Hilda Hilst, trilogia obscena e pornográfica

6 de setembro de 2010 às 9:12 - 2 Comentários
Por Tânia Costa

Numa época em que palavras, gestos e atitudes só eram cabível aos homens, Hilda Hilst consagrou-se na poesia, na dramaturgia e na prosa narrativa.
Hilda Hilst escreveu uma trilogia pornográfica, a fim de atrair o leitor para sua obra literária. Apostando no interesse do mercado editorial para este tipo de literatura, ela o faz de forma irônica e debochada através da trilogia obscena e pornográfica: O caderno rosa de Lori Lamby (1990), Cartas de um sedutor (1991), Contos d’escárnio/ Textos grotescos (1992).
É o que tenho constatado lendo Cartas de um sedutor, cujo narrador é um escritor fracassado, Stamatius (Tiu) – negro, viúvo, pobre e desdentado que perdeu todos os seus bens por persistir em ser escritor e que, agora, vive perambulando pelas ruas catando lixo com sua companheira Eulália.
Cartas de um sedutor aborda o homossexualismo e os desejos incestuosos de uma forma bastante intensa.

Tínhamos um amigo, o Stamatius [...] que perdeu tudo, casa e outros bens, porque tinha mania de ser escritor. Dizem que agora vive catando tudo quanto há, é catador de lixo, percebes? Vive num cubículo sórdido com uma tal de Eulália [...]. O Tiu quer escrever, só pensa nisso, pirou [...] Bonito o Stamatius. Elegante, esguio. A última coisa que fez antes de sumir por aí foi torcer as bolotas de um editor, fazê-lo ajoelhar-se até o cara gritar: edito sim! edito o seu livro! com capa dura e papel bíblia! só então largou as bolotas e balbuciou feroz: vai editar sim, mas a biografia da tua mãe, aquela findinga, aquela léia, aquela moruxaba, aquela rabaceira escrachada que fodeu com o jumento do teu pai – e quebrou-lhe os dentes com a muqueca mais acertada que já vi. Quebrou a mão também (Hilst, 1991, p. 49)

Lutécia minha. Nunca mais. Era gorducha e alta. E que ternura no rego dos seios, nos meios, na mata, nas rebembelas. Que nádegas! Eu encostava a cara ali e às vezes meio chorão, meio parvo, dizia àquelas carnes estofadas: se eu tivesse tido um travesseirim como o teu, Lutécia, quando era garoto esquálido, chinfrim, teria sido um poeta. (Hilst, 1991, p. 9).

Palomita, lembras-te que mergulhavas o meu pau na tua xícara de chocolate e em seguida me lambias o ganso? Ahh! tua formosa língua! Evoco todos os ruídos, todos os tons da paisagem daquelas tardes… cigarras, os anus pretos (aves cuculiformes da família dos cuculídeos… meu Deus!) e os cheiros… o jasmim-manga, os limoeiros… e teus movimentos suaves, alongados, meus movimentos frenéticos… Ahhh! (Hilst, 1991, p. 64).

Às vezes ela é insuportável. Diz que me ama mas não suporta quando nos meus “arroubos” digo a palavra boceta. Pergunto-lhe se é um problema de ordem moral ou de semântica. Arregala os olhos, e fica claro que não tem a menor idéia do que seja semântica, e responde: é apenas disgusting, meu bem, nada a ver com a moral, há outras palavras que me soam também desagradáveis.
quais?
ah, você vai rir de mim… mas não suporto a palavra efusão nem a palavra fartura… fico até fria… veja será que são os us?
mas o que acontece se alguém ficar repetindo boceta, fartura, efusão?
ah, benzinho, por favor, posso até desmaiar, já não estou bem… não repita…
é mesmo? estranho… já desmaiou alguma vez?
quase morri quando disseram as três ao mesmo tempo… é uma coisa no ouvido… dói…
Fiquei radiante. Desejei sim que morresse. Aos trancos vieram-me frases surpreendentes. E comecei:
houve uma efusão farturosa de bocetas
e naquela efusão… a boceta na cama… a fartura na mesa…
bocetas claras de pêlos fartas, efusões sinceras
bocetas sobre a mesa, fartura de ninfetas, efusão de picas
faturo-te a boceta em efusão
efusão sincera, mastruço em ação, e duas metas: aro e boceta
Enfiou-se embaixo da cama, aos prantos, fui atrás, nu, cravei-lhe as unhas na bundinha e fui repetindo fartura efusão boceta, dei-lhe uns sopapos, até que desmaiou. Quando acordou, falei: to repetindo: fartura efusão boceta. Sorriu. Sarou. (Hilst, 1991, p. 66-67).

(Cartas de um sedutor – SP: Paulicéia, 1991.)

2 Comentários

  1. Jarbas Martins
    6 de setembro de 2010

    leitura indispensável para se conhecer o melhor da literatura brasileira contemporânea, Tânia. concordo com você. abs.

  2. 7 de setembro de 2010

    belo texto, ganhei o dia, parabens Tânia

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

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    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
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    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
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    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
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