História e memória em dois novos livros

13 de julho de 2009 às 8:26 - Comentar
Por Nelson Patriota

A chegada quase simultânea dos livros “Pelas ruas de Havana”, de Rubens Coelho, e “Parnamirim Field – o último pouso”, de Lenilson Antunes, às livrarias, dá mostras de certa vitalidade da literatura norte-rio-grandense em dois campos diferentes, haja vista que o primeiro recai sob o gênero de relato pessoal, enquanto o segundo incursiona pela ficção histórica.

Como nada do que acontece na literatura é por acaso, Lenilson se adianta ao especulativo leitor e destaca que nasceu no auge da Segunda Grande Guerra. Esse fato por si só não é capaz de gerar um ficcionista, mas quando associada a outros – estudos sociológicos, por exemplo – e, last but not least, imaginação e talento, apoiados numa sólida pesquisa historiográfica, podem explicar o tardio mas surpreendente romance que urdiu com engenho e arte.

Na orelha para “Parnamirim Fiel”, Nei Leandro de Castro assinala que há muitos estudos inspirados no papel que o então “Parnamirim Field” desempenhou na Segunda Guerra. Mas esse seria o primeiro romance que o tema inspirou. E não lhe faltam elementos clássicos da ficção histórica, como a ambientação realista, espionagem internacional com seus agentes secretos nem sempre à altura de suas missões, além de amor, paixão, ambição e outros ingredientes imponderáveis, como o humor, e que fazem a diferença entre o real e o possível, de que só a boa ficção é capaz.

O livro do cearense-potiguar Rubens Coelho, que fez de Mossoró sua cidadela, lida, a exemplo do de Lenilson Antunes, com um fato singular, mas confere a ele um tratamento de depoimento, embora lhe recuse a rubrica de memórias. Entendemos que assim proceda por restringir a abrangência do livro a episódios pontuais aos quais faltam a reflexão e a análise constituintes das memórias lato sensu.

A rigor, “Pelas ruas de Havana” é o exorcismo de uma fantasia política que o autor desenvolveu e alimentou durante os muitos anos em que militou nas barricadas contra a ditadura de 64, na clandestinidade país afora. Era preciso conhecer Havana; era preciso ver de perto a diferença que o socialismo de inspiração soviética teria feito na ilha caribenha de José Martí e Fidel Castro.

Passadas a distensão e a anistia e restaurada a ordem democrática no país, Rubens Coelho finalmente encontrou a ocasião propícia para verificar de perto o que havia por trás do sonho pregresso do socialismo à Cuba, sobre o qual a opinião pública internacional se achava dividida desde a queda do muro de Berlim, em 1989.

Relato de maturidade, “Pelas ruas de Havana” é um livro que se pretende realista, ou seja, fiel à crueza dos fatos quando eles assim se apresentem. E essas são características presentes em grande monta nas suas páginas, como o leitor logo perceberá, haja vista a distância que comumente separa a realidade da utopia.

Nem sempre os fatos depõem contra o governo revolucionário. A tranquilidade aparente das ruas de Havana indica que a violência urbana é um problema urbano inexistente na ilha de Pablo Milanez e “Bola de Nieve”. As crianças cubanas parecem estar todas recolhidas às escolas nos dias comuns e não há indícios de motins populares. Nada disso, porém, impediu que o ex-militante político deixasse de detectar a incômoda presença do comércio do sexo na ilha, desde praticamente o primeiro dia da sua chegada.

Reportagem-verdade, como se dizia nos tempos heróicos do jornalismo engajado, “Pelas ruas de Havana” se dispensa o esforço de fazer proselitismo. A Rubens, bastam os fatos. Nem mesmo sabemos, ao final da leitura, se o Autor, em seu balanço final da viagem, saiu frustrado ou confiante. Questionado a esse respeito, ele poderia talvez retrucar que o leitor fizesse a si mesmo a pergunta a partir dos fatos, abundantes, que ele disseminou no texto. Este é, aliás, um bom exercício da chamada “leitura ativa” ou “participativa”. Vale frisar que os resultados de tal exercício costumam ser surpreendentes.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”