Galamarte
10 de maio de 2010 às 9:15 - 8 ComentáriosPara Danny (a pedidos!)
GALAMARTE
Brinquedo que estava presente em quase todas as regiões do estado e muito lembrado com uma boa dose de nostalgia por todos aqueles que com ele brincaram. O galamarte, ou galamacho (Tibau do Sul), ou ainda, João Galamarte (Florânia), consistia numa tora de pau, com mais ou menos três metros de extensão, e com um furo no meio, justamente no seu centro de gravidade. Próximo às suas extremidades, enfiava-se um pedaço de pau, que era o torno, uma espécie de suporte para as crianças se segurarem. Fazia-se uma base para recebê-lo, fincando-se no chão um pau bem resistente, geralmente pau-d’arco ou jucá, com a ponta afiada para encaixar no buraco feito na tora de pau. Essa base servia de eixo para a tora girar em círculo ou em movimento de cima para baixo, como uma gangorra.
A madeira para confecção do galamarte variava de região para região, e de acordo com a matéria-prima disponibilizada pela natureza: na região Oeste do estado, usava-se o tronco da carnaúba; na região do Seridó, a madeira utilizada era o pinhão; e, no litoral, era o galamache, árvore típica da mata atlântica. Cavalcante (2007) ressalta que o furo, para receber o eixo, era feito com ferro quente, para não haver risco de rachar.
A brincadeira consistia em girar o galamarte com duas crianças sentadas nas suas extremidades. O equilíbrio do peso, segundo Figueiredo (1966), se dava pela aproximação ou distanciamento das crianças dos extremos das hastes móveis.
Medeiros de Barros (2006), que teve sua infância em Tibau do Sul, nos fala que a brincadeira se “tornava boa”, porque ficava uma criança no meio, empurrando o galamarte, e, quando pegava velocidade, o desafio era tentar sair, sem que o pau nela batesse. Isso se tornava difícil, porque, à medida que a criança girava, ficava tonta, dificultando sua saída, já que tinha que correr em velocidade para escapar da tora. Às vezes a solução era deitar no chão para escapar, ou então, subir na tora, e ficar girando junto com as outras duas crianças. Em Florânia, o desafio era ver quem aguentava mais tempo girando. Girava-se o galamarte até uma das crianças cair tonta ou desistir do desafio. Acontecia, às vezes, de uma ou outra criança enjoar e vomitar. Assim Figueredo (1966) se refere ao galamarte:
[...] As crianças do sexo masculino brincam montadas, enquanto as meninas antigamente sentavam-se, à maneira inglesa de cavalgar. Agora, com o uso de calças masculinas entre mocinhas, todos montam-se no Galamarte, sem distinção de sexo. O brinquedo pode provocar sérios acidentes. Quando a criançada lhe dá movimento rápido demais, fora do comum, constitui verdadeiro perigo.
Usava-se carvão e sebo para diminuir o atrito da junção entre o eixo e a tora rodante, o que provocava um barulho muito parecido com os de um carro de boi. Cavalcante (2007) descreve o processo de preparação do carvão com o sebo:
[...] o melhor sebo é o de carneiro. Aí, nós pilava o carvão bem picadinho, pega o sebo e estendia [..] misturava bem misturadinho, o sebo com o carvão [...], quando acabava tacava dentro do buraco do galamarte. Aí vinha para a ponta do pião, colocava um bolão na ponta, dentro do galamarte colocava outro bolão, aí sentava em cima.
Esse rangido era muito peculiar, tanto que todas as pessoas que brincaram, fazem referência ao barulho provocado pelo Galamarte. Diziam que o “galamarte cantava”. Cavalcante (2007) lembra que na Cidade em que viveu, o rangido do galamarte era denunciador de que as crianças estavam brincando. O barulho era tão forte, que o galamarte era construído distante das casas e, mesmo assim, toda a vizinhança ouvia o barulho. Ele morava a uma distância considerável do local onde brincava com seus amigos, mas, ainda assim, o barulho do objeto lhe denunciava ao seu pai, que não queria que ele brincasse no galamarte, pois achava perigoso.
Melo, M. (1953, 104) descreve o galarmate:
Entre as brincadeiras dos meninos, há uma igualmente curiosa e interessante. É a do João-Galamarte (23). Pegava-se uma banda ou lasca de carnaúba, plainava-se por dentro, tiravam-se os nós que havia por fora, e no centro abria-se buraco a formão e a fogo. Feito isto, enfincava-se um pau preparado no chão: estava pronto o Galamarte. Os meninos montavam nas duas extremidades e começavam a rodar. Para que o Galamarte cantasse, usava-se sebo, carvão e gás.
Ainda sobre a brincadeira, havia um versinho que dizia:
João Galamarte
De pau e colher
Que vendeu a mulher
Por um dedo de mel


8 Comentários
tânia, irmãzinha, também fui menino do sertão, e
tenho também uma velha caixa de brinquedos made in angicos. o brinquedo que eu gosto mais é o que me ensina a chorar de olhos enxutos. com o rio pataxó. beijos.
Tânia, que lembrança boa você me trouxe! Recentemente, contei sobre esta brincadeira aos colegas de trabalha e nenhum conhecia. Acharam estranhos, a brincadeira e o nome: galamarte, era este mesmo que usávamos no Riacho de Santana, Alto Oeste do RN. Não sei qual madeira usávamos, pois eu era coadjuvante no processo, mas lembro perfeitamente o preparo do sebo com carvão para diminuir o atrito e o barulho. “Nosso” galamarte, lá nos anos 1970, tinha assentos: uma corda amarrada em cada extremidade e na ponta da corda (de aproximadamente 50 centímetros), um pedaço de pau do mesmo tamanho (formando um T de cabeça para baixo), onde as crianças se escanchavam para rodar.
um post-scriptum: tânia esqueci de lhe dizer, que waldick soriano
é um dos meus poetas clássicos preferidos, e também arnaldo antunes e alice ruiz. beijos.
Nossa! eu tava pesquizando sobre alguns tipos de brinquedos como Balançe em arvores, pipas, carrinhos feitos de lata, brinquedos feitos com palitos de picolé, caixas de fosforos, tampinhas de garafas, pedacinhos de madeira e outras coisas que todas as crianças do meu tempo nos anos 90 costumavam brincar, e derrepente eu me lembrei que uma vez meu pai fez um GALAMARTE no quintal da minha casa, tudo foi por que um parque de diversão havia chegado na cidade para as festas do padroeiro, e eu juntos com os meus irmãos e as outras crianças da minha rua eramos todos fascinados para ir todos as noites brincar no parque, o nome era parque Santa Luzia, dias apos a festa do padroeiro ser encerrada todos ficamos tristes ao saber que o parque havia ido embora, então meu pai resolveu fazer o GALAMARTE para a gente brincar, ele fez somente para eu, minha irma e meu irmão, so que era tão divertido que todas as crianças da rua e amiguinhos da escola tambem vinha brincar com a gente, era super divertido, so que uma vez uma a minha prima Rita de cassia caiu e se machucou, então meu pai resolveu desmontar o nosso fantastico brinquedo giratório.
Isso foi em meados dos anos 90, por volta de 1993.
Saudades!
Tem coisas que nos fazem voltar no Túnel do tempo.
Antõnio Martins- Rio grande do Norte
Ah que Saudades!
Belissimo brinquedo, na minha infância passava a maior parte do meu tempo brincado. Era um brimquedo muito pazeroso, fico triste em não mais ver outras crianças tê-lo como brinquedo no mundo de Hoje.
O galamarte era o nosso brinquedo preferido no nosso sitio em Florania,feito de favela e botava-mos sebo e carvão para o bicho zuar.e bom lembrar estas coisas que talves hoje não exista mais.
Não só briquei, na região do Cariri-Ceará, prexisamente no hoje Município de Tarrafas, desmembrado de Assaré, como fabriquei alguns para brincar e ficar tonto com vários colegas da ápoca.
Em certa aocasião, encontrando-me no Sítio Guaribas-Tarrafas, resolvi montar um para brincar nas férias com amigos (todos crianças de até 10 anos de idade). Rsolvi de foice em punho adentrar numa pequena marta (aind ahvia mata!) e cortei um tronto de Sabiá e a parte maais longa de Marmeleiro. A fabricação era realmente na forma desxrita acima. Estava sozinho a cerca de 300 metros da casa de minha Avó materna. Ao cortar a ponta da madeira de maior extensão, a foice que para mim era muito pesada, ao desfechar o golpe para retirar a ponta mais fina da madeira maior( Marmeleiro) acertou-me o maior da mão esquerda. Apareceu um vínculo braanco. Soltei a foice e fiquei a olhar o meu dedo que estava muito branco. Fiquei a olhar e começaram aparecer pintinhas vermelhs que foram aumentanto, aí identifiquei que era sangue. Olhei o dedo e coro estava todo engilhado na parte de baixo, Juntei e apertei para cima, tentando recompor. Entre a primeira e segunda junta do dedo (falanges). Desci a seera em desparada, segurando o coro do dedo tentando estancar o sangue. Imaginem que num sítio nos anos 40, o que poderia existir para extancar sangue e curar um golpe de cerca de um centímetro? Pó de café e pedaço de pano. ainda hoje carrego a marca no dedaõ da mão esquerda.
“O Galamarte assassino”
Obrigado pela lembrança
Alencar
Eu também briquei com este brinquedo na casa dos meus avós maternos na Fazenda Bom Jardim, a 160 quilometros de Petrolina – PE.
Voces têm uma foto deste brinquedo? Obrigada, Zelia