016 – e também com as letras esferográficas do autógrafo da poeta, trazendo-me augúrios suaves e autenticidades. Saí feliz do salão. Atravessei a rua enquanto o sinal da esquina me permitiu. Abri a porta do carro, satisfeito, e acomodei o livro no banco de passageiros – sabendo que aquela obra não passa, não passaria, não passará, perene que é. A obra toda de Marize é assim. Sabendo mil vezes disso, segui viagem, subindo ruas da Ribeira (que beleza o mural/painel multicolorido de Sérgio Azol na lateral da casa de Cascudo!), fazendo a curva nas curvas da Prefeitura e ingressando em outros horizontes de publicações. Ouvia no passeio das ruas as canções de Belchior em MP3, salivando de tanta poesia: “…e precisamos todos rejuvenescer…”

Estou com Marize novamente diante dos olhos, as páginas que escreveu, com essa mesma vontade de devorar Marize. O seu livro “A mesma fome” se abre voluptuosamente diante de mim, fazendo transbordar a nova canção orgástica que já se fazia demorada. Marize anuncia assim: “Chamo o secreto nome/em secreta língua/(não só a mim ele servirá)/dirão: não é poesia/(assim seja para quem o diz)/basta-me que se deixe tocar pelo sol/e depois me toque/com as mesmas vestes/o mesmo desamparo/a mesma fome.”

Restou claro o quanto a poeta me tocou novamente, eu que venho dos toques e tons e tintas indeléveis do seu “Marrons Crepons Marfins”, desde 1984 (“…como é perversa a juventude do meu coração…”, cantaria Belchior), quando as coisas divinas e maravilhosas ainda ganhavam corpo, literalmente e não. Marize dizia ali: “Teu lado vamp/desemboca nas correntezas/do meu lado sagrado. (…)”. Marize nos tocou agora, novamente, com a força da sua nova e preci(o)sa obra. E tocou, eu vi, aquelas e aqueles jovens poetas e amantes da poesia que passeavam nas calçadas e no salão de Nalva, apaixonando-se pela palavra bonita que estampa as páginas de “A mesma fome”. A fome delas e deles é a mesma de Marize, que se mostra renovada, mas com a mesma afinada voz, sem mesmices ou lugares-comuns da poesia alheia (a tudo que embeleza) e muito cansada que há por aí. Tudo o que Marize nos diz é atual. E tudo é essência. Tudo o que expressa é um sinal forte e vibrante daquilo que não se pode perder, da beleza sensual do canto poético, que é o seu canto e o que queremos seja o nosso.

Tem um poema no livro que me parece ser um fiel espelho do que hoje é Marize. Acredito que é. Mas não ouso limitar Marize a uma só. Quem ousaria? Nem ontem e nem hoje. De qualquer forma, num átimo, acho que Marize é assim, como “O milagre das coisas”: “Na via escura, uma alma clara deságua/espalha seu coração sobre o milagre das coisas./Na solitária aventura, porque conta/apenas consigo/não desiste.” Fica claro que todos continuaremos contando (e cantando) com Marize, com essa (dela e nossa) fome tão profunda, renovada e docemente incurável. Não desistiremos nunca.

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Lívio Oliveira

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