Guerras Culturais

3 de maio de 2010 às 21:45 - Comentar

Por Umberto Eco
The New York Times/UOL

Enquanto discutiam o novo livro de Frédéric Martel, “Mainstream”, em uma edição recente do jornal italiano “La Repubblica”, Angelo Aquaro e Marc Augé retornaram a uma questão que desponta com muita frequência, mas sempre por novos ângulos –a distinção entre alta e baixa cultura. É claro, um jovem que atualmente escuta indiscriminadamente Mozart e música folk pode considerar isso irrelevante. Mas vale a pena apontar que o assunto era quentíssimo há meio século. Em 1960, o crítico cultural americano Dwight Macdonald escreveu um ótimo ensaio intitulado “Cultura de Massa e Cultura Média”, no qual identificava não apenas dois, mas três níveis de cultura.

Macdonald argumentava que Joyce, Picasso e Stravinsky representavam a alta cultura, enquanto os filmes contemporâneos de Hollywood, o rock e as capas da revista “The Saturday Evening Post” (muitas de autoria do pintor americano Norman Rockwell), definiam a “cultura de massa”. Mas Macdonald também identificou um terceiro nível cultural, a “cultura média”, que ele associou aos produtos de entretenimento que tomavam emprestado alguns estilos da vanguarda, apesar de permanecerem basicamente kitsch. Entre os exemplos passados de cultura média, Macdonald listou a obra do pintor vitoriano nascido na Holanda, sir Lawrence Alma-Tadema, e o dramaturgo francês da virada do século, Edmond Rostand. Quanto aos artistas de cultura média de seu próprio tempo, Macdonald apontava para Ernest Hemingway em seu período final e o autor americano Thornton Wilder, cuja peça de 1938, “Nossa Cidade”, ganhou o Prêmio Pulitzer. Muito provavelmente, Macdonald poderia ter acrescentado W. Somerset Maugham, Sándor Márai da Hungria e o sublime e prolífico romancista de origem belga, Georges-Joseph-Christian Simenon. (Macdonald teria classificado os romances de detetive de Simenon, contendo o inspetor de polícia Jules Maigret, como cultura de massa, e as obras de Simenon sem Maigret com sendo cultura média.)

A divisão entre cultura popular e alta cultura não é tão antiga quanto as pessoas pensam. Augé cita no La Repubblica o funeral do autor francês Victor Hugo, que contou com a presença de centenas de milhares de pessoas (a obra de Hugo era cultura média ou alta?), enquanto as tragédias de Sófocles eram desfrutadas até mesmo pelos vendedores de peixe de Pireu. Assim que foi lançado, o romance de Alessandro Manzoni do início do século 19, “Os Noivos”, teve várias edições, um sinal claro de sua popularidade. E não vamos esquecer da famosa história do ferreiro cantor, que misturava os versos dos poemas de Dante, o que enfurecia o poeta, mas também revelava que até mesmo os iletrados conheciam sua obra.

É verdade, na Roma antiga as pessoas abandonavam as apresentações das peças de Terêncio para ir ao circo e assistir aos ursos. Mas mesmo em nossos tempos, intelectuais de renome já deixaram de ir a concertos para assistir a um jogo de futebol. O fato é que a distinção entre dois (ou três) níveis de cultura geralmente fica clara apenas quando a vanguarda histórica provoca deliberadamente a burguesia ao celebrar a não clareza ou a rejeição de uma apresentação como valores artísticos.

Esta ruptura entre alta e baixa cultura aconteceu em nossos tempos? Não. Compositores clássicos do século 20, como Luciano Berio e Henri Pousseur, levavam o rock muito a sério, e muitos músicos de rock sabem mais sobre música clássica do que alguém pensaria. O estouro da pop art na metade do século subverteu as hierarquias culturais tradicionais: hoje, o prêmio por ilegibilidade vai para algumas histórias em quadrinhos extremamente obscuras (o que atualmente chamamos de “graphic novels” (romances gráficos)), enquanto muitas trilhas sonoras de filmes spaghetti Western são consideradas música de concerto. Hoje, basta você assistir a um leilão televisionado para testemunhar pessoas que alguns chamariam de “não sofisticadas” (no meu entender, qualquer pessoa comprando uma pintura pela televisão não é membro da elite cultural) comprando telas abstratas, de alta arte, que seus pais teriam desdenhado como pinturas pintadas pelo rabo de uma mula. Como colocou Augé: “Entre a alta cultura e a cultura de massa sempre há uma troca subterrânea, e com muita frequência a segunda alimenta a riqueza da primeira” (e, eu acrescentaria, vice-versa).

No mínimo, a distinção moderna entre os níveis culturais mudaram de um foco no conteúdo ou forma de uma certa obra para o modo com que ela é desfrutada. Em outras palavras, não há mais diferença entre Beethoven e “Jingle Bells”. A música de Beethoven, que atualmente foi reimaginada como muzak de elevador e uma série de ring tones, é desfrutada sem a atenção consciente do ouvinte (como o crítico cultura Walter Benjamin teria colocado), e portanto passa a lembrar um jingle publicitário. Por outro lado, um jingle criado para uma propaganda de detergente pode se tornar tema de análise crítica, e ser apreciado por seus aspectos rítmicos, melódicos e harmônicos.

Mais do que a obra de arte em si, o que mudou é nossa abordagem em relação a ela. Aqueles com um ouvido desatento podem escutar Wagner como uma trilha sonora de um reality show, enquanto aqueles com gostos mais refinados podem se recostar e desfrutar de “Tristão e Isolda” por seus méritos próprios, mesmo em ancestrais discos de vinil.

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante