A Gata borralheira das letras

Ana Cláudia Trigueiro
LiteraturaMais

O tanque cheio em uma manhã de molhos, enxagues e roupas no varal.

E a história dentro da sua cabeça pedindo pra ser escrita.

Ensaboa, esfrega, põe pra quarar, e a história insistindo.

Enxagua, torce, estende (sol a pino) e a história implorando.

O vestido de algodão, já úmido, ventilando a quentura.

O suor abundante, orvalhando as maçãs do rosto.

As mãos enrugadas pela água, castigando a roupa.

Mãos fortes de lavadeira, veias saltadas de escritora.

“Esmeralda está em dúvida, sobre casar ou continuar os estudos, porque o noivo ciumento já avisou que vai proibi-la”. Escrevia um conto sobre a filha da quitandeira que encontrava aos domingos.

Poeira e fios de cabelo enroscando-se na vassoura.

Um casarão pra varrer e o livro pela metade.

Três banheiros sujos, mais água, mais produtos de limpeza,

Mais dedos enrugados, mais horas perdidas.

E as histórias esperando para serem criadas,

E os romances ansiando por serem lidos.

A massa do pão grudando nas mãos,

mais farinha, mais sova, mais farinha, mais sova. Pronto, forno.

E os poemas no livro, loucos para comoverem.

Alta noite aplacou sua ânsia: terminou de escrever a história, leu mais páginas do romance, chorou com as poesias. Lágrimas de quem não consegue bater asas. Poucas esperanças de ampliar aquele mundo úmido, empoeirado e grudento de massa de pão. O vestido sujo de borralho do fogão a lenha, jamais faria supor uma escritora.

A velha que morava na casa ao lado e lhe emprestava livros, uma tarde veio ao seu quarto. “Hoje vai ter um baile na Academia, ela vai tomar posse como imortal”. “Ela” era a autora dos mais lindos romances que já lera. “Você precisa ir. É sua chance de conhece-la”. “Mas não tenho roupa, sapato, jeito, palavras”. “Você não tem histórias? É o que basta”.

A vizinha emprestou o vestido rodado, as sandálias Anabela e a bolsa dos seus tempos áureos, de modo que a borralheira ficou parecendo uma professora do Atheneu. E se foi, enquanto os patrões teimavam em não compreender o que diabos uma borralheira faria na academia de letras.

Chegou atrasada. Todos já se encontravam no salão, de forma que sua entrada não passou despercebida. Quem seria aquela moça elegante? Vinha da literatura, das artes plásticas ou seria uma musicista? Intelectual, certamente.

A acadêmica de cabelos brancos a viu. Mas foi mesmo que não ver. Não prestou atenção. A borralheira embevecida, caminhou pelo chão atapetado e parou diante de um busto de Pablo Neruda, arregalando os olhos de espanto. Depois espreitou pelos cantos da câmara iluminada, aplaudindo cada novo ilustre apresentado. Lera todos eles, admirava-os. Adorava-os.

À meia-noite lembrou que precisava ir embora. O último bonde já havia passado. Voltaria à pé. Correu para a porta, mas antes de sair, lembrou da pasta que levara. Foi até a romancista, agora imortal, e entregou sem explicações, sua coletânea de histórias, que nem ousava chamar de contos. O que diria? Não saberia falar com a erudição necessária. Aquela era uma imortal. Uma mulher além das demais. Só fez entregar meio que abruptamente e sair correndo, envergonhada.

Semanas depois a acadêmica foi até a casa dos patrões. Queria encontrar a escritora que conseguia descrever com conhecimento de causa, o cotidiano de uma mulher pobre, dividida entre seus sonhos e seu destino. Nem se deu ao trabalho de experimentar nos outros moradores o enredo dos contos. Aquelas narrativas de suor, sofrimentos e anseios, só cabiam na gata borralheira das letras.

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Ana Cláudia Trigueiro

Comentários

2 comments

  1. Andreia Braz
    Andreia Braz 9 março, 2018 at 12:08

    Que delícia de texto, Ana Cláudia! Termino a leitura do seu conto com uma certeza: a literatura é mesmo uma forma de libertação. Obrigada por nos presentear com uma narrativa tão singela. Que vc continue brindando seus leitores com histórias como essa, cheias de lirismo, delicadeza, força e verdade. Sou sua fã e quero prestigiar muitos lançamentos e merecidas premiações suas…

  2. Jerônimo Dix-sept Rosado Maia Sobrinho 11 março, 2018 at 08:57

    Parabéns Ana Cláudia. Pelo Dia da Mulher que passou. Por mais este belo texto. Todo dia é dia da mulher, afinal. Todo dia parabéns.

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