A garota do Face

Tácito Costa
DestaqueLiteratura

“O amor tem a força das correntezas,
que correm vorazes, para desaguar
nos braços do oceano sem fim”.

Com esses versos finais do poema “Correntezas do Amor”, do seu único livro de poesia, “Incertas Correntezas”, e a frase: “Você é o meu oceano. Estou chegando, amorzinho!”, Sóstenes Macedo, encerrou a mensagem no Facebook para Raquel de Melo.

No instante seguinte veio a resposta: “Venha condoreiro amado, meu pequenino coração bate em disparada e meu corpo está em chamas”.

Já era quase meia noite da sexta-feira e o poeta não estirou muito a conversa porque embarcaria no dia seguinte para Recife. Conhecera Raquel no Facebook. Paquera, namoro virtual e, finalmente, chegara à ansiada hora de conhecê-la pessoalmente. Sonhara muito com essa viagem.

À mulher, disse que fora convidado para participar de uma mesa no Encontro Recifense de Literatura, na livraria Cultura.

Nos últimos dias a expectativa não o deixou dormir direito. Arquitetou mil e uma situações para este primeiro encontro. Como ela estaria vestida? De vestido, saia, calça? Cabelo preso ou solto? Ele preferia mulheres de vestido e insinuou isso em um post. “Ficam mais elegantes e sensuais”.

Foi um dos meses mais intensos da vida do poeta. Passava cerca de três horas por dia falando com a “musa do Capibaribe”, como passou a chamá-la.

Esqueceu os sucessivos reveses sentimentais em Natal. Tinha a capacidade de renascer a cada fracasso. Quando se encontrava numa fase ruim costumava dizer: “Amor e dinheiro não gostam de mim”.

Mas aos primeiros sorrisos e promessas de um novo amor se enchia de esperança e expectativa. Em alguns momentos, somente controlava a ansiedade com remédios controlados. Era ansioso de nascença.

Andava preocupado. As conquistas escassearam. Talvez os cabelos brancos, que começaram a aparecer há uma década estivessem pesando. Tornara-se comum, nos mais variados lugares ser chamado de ‘senhor’. Recentemente, a moça da bilheteria do cinema perguntara se o ingresso era ‘meia’. “Não jovem, ainda estou na casa dos 50”, respondeu bem humorado.

Agora, que surgira uma oportunidade real não poderia desperdiçá-la. Não seria a distância entre Natal e Recife que impediria o encontro.

Era pioneiro na busca por um amores à distância. Começou com o Disque Amizade, no tempo da Telern. Com a Internet, fez perfil no Orkut, no Badoo e depois nos sites de relacionamento Par Perfeito e Clube da Maturidade. Também apostara no evangélico Divino Amor, cujo lema era “converse com pessoas de fé e encontre o amor que Deus reservou para você”.

Aos 51 anos, Sóstenes Macedo alcançara certa projeção. Menos por mérito literário. Mais pelas relações com as ‘pessoas certas’ nos órgãos ligados à cultura e à política. “Incertas Correntezas” era ruim de correr água. Também lançara a coletânea “Jovens Poetas dos anos 1980”, que ‘esqueceu’ alguns nomes que não poderiam ficar de fora, o que rendeu polêmica e inimizades. O ‘imortal’ Vaidônio Augusto chegou a ameaçá-lo, por e-mail, com um processo. Para se livrar das críticas, prometeu incluir todos os reclamantes na segunda edição da obra.

Escrevia na imprensa, no site Substantivo Plural e tinha uma pequena editora. Artigos que pareciam ter sido escritos por crianças. Mas se achava o máximo. Ficava sentido quando não era incluído nas mesas dos eventos culturais. Chegou a pedir audiência ao prefeito para criticar a ausência do seu nome na mesa do VII Encontro de Mamulengos.

Presidia havia 15 anos a Federação Estadual de Letras e Afins (FELA-RN). Famosa pela briga acirrada com a congênere do Amapá, com quem disputava a fama de reunir a maior quantidade por metro quadrado de maus poetas. O seu sonho era presidir a Confederação, mas o máximo que alcançara fora a terceira secretaria da entidade. Usava a Federação para projetar-se e disso não fazia segredo.

Bacharel em Direito, tinha um cargo comissionado na Assembléia Legislativa. Era lotado no gabinete do deputado Ariovaldo Batista. O cargo de Assessor Técnico para Assuntos Aleatórios lhe garantia salário bem acima da média do funcionalismo. Aparecia raramente no emprego. “Estou em sintonia com as novas tecnologias, que criaram formas inéditas de trabalhar”, dizia para quem questionava sua ausência da Assembléia.

Era uma figura reconhecível à distância. Andava sempre de paletó xadrez, gravata amarela, um broche da Quinta Loja Maçônica Independente Potiguar na lapela e um guarda chuva, independente do tempo que fizesse. Indumentária que lhe dava um ar de excentricidade ou loucura, dependendo de quem o conhecesse.

A militância cultural mantinha-o em contato com os jovens talentos literários. Notadamente, as poetas. Era conhecida sua tática de convidá-las ao final da tarde para falar sobre poesia e edição na cobertura do Hotel Dunas, no centro, próximo ao Memorial Câmara Cascudo, de onde se se avista o Potengi e um dos mais belos pores-do-sol da cidade.

Eu ouvi mais de uma vez essas histórias de sedução ocorridas no Dunas. Mas achava que eram boatos, maledicências. No dia do lançamento do livro do escritor Juarez Azevedo, no Salão Café Nalva Melo, na Ribeira, a poeta Cacilda Gomes atestou que ela própria fora vítima das investidas de Sóstenes.

Combinaram de tomar um chope na cobertura do Dunas para discutir o livro que ela lançaria em breve. Pretendia pegar dicas sobre o projeto gráfico e custos. Depois de umas oito cervejas, Sóstenes tentou beijá-la e depois agarrá-la. Em pânico, ela fugiu. Na confusão não achou o elevador e desceu correndo os quinze andares do hotel. Em um dos andares, mal iluminado, tropeçou no balde do lixo e estatelou-se no chão. Descabelada e com a mão sangrando passou pela portaria voando. Pegou o primeiro ônibus que estava na Parada Metropolitana. Foi parar em Ponta Negra. Morava em Cidade Satélite.

“Aquilo é um tarado”, disse-me Cacilda, que deixou de falar com ele.

Era certo que Lumênia, mulher de Sóstenes, sabia das aventuras amorosas do marido. Estava tudo muito na cara para ela não perceber. Principalmente quando ele se apaixonava, muitas vezes platonicamente. Nesses momentos ficava siderado e generoso. Presenteava com flores, lingeries, jantares, perfumes e até celulares caros. O que ninguém entendia é como ela aguentava tudo isso.

A viagem ao Recife para o encontro com Raquel não era a primeira em busca de uma aventura incerta e com alto risco de malogro.

Anos antes, quando trabalhou no escritório Xavier e Nunes Advogados Associados, conheceu uma estagiária, que fazia Direito na UFRN, e apaixonou-se perdidamente. Programaram o carnaval na praia de Zumbi, no litoral Norte. Ela seguiu na frente para organizar a casa alugada para a temporada. Naquela época a estrada para Zumbi tinha um trecho difícil, invadido pela areia das dunas próximas. Ele seguiu no dia seguinte depois do almoço, mas o carro atolou no areal. Salvou-o a ajuda de um grupo de pescadores. Só conseguiu chegar na praia à noite. Teve uma recepção fria e mais tarde entendeu o porquê. Marieta encontrou um ex-namorado e não quis saber dele. No outro dia bem cedo, alegou uma arritmia, arrumou as coisas e retornou a Natal. Na volta ao trabalho, procurou saber por uma amiga comum a razão da traição. “Ela me disse que não prometeu e nem se comprometeu em nada com você. Você que confundiu as coisas”.

Mas, tudo isso eram águas passadas e devidamente esquecidas.

No Facebook, Raquel informava que tinha 40 anos. Era professora, com doutorado em Antropologia, na UFPE. Separada, morava em Boa Viagem, na companhia de seus dois filhinhos, Nino e Nina, casal de gatos que ela amava acima de tudo. Adorava o Maracatu, que, inclusive, havia sido o tema da sua tese de doutorado.

Não era assídua no Facebook. Alegava muito trabalho, dando aulas e orientando mestrandos. Também tinha poucas fotos no perfil. Mas as poucas que existiam mostravam uma mulher exuberante, que lembrava Vera Fischer na juventude.

A beleza foi assunto de posts entre os dois uma semana antes do encontro. No poema “Tigreleza”, Sóstenes enalteceu a beleza de Raquel:

“Tigreleza, rainha do maracatu,
crave sem dó suas garras em mim.
Tatue com elas nossa história de amor.
A vida é bela, a beleza efêmera, a eternidade longa.
O Recife me deu você e Bandeira.
Não falta-me mais nada”.

Como sempre, Raquel minimizava os elogios.

“Amado, o que importa é a conjunção espiritual, a beleza física é fugaz e perecível”.

Sóstenes planejou minuciosamente a viagem. Reservou duas diárias no Hotel Boa Vista, no Centro. Chegaria em Recife por volta do meio dia do sábado e retornaria a Natal no domingo às 18 horas.

Chegou a insinuar-se para ficar no apartamento de Raquel, em Boa Viagem, mas ela descartou. Era muito cedo, Nino era muito ciumento e poderia estranhar, uma adaptação se fazia necessária. Em outras oportunidades, isso seria avaliado, levando em conta as reações de Nino e Nina.

A programação combinada entre os dois começaria no sábado à tarde, na livraria Cultura. À noite, iriam ao bar Cais do Mundo, também no Recife antigo, e depois para o hotel, para “uma noite de amor romântica, sublime e inesquecível”, como grafou o poeta em um dos posts.

O encontro na livraria estava programado para às 16 horas. Sóstenes chegou uma hora antes. Ficou olhando os livros, CDs, DVD’s e com os olhos na porta.

Por volta das 16h20 uma mulher que lembrava Raquel entrou na livraria. Ele pensou que se tratava da mãe, que sua musa entraria em seguida. Mas não estava combinado de ela chegar com ninguém. O desconserto foi aumentando à medida que a mulher caminhava em sua direção.

“Oi, Sou a Raquel! Você é o meu condoreiro amado?

“Sim, o próprio.

Como foi de viagem, meu bem?

Tudo em paz, querida. E você, como está? Vamos procurar uma mesa para sentar”.

Por mais que se esforçasse Sóstenes não conseguia disfarçar a decepção. Onde estava a bonitona das fotos? A mulher que apareceu estava mais para a mãe de Raquel.

Sentaram. Ele pediu um expresso grande, que tomou sem açúcar para ver se recobrava a serenidade e pensava em alguma saída. Não era a primeira vez que caia em uma cilada de amor. Era se acalmar, botar a cabeça para funcionar que a solução apareceria.

Com a cabeça a mil, prestava pouco atenção no que Raquel falava. E ela não parava de falar. Estava feliz com o encontro, mas apreensiva porque Nino estava adoentado. Deixara o bichinho muito abatido no apartamento. Passara o dia sem comer, vomitando. “Meu amor, me perdoe, minha cabeça está aqui e em casa”. Prometeu que aquele era apenas o primeiro de muitos encontros. Estava até pensando de ele vir morar em Recife ou ela transferir-se para Natal. “Só não sei se Nino e Nina se adaptariam, mas podemos tentar”.

Os minutos não andavam. “O relógio do mundo parou?” Perguntou-se o poeta. Em que fria ele fora se meter. Mas já tinha uma estratégia em vista.

Em pouco mais de uma hora que estavam na livraria pediu para ir ao banheiro três vezes. Cada vez que retornava fazia uma careta, como se estivesse sentindo muito dor.

“Meu amor, não estou me sentindo bem, acho que o almoço do restaurante, que fica vizinho ao hotel, não me fez bem. Vamos passar em uma farmácia para comprar um Diarresec. Depois vou descansar no hotel. Hoje estou mal, me perdoe. Amanhã a gente se encontra”.

“Não é melhor a gente ir num Pronto Socorro amorzinho? Agora, fiquei preocupada”.

Não, não, vai passar. Amanhã estarei zerado”.

“Tá certo, é uma pena, estava com mil planos para hoje à noite”.

“Não se preocupe, flor, prometo que a compensarei por hoje”.

“Tá certo, não se preocupe, não fiquei chateada, por um lado é até bom porque assim posso voltar logo e ver como Nino está”.

Saíram da livraria e ele pediu ao taxista para deixar primeiro ela. Depois rumou para o hotel.

Pediu para fechar a conta. O gerente estranhou, as duas diárias já estavam pagas, como é que ele iria embora, se mal tinha chegado.

“Não estou me sentindo bem, acho que é uma crise hipertensa. Vou à rodoviária arriscar uma passagem para Natal, tem um ônibus que sai por volta das 20 horas”.

Fechou a conta, pegou outro táxi. Até aquele instante a despesa total já passava dos 500 Reais.

Pediu ao taxista para acelerar no rumo da rodoviária. Teve relativamente sorte. Ainda havia uma cadeira vaga no ônibus das 20 horas. Em frente à toalete, o pior lugar para se viajar. Não contou conversa, embarcou sem pensar.

O motorista do ônibus tentou consolá-lo.

“Em João Pessoa descem muitos passageiros e você pega um lugar melhor”

“Beleza, amigo. Eu mereço ir até São Paulo”.

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Tácito Costa

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