O evangelho segundo Oskar Matzerath

Bruno Rebouças
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O tambor.Günter Grass

O Nobel de literatura Günter Wilhelm Grass (1927-2015) e seu realismo mágico alemão geraram uma série de livros clássicos, como este O Tambor, quase didáticos para conterrâneos

As bombas aliadas caíam sobre a Alemanha. As ruas estavam cobertas de sacos de areia, barreiras antitanques, trincheiras abertas.

Nem a eficiente propaganda nazista conseguia esconder que a vitória final não viria mais. A expedição russa dizimou vários batalhões, no dia D a guerra já estava ganha.

Os aliados rodeiam o país.

Oskar entra em uma igreja com seu tambor vermelho e branco na barriga. Vai até Jesus como fizera anos antes; retira o instrumento por cima da cabeça e mais uma vez põe no menino.

Cuidadosamente deposita o tambor na coxa rosada do Jesus de gesso, satisfeito. Oskar desafia Jesus não esperando um milagre, mas apreciando a impotência do filho de Deus.

“Porque, ainda que se sentara ali com os punhos no alto, ainda que tivera meu tamanho e minha robusta complexidade, ainda que representara em gesso e sem esforço àquele menino de três anos que a mim me custava tanto esforço e tantas privações manter… Não sabia tocar o tambor, somente podia fingi-lo, pensando provavelmente: se o tivera, poderia, e eu disse: agora tens e assim mesmo não podes”.

Oskar se dobra de rir; desafia Jesus a tocar o tambor como ele faz com maestria.

“Toca agora docíssimo Jesus, gesso pintado, toca o tambor”. Retrocede, “toca o tambor menino”, segue descendo. Jesus está sentado, não sabe tocar o tambor.

Desce do altar. O tédio começa a roer a Oskar Matzerath, o menino que aos três anos se recusou a crescer por desprezar a sociedade pré-nazista.

E então ele golpeou, Jesus tocou o tambor. Primeiro com uma baqueta, depois com as duas. Tocou magistralmente o repertório de Oskar, que mede 94 centímetros, como o menino de gesso rosado.

Oskar se desespera e pede seu tambor de volta, enciumado: “Já tens tua cruz. Deveria bastar-te”.

Começa a sair da igreja. As ruas estão escuras para dificultar os alvos dos bombardeios agora constantes.

Então Jesus pergunta: “Me amas, Oskar?” “Não que eu saiba”, responde. “Me amas, Oskar?”. “Sinto muito, mas nenhum pouco”. “Me amas, Oskar?”. Sai sem responder e, assim como Pedro, Oskar negou Cristo por três vezes.

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Fundada em 1158 por Henrique, o Leão, e Patrimônio Histórico da Humanidade, Lübeck é cenário de “O tambor” e foi onde Grass morou e morreu. Fotografia: Beatriz Garcia.

O realismo mágico de Günter Grass

Ao terminar O Tambor, a obra magistral de Günter Grass, concluí que ela é adicta do realismo mágico que, de fato, nasceu na Alemanha.

O realismo mágico é uma resposta sul-americana ao europeu, cujos fatos surreais superam a realidade cotidiana.

A obra de Grass é fundamental e a primeira da trilogia de Danzig (O gato e o rato e Anos de cão, com versões em português).

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O Tambor abre trilogia sobre juventude de classe média baixa de Danzig

A autobiografia de Oskar Matzerath vai do final dos anos 1920, e percorre a ascensão e queda do nazismo. Mostra o sofrimento de civis alemães durante a guerra, ignorado por nós, aliados, na literatura e no cinema.

Genial, forte e arrebatadora, a história de O Tambor é uma das mais marcantes e impactantes que li nos últimos tempos.

Gabriel García Márques se inspirou em Grass, Nobel de Literatura de 1999, para escrever Cem anos de solidão.

Aos três anos, Oskar ganha um tambor do pai, ao mesmo tempo em que decide manter seu tamanho. O pequeno Matzerath incorpora o tambor ao corpo. Tirá-lo é impossível, pois Oskar tem um poder: sua voz.

E é com ela que quebra vidros e vidraças em Danzig, atual Polônia, e Lübeck (Alemanha), onde se refugia depois da Guerra.

Aperfeiçoando seu poder, Oskar quebra vidraças de lojas para satisfazer com joias e apetrechos os que ficam iludidos diante delas.

É através desse poder que Oskar entra em uma gangue rival das juventudes hitleristas e financia a causa com assaltos orquestrados por gritos surdos.

Ao mesmo tempo em que é um dos mais simpáticos personagens da literatura, Oskar é cruel e sagaz. Oculto e voyeur, sensível, sombrio e generoso, ele é o retrato do entre guerras. E conta o sofrimento civil de uma nação invadida e humilhada.

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Assim justificou a Academia sueca ao lhe conceder o Nobel em 1999: “que, com vivas fábulas negras, desenhou o rosto oculto da história”.

Inauguração da moderna literatura alemã

É a obra de Günter Grass mais famosa e que marca seu comprometimento histórico, em não só descrever, mas explicar e expor a sociedade alemã do pós I Guerra, a sede de revanche e superioridade do nazismo.

Para muitos, é a partir de O Tambor, que a literatura alemã moderna é inaugurada.

O poder de Grass está em descrever uma simples pesca até momentos de pura excitação e emoção, como o cerco nazi ao Correio polonês, onde Oskar e seu tio (talvez pai) estão.

É na honra de uma derrota ou o sabor da quase vitória que o leitor se vê mesclado com tantos outros poloneses, saindo frustrado e de mãos ao alto, vendo corpos ensanguentados sobre cartas que absolvem a vermelhidão do massacre.

Como muitas famílias alemãs, Oskar perde a casa, invadida por russos, a tenda de legumes do pai e todos os pertences, como se as casas dos milhões de civis fossem parte do botim de guerra.

Em uma larga viagem de trem, passageiros são assaltados por aliados em cada parada. Oskar chega à Lübeck com sua ex-baba, ex-amor e amante, nessa altura madrasta, encontrando mais dois músicos melancólicos que formam uma banda, contratados pelo restaurante Bodega das Cebolas.

A incapacidade de chorar

Na bodega, a banda de Oskar tem a missão de reanimar clientes após esses descascarem cebolas. Após a Guerra e a reconstrução da Alemanha dominada pelos aliados, a sociedade é incapaz de chorar.

É na bodega das cebolas que a média e alta sociedade pós-guerra descasca cebolas e chora com a lembrança de derrotas e filhos mortos.

Após descascar toda a cebola, Oskar e sua banda os animam e os conduzem para fora do restaurante como sonâmbulos (zumbis definiria melhor), que voltam às suas vidas normais menos frustrados e insensíveis.

O episódio, e outros tantos, colocam O Tambor no gênero mágico que tanto somos fãs, com a pintada cínica e mordaz de um escritor que descreve a versão mais egoísta, cruel e incompreensível da humanidade.

Günter Grass foi gigantesco nesse quesito. Assim justificou a Academia sueca ao lhe conceder o Nobel em 1999: “que, com vivas fábulas negras, desenhou o rosto oculto da história”.

O tambor.6O evangelho segundo Oskar Matzerath

Ao sair da igreja com seu tambor vermelho e branco, após Jesus provar que sabia tocá-lo, Oskar acredita que é o representante do menino Cristo na terra.

Sai caminhando por Danzig na escuridão, saltando barreiras e sacos de areia, passando por debaixo da perna de soldados das SS até encontrar a gangue anti-hitlerista, de quem vira líder.

Algum tempo depois, ao tentar fugir de uma acusação, é detido no final de uma escada rolante. Ao se apresentar à polícia internacional, diz: “Eu sou Jesus”.

Sua vida e obra se resumem assim:

“Nasceu sob lâmpadas, interrompeu intencionadamente seu crescimento a idade de três anos, recebeu um tambor, destruiu vidros cantando, cheirou baunilha, tossiu em igrejas, alimentou a Luzie, observou formigas, decidiu crescer, enterrou seu tambor, se dirigiu ao Oeste, se perdeu para o Leste, aprendeu a ser marmorista e posou como modelo, voltou ao seu tambor e visitou as trincheiras na Normandia (onde estava na invasão do Dia D), ganhou dinheiro e guardou um dedo, presentou o dedo e fugiu rindo, subiu aos céus, foi preso, condenado e entregado, e pronto será absolvido, celebrarei hoje meu trigésimo aniversário… Amém”.

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Bruno Rebouças

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