Gus Van Sant nos labirintos das imagens

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

Li em algum lugar e tempo não muito distante que, quando não está a olhar para os festivais, Gus van Sant realiza filmes não menos marcantes, mesmo que não tenham a famigerada etiqueta de “filme de arte”/ “cinema de arte” que, muitas vezes, não diz muita coisa ou quase nada.

Tanto quanto “Elefante” (2003) e “Últimos Dias” (2005), “Terra Prometida” (2012) tem suas qualidades. Um filme que pertence a esse lado mais azul da obra de Gus van Sant, onde uma imagem não, necessariamente, corresponde ao que representa; o representado não corresponde sempre a realidade; e o que pensamos ver e saber não exatamente são carregados de verdades ou mentiras.

Nessa “Terra Prometida”, que conta a história de Steve Butler (Matt Damon), que, ao chegar a uma pequena cidade do interior dos EUA, para comprar as pequenas propriedades dos agricultores locais, promete que, do subsolo daquelas terras, jorrará toda a riqueza do mundo, Gus van Sant nos coloca em constante desequilíbrio frente ao valor representativo da imagem, como se suas lentes focassem para além da superfície, do que se apresenta em primeiro plano.

Nesse sentido, o que víamos, juntamente com toda aquela comunidade, não correspondia ao que pensávamos saber diante do que era mostrado. O mundo visual – com o que permitia de visibilidade e invisibilidade – assim era colocado em crise e suspeição.

O momento chave acontece justamente quando o personagem de Damon vê que a imagem do cartaz que denuncia sua empresa estava manipulada: erguida pelas mãos de um anti-herói, que, ao ingressar na comunidade, trazia consigo toda a verdade em uma imagem – mas cujo valor representativo se mostrou real, falso e depois real, mudando de perspectiva pelo menos três vezes.

Esse projeto de imagem já estava dado desde a abertura. Em um filme comum, com dois homens conversando em volta de uma mesa de restaurante (frente à frente), o plano/contraplano construiria toda a cena, como, comumente, faz em um diálogo com a montagem intercalando os rostos dos personagens em diálogo na tela – mostrando, ora um dos interlocutores, ora o outro no campo da imagem.

Mas, no espelho ao fundo, que reflete o conjunto da cena e, de uma só vez, os dois personagens, Van Sant nos permite ver para além da imagem – da sua superfície, do que se apresenta em primeiro plano. Permite-nos, portanto, contemplar o mundo visível de forma total. Ledo engano, pois todo o filme, que nos prometia ver mais do que o que nos apresentava de imediato, escondia a verdade debaixo de camadas que precisaram ser reveladas.

Percepção visual que, além de errônea, era endossada e induzida, desde o início, por aqueles planos gerais aéreos que, aparentemente, mostravam de uma só vez aquela comunidade agrícola com suas paisagens, celeiros, casas e estradas vicinais.

Gosto de olhar para “O Mar de Árvores” (2015), o último filme de Gus van Sant, da mesma forma que olho para “Terra Prometida”, cujo projeto de imagem não é muito diferente. Vaiado nos festivais mundo afora e pela crítica especializada, “O Mar de Árvores” tem o personagem de Matthew McConaughey deixando os EUA rumo a Tóquio, Japão, sem qualquer explicação, como se atrás de si deixasse também um mundo em ruínas, do qual pretende se livrar ou esquecer.

A falta de atenção logo na entrada do aeroporto, as chaves e cartão de estacionamento deixados no carro, a ausência de bagagem, quando chega ao guichê da companhia aérea para fazer o check-in; já são sinais de um caminho sem volta. Como em “Terra Prometida”, Gus van Sant desenvolve aqui um mundo onde em questão e crise também entram o mundo do visível, do que pensamos ver, do que achamos que vemos ou percebemos.

A partir de uma narrativa de perda e renascimento, com o recurso do flashback costurando a trama com a inserção de um drama familiar e pessoal, Gus van Sant coloca seu herói frente a um dos maiores desafios da vida: o suicídio. Exceto quando entram os flashbacks didáticos (demasiadamente, explicativos, mas necessários enquanto delineamento do passado e do lugar de origem do personagem), todo o filme se passa no coração da floresta de Aokigahara, que também é conhecida como “Sea of Trees” (título original do filme) e tem o Monte Fuji como farol (físico e visual).

Famosa pelo alto índice de suicídios de locais e estrangeiros que para lá se dirigem em busca da resolução para os dilemas de vida, entre as árvores gigantescas, acidentes geográficos e rios de Aokigahara, Gus van Sant constrói um labirinto natural e psicológico, de onde, praticamente, é impossível encontrar as portas de saída.

Mais uma vez, coloca sua câmera habitual seguindo o personagem de McConaughey, mapeando seus passos, corpo e contato com aquele mundo físico, com corpos pendurados, em putrefação e fantasmagóricos. Longe de qualquer flerte com o cinema de horror, esse filme de van Sant é mais uma elegia onde todos os nós precisam ser vistos e desatados para que as portas do renascimento encontrem alento e permitam saídas para uma nova vida que precisa de serenidade e recomeço.

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Marcos Aurélio Felipe

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