A alma “pegadora”
28 de março de 2010 às 9:59 - Comentar
À noite nas calçadas da cidade onde eu morava quando criança era costume ouvir e contar histórias de mal-assombrados, de “almas penadas”, de “coisas do outro mundo”. Eu voltava para casa “me pelando de medo”, temendo deparar-me com alguma aparição pelo caminho.
Cresci acreditando em almas penadas que ficavam a vagar por aí e em almas que habitavam o purgatório, lugar de muito sofrimento onde buscavam purificarem-se dos pecados cometidos em vida. Era costume corrente rezar pela salvação dessas almas.
Na hora mais silenciosa da noite é que os temores sobrenaturais adquiriam contornos reais. Acordava sempre com o mesmo “malassombro”. Ouvia nitidamente o abrir compassado de uma caixa de fósforos, a retirada do palito, o riscado e o barulho da pequena chama ao acender. Assim, sucessivamente até que uma mão começava a deslizar lentamente pelo punho da rede até chegar bem próxima a mim. Com o rosto atolado no fundo da rede e o coração batendo descompassado quase a saltar pela boca, eu rezava aflita de olhos fechados o pai nosso, a ave Maria e o creio-em-deus-pai… Amem! que eu repetia, repetia e oferecia para todas as almas para que descansassem em paz.
A noite se arrastava pesadamente parecendo que não ia mais acabar até que os primeiros raios de sol vencendo a escuridão descortinavam o horizonte e só então eu adormecia. A mão da alma graças a Deus nunca chegou a tocar em mim até que uma noite… Uma alma veio me visitar.
É verdade! “Menina moça”, já morando na capital fui passar uns dias na casa dos primos. Numa noite em que fazia um “calor dos diabos” e eu dormia só de calcinha, acordei sobressaltada com dedos roçando-me sob a minha única veste. Gritei assustada a tempo de divisar um vulto tênue e rápido saindo do quarto. Era uma alma! Foi uma noite de desassossego. Não consegui mais pregar o olho. Quando o sono vencia a vigília forçada, acordava sobressaltada temendo a alma voltar. Acabei indo dormir na cama junto com a mãe deles de tão apavorada que estava de medo que a alma voltasse.
Uma prima que dormia no mesmo quarto próxima a mim relatou-me que também vira a tempo o vulto de um homem saindo ligeiro do quarto quando eu gritei.
Isto tornou a coisa para mim ainda mais insuspeita: minha prima também vira “a alma”.
_ Mas, alma tarada? Nem desconfiei que alma tarada eu nunca ouvira falar…
Por via das dúvidas, a partir deste dia podia fazer “calor de rachar”, eu só dormia vestida da cabeça aos pés. _ Hmmm… Vai que alguma outra alma penada a vagar por “este mundo de Deus” voltasse para passar a mão em mim. Eu hein! Esconjuro! (dedos em cruz).


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